

Beijos que Conquistam
Nora Roberts

7 da Srie de MacGregors



De uma hora para a outra, Darcy Wallace passou de jogada  prpria sorte a milionria, com direito a jantar  luz de velas com Robert MacGregor Blade. Mac  o homem
mais sedutor que ela j conheceu, mas certamente no  do tipo que se casa. No entanto, Darcy estava se sentindo numa mar de sorte... Assim, com beijos ingnuos
e um charme frgil, a bela inocente decide faz-lo perceber que o amor  o maior dos jogos... e que ele ter de apostar...


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CAPTULO I

         Quando, de repente, o escapamento explodiu e o motor do carro parou de funcionar a poucos quilmetros de Las Vegas, Darcy Wallace considerou a possibilidade
de permanecer onde estava e deixar-se esvaecer sob o brutal sol do deserto. Tinha apenas nove dlares e trinta e sete centavos no bolso e uma longa estrada atrs
de si que no levava a lugar algum.
         Felizmente, guardara aqueles trocados antes que a bolsa fosse roubada durante o jantar em Utah, na noite anterior. O sanduche de frango havia sido a ltima
refeio que tivera, e imaginava que ter ainda os quase dez dlares no bolso era um verdadeiro milagre.
         O trabalho e a casa em Kansas no existiam mais. No possua famlia, ningum a quem recorrer. Tivera todas as razes do mundo para arrumar as malas e fugir
da cidade que, certa vez, fora seu lar.
         Viajou rumo ao oeste porque simplesmente seu carro apontava para essa direo e achou que era um bom pressgio. Prometera a si prpria uma aventura, uma
odissia pessoal e uma nova vida.
         Ler sobre mulheres ousadas que desbravavam o inundo, corriam riscos e aceitavam desafios no era mais suficiente para lhe alimentar a alma. Estava na hora
de fazer algo por si mesma; ou, ao menos tentar, pensava ela enquanto percorria quilmetros e quilmetros de estrada no velho carro.
         Se ficasse, teria de se comportar. Outra vez. Fazer o que lhe fora ensinado. Novamente. E passar resto da vida lamentando os sonhos no realizados
         Mas agora, uma semana aps ter sado da cidade no meio da noite, tal qual um ladro, Darcy se perguntava se no era melhor ser comum. Talvez devesse seguir
todas as regras, como sempre fizera, Talvez devesse se contentar com o que a vida lhe oferecia, e manter os olhos baixos, em vez de tentar descobrir o que havia
alm da curva na esquina.
         Gerald teria lhe proporcionado uma vida tranqila, algo que muitas mulheres invejariam. Com ele, Darcy viveria em uma adorvel casa, com armrios repletos
de roupas chiques, teria uma residncia de vero em Bar Harbor e passaria as frias de inverno em lugares de clima tropical. Ela jamais passaria fome.
         Tudo isso pelo preo de fazer o que lhe fora ensinado. Conforto e segurana em troca de ver seus sonhos mais secretos massacrados pela rotina.
         Fechando os olhos, Darcy encostou a testa na direo. Por que Gerald a queria tanto?, pensou. No havia nada de especial nela. Era inteligente mas tinha 
um rosto comum. A prpria me a havia descrito como uma garota trivial.
         No acreditava que Gerald estava atrado fisicamente, embora Darcy suspeitasse que ele apreciava o fato de ter uma mulher de baixa estatura ao lado, para 
poder domin-la mais facilmente.
         Deus, ele a assustava.
         Lembrava-se de quo furioso Gerald ficara quando ela mesma cortara os enormes cabelos, at deix-los um pouco acima dos ombros.
         Ora, Darcy gostava de cortes ousados, concluiu com ar beligerante. E os cabelos eram dela, afinal, acrescentou em pensamento, enquanto acariciava as pontas 
disformes nas mechas castanhas. Graas a Deus, no haviam se casado. Ele no tinha direito de dizer-lhe como se vestir, como se comportar.
         Ela jamais deveria ter aceito o pedido de casamento. Estava to cansada, to assustada e confusa. Embora o arrependimento e as dvidas a ameaassem, apesar 
de ter devolvido o anel com um pedido de desculpas, Darcy achara melhor fugir a enfrentar a ira de Gerald e as fofocas em torno do noivado desfeito.
         Mas descobrira que Gerald fora o responsvel por ela perder o emprego e pela ameaa de despejo de seu apartamento.
         Ele a queria submissa e sem recursos. E Darcy quase cedera s presses, conclua agora enquanto limpava o suor do rosto.
         Em um impulso, abriu a porta do carro e saiu. Tinha menos de dez dlares, nenhum transporte e aproximadamente dois quilmetros de caminhada  frente. Estava 
livre da tirania de Gerald. Encontrava-se, enfim. com vinte e trs anos e  merc de si prpria.
         Deixando a valise no porta-malas, Darcy pegou a pesada sacola de couro, que continha tudo o que precisava, e comeou a caminhar. Havia chegado o momento
de ver o que existia depois da curva na esquina.
         
         Chegou a seu destino depois de uma hora de caminhada. No sabia explicar por que se mantinha naquela rodovia, longe de hotis, postos de gasolina, e andando 
em direo s coloridas luzes de Las Vegas. S tinha certeza de que desejava estar l, entre os prdios exticos e o burburinho da cidade em constante festa.
         O sol comeava a se pr, colorindo o cu de vermelho, tal qual um osis perdido no deserto. De tanto cansao e calor, a fome havia desaparecido. Darcy chegou 
a pensar em parar para se alimentar mas existia algo de teraputico em pr um p na frente do outro e manter os olhos atentos aos espetaculares hotis adiante.
         Como seriam por dentro? Ela imaginava uma atmosfera de sexo e jogos, desespero e triunfo, de olhares maliciosos  procura de aventura. Haveria homens charmosos 
e mulheres atraentes. Se conseguisse um trabalho em um daqueles cassinos, poderia assistir aos shows todos os dias.
         Oh, como adoraria experimentar essa vida.
         Queria multides ao redor, o barulho das mquinas, o sangue quente e os nervos  flor da pele. Tudo que representasse o oposto do que j havia vivido. E 
mais, Darcy desejava sentir emoes fortes, avassaladoras, de euforia e excitamento. E poderia escrever a respeito das experincias, convenceu-se, tocando a bolsa 
de couro, repleta de anotaes e pginas manuscritas que pesavam feito chumbo. Em local reservado, ela escreveria acerca de tudo.
         Tonta de exausto, Darcy quase se arrastou pela calada, at a prxima esquina. Ao vir-la, deteve-se de repente. As ruas estavam repletas de pessoas que 
corriam de um lado para o outro. Mesmo com a luminosidade do entardecer, as luzes da cidade piscavam, ininterruptamente, seus dizeres: Ganhe voc tambm!, D asas 
a sua sorte! Faa os dados rolarem!
         Havia famlias de turistas, pais de bermudas, crianas de olhos atentos, mes frenticas tentando apreender todos os estmulos visuais.
         Os olhos de Darcy estavam arregalados, embora tambm estivessem fadigados. O homem-vulco foi lanado para o ar, causando gritos e comentrios surpresos 
da multido que se amontoava para assistir ao espetculo. O barulho estrondoso parecia ainda ecoar nos ouvidos de Darcy minutos aps a exploso. Aturdida, ela foi 
arrastada pela multido e viu-se diante de duas esttuas romanas, contornadas com luzes de non. Ao lado daquelas esculturas de gesso, havia uma fonte enorme, iluminada 
com luzes de todas as cores. Parecia a terra da fantasia. Fascinada, Darcy sentia-se a prpria Alice, perdida naquele pas das maravilhas.
         De sbito,  encontrou-se  diante  de  duas  torres imensas, to brancas quanto a lua e unidas por uma ponte curva com centenas de janelas. Ao redor do prdio 
havia flores, selvagens e exticas, e piscinas de gua transparente alimentada por uma fantstica cachoeira que caa de uma montanha artificial. A entrada da ponte 
era vigiada por uma poderosa esttua, de tamanho natural, de um chefe ndio sobre seu cavalo dourado. A pele do rosto e do peito largo era avermelhada. O majestoso 
cocar, enfeitado de penas vermelhas, azuis e verdes, combinava com a postura altiva de guerreiro. Na mo esquerda, o ndio carregava uma lana brilhante, cravada 
por pedras preciosas.
         A escultura era to magnfica que Darcy sentiu-se orgulhosa e confiante. Podia jurar que os olhos da esttua estavam vivos, fixos nela. O chefe ndio a 
desafiava a chegar mais perto, a entrar e arriscar a sorte.
         Darcy entrou no Comanche e arrepiou-se com a sbita queda de temperatura por causa do ar condicionado.
         O hall era imenso, e o cho fora enfeitado de ladrilhos cor de esmeralda e safira. Vasos de cactos e palmeiras estavam espalhados pelo salo. Castiais 
de velas coloridas enfeitavam as minsculas mesas, e o aroma de lils era to forte que provocou-lhe lgrimas nos olhos.
         Ela caminhou devagar, encantada com a cascata que nascia em uma pedra, caindo sobre uma pequena lagoa de peixes dourados. As luzes se refletiam, brilhantes, 
na superfcie da gua. O lugar possua brilhos e cores inusitados, retratando uma realidade que Darcy jamais sonhara existir.
         Uma gargalhada ameaou surgir, mas Darcy a reprimiu, tapando a boca com as mos. No era hora nem lugar de fazer-se notar. No pertencia aquele local to 
glamouroso.
         Deu mais alguns passos e virou-se em direo ao barulho inconfundvel do cassino. Sinos, vozes e o rudo de moedas ecoavam pelo ar. O som das roletas se 
misturava a gritos e risadas. Ondas de adrenalina comearam a fluir por suas veias.
         Havia mquinas em todos os cantos; olhares esperanosos fitavam o painel dos caa-nqueis. As pessoas se amontoavam ao redor das mquinas, em p, sentadas, 
alimentando os visores com potes repletos de moedas. Darcy observou uma mulher apertar um boto vermelho, esperar que a pequena roda parasse de girar, e ento gritou 
de delrio quando trs barras idnticas se alinharam no visor. Centenas de moedas caram sobre uma bandeja de prata.
         Aquela cena fez Darcy sorrir.
         Tudo parecia engraado, luminoso e impulsivo. Havia possibilidades de vrias propores. E vida, barulho, confuso e calor.
         Nunca jogara em sua vida, no por dinheiro. Dinheiro era algo para ser conquistado, poupado e cuidadosamente gasto. Colocou a mo no bolso e, com a ponta 
dos dedos, roou as ltimas notas que tinha. Se no for agora, quando ser?, perguntou-se, controlando a risada. Que faria com nove dlares e trinta e sete centavos? 
Poderia pagar uma refeio. Mas e depois?
         Tentada, Darcy caminhou pelos corredores, encarando as pessoas e as mquinas. Todos arriscavam a sorte, pensou. Por isso estavam ali. E ela, por que entrara 
naquele cassino? Ento divisou algo grande, fascinante e solitrio. A mquina, bem maior que Darcy, possua estrelas e luas reluzentes. A alavanca vermelha encontrava-se 
prxima a sua mo.
         Chamava-se o Comanche Mgico. A palavra jackpot cintilava entre os motivos coloridos do fantstico aparelho. Imitaes de rubis brilhavam ao redor da moldura 
metlica. Darcy fitou, encantada, os nmeros que piscavam sobre a mquina. U$ 1.800.079,37.
         Que quantia intrigante. Nove dlares e trinta e sete centavos, ela disse em pensamento, esfregando o dinheiro no bolso. Talvez fosse um sinal.
         Quanto deveria ser a aposta? Aproximando-se, leu os dizeres que explicavam as regras do jogo. Tratava-se de uma mquina progressiva; a quantia ia sendo 
acumulada conforme os jogadores investiam dinheiro. Poderia apostar um dlar, Darcy leu, mas no alcanaria o prmio acumulado mesmo se as estrelas e as luas se 
alinhassem nas trs colunas. Para jogar de verdade, ela teria de arriscar trs dlares. Pouco menos de todo o dinheiro que possua no mundo.
         Experimente, uma voz parecia sussurrar em seus ouvidos.
         "No seja tola." Uma voz grave mostrou-se repreensiva e familiar demais. No pode jogar todo seu dinheiro fora.
         Viva ao menos uma vez. Havia excitamento e seduo naquele sussurro. O que est esperando?
         - No sei - murmurou. - Mas estou cansada de esperar.
         Diante do clima desafiador da mquina, Darcy retirou o dinheiro do bolso devagar.
         
         Enquanto circulava entre as mesas do cassino, Robert MacGregor Blade rubricou suas iniciais em algumas notas. O homem da cadeira trs no fazia por menos, 
pensou, apostava tudo o que podia para ganhar. Mac estranhou ao v-lo completar quinze pontos com o rei.
         Se quer desafiar a casa com apostas de cem dlares, ele pensou quando a banca apresentou sete pontos, deveria saber como faz-lo.
         Em um gesto casual, Mac chamou um dos seguranas.
         - Fique de olho nele - Mac avisou-o, apontando para o apostador. - Ele est prestes a criar problemas.
         -  Sim, senhor.
         Prever confuses e problemas era algo inato em Mac. Sendo a terceira gerao de uma famlia de jogadores, ele desenvolvera tal intuio. Seu av, Daniel 
MacGregor, havia feito fortuna em mesas de jogo. Propriedades de valor eram o primeiro amor de Daniel, e ele continuava a compr-las e vend-las para aumentar e 
preservar seu patrimnio, embora j estivesse com quase noventa anos.
         Os pais de Mac haviam se conhecido em um cassino. Sua me distribua cartas em uma mesa de blackjack, e seu pai sempre fora um timo jogador.
         Os dois se encontraram e se apaixonaram, alheios s manobras que Daniel articulara para v-los casados e dando seqncia  linhagem dos MacGregor.
         Justin Blade possua, na poca, o Comanche em Las Vegas e outro cassino em Atlantic City. Serena MacGregor tornara-se sua scia e depois, esposa.
         O filho mais velho do casal j nascera sabendo jogar dados.
         Agora, perto dos trinta anos, Mac tinha o Comanche sob sua responsabilidade. Seus pais lhe haviam confiado o cassino, e ele fazia de tudo para que no se 
arrependessem da deciso.
         Administrava a propriedade de forma honesta e com pulso firme. Fazia-o rentvel porque pertencia s empresas Blade-MacGregor.
         De fato, apostava em si mesmo, e sempre vencia.
         Sorriu ao ver uma mulher conseguir vinte e um e aplaudir-se pela vitria. Alguns venciam, Mac refletiu, a maioria no. A vida era um jogo, e a casa sempre 
determinava o limite.
         Mac era um homem alto, movia-se entre as mesas com facilidade, vestia, naquela noite, um elegante terno azul-marinho. Alm do Comanche, ele recebera como 
herana a pele morena, os cabelos negros e o corpo musculoso.
         Mas seus olhos eram azuis, tal qual seus ancestrais escoceses.
         Expressou um sorriso rpido e simptico quando um cliente regular o cumprimentou. Mas no parou para perder tempo com conversas fteis. Havia muito trabalho 
esperando por ele no escritrio, no andar superior do cassino.
         - Sr. Blade?
         Mac se virou e parou de andar, ao ver uma das garonetes aproximando-se.
         -  Sim?
         -  Acabo de vir do setor de caa-nqueis. __ A garonete tentou no suspirar quando Mac a fitou com os brilhantes olhos azuis. - H uma mulher estranha 
na mquina do prmio acumulado. Ela  encrenca na certa, sr. Blade. Est suja de poeira e um tanto assustada. Deve estar aprontando alguma. Permanece parada, falando 
consigo mesma... Acho melhor chamar a segurana.
         - Vou at l.
         - Ela age de modo pattico. No me parece honesta - acrescentou a garonete. - Creio que est doente.
         -  Obrigado, vou cuidar disso.
         Em vez de retornar aos deveres em seu escritrio, Mac resolveu verificar a histria pessoalmente. A segurana poderia resolver esse tipo de problema, mas 
ele gostava de se inteirar do que acontecia em sua propriedade.
         
         Darcy apostou os ltimos trs dlares.
         -  Voc  louca - disse a si mesma, enquanto inseria as notas na mquina. - Perdeu o juzo. - O corao parecia gritar de desespero quando o imenso aparelho 
brilhante engoliu o derradeiro dlar. Mas era emocionante cometer aquela loucura.
         Fechou os olhos por um instante, respirou fundo e abriu-os novamente. Segurou a alavanca com a mo tremula.
         E puxou-a.
         Estrelas e luas corriam sob o monitor na frente de Darcy; luzes coloridas piscavam, e sinos tocavam em vrios tons. Ela se viu sorrindo diante do absurdo 
da situao.
         Aquela era sua vida, concluiu, absorvida pelas figuras que rodavam a sua frente sem cessar. Quando parariam? Para onde iriam?
         Sorriu ainda mais ao notar que as estrelas e luas comearam a deter-se na tela. Eram lindas. Valia a pena simplesmente observar o funcionamento da mquina 
e saber que arriscara a sorte pela primeira vez.
         Luas cheias e estrelas brilhantes. Darcy queria estar atenta a cada movimento, ouvir todos os sons. No era incrvel ver aquelas figuras se alinharem?, 
pensou e apoiou-se na mquina antes que perdesse o equilbrio com a fraqueza sbita que sentiu.
         Mas, no momento em que tocou o metal frio, o movimento parou. E o mundo explodiu.
         Sirenes ecoavam pelo ar, fazendo-a recuar, chocada. Luzes coloridas acendiam, descompassadas, sobre a mquina, e o som de um tambor comeou a repercutir. 
Todas as pessoas ao redor gritavam e se aproximavam.
         O que ela fizera? Oh, o que teria acontecido?
         - Santo Deus, voc ganhou o prmio acumulado!
         Algum agarrou-a pela cintura e rodopiou-a pela sala. Darcy no conseguia respirar direito, sentia-se fraca para fugir dali.
         Todos a puxavam e empurravam, gritando palavras que ela no podia compreender. Rostos passavam diante dela, e corpos a empurravam at prens-la contra a 
mquina.
         Ela sentiu-se sufocada.
         Mac abriu espao em meio  multido, empurrando alguns clientes. Ento ele viu de relance uma mulher que, apesar de jovem, parecia ter idade suficiente 
para estar no cassino. Os cabelos castanhos, na altura dos ombros, eram mal cortados. Os olhos verdes estavam arregalados de medo, e o rosto, plido.
         As roupas estavam em pssimo estado; na verdade, a mulher parecia ter dormido com elas mesmo depois de horas vagando no deserto.
         No era bebedeira, Mac deduziu ao tocar no brao trmulo. Era temor.
         Darcy virou o rosto e o fitou. Viu, naquele instante, o chefe ndio emanando poder, desafio e romance. Ele a salvaria... ou a mataria.
         - No pretendia... o que aconteceu? Sorrindo, Mac divertiu-se com a ingenuidade da garota.
         - Voc apostou e ganhou.
         -  Oh, verdade? 
         Ento ela desmaiou.
         
         Havia algo macio roando-lhe as faces. Assemelhava-se  seda, Darcy concluiu, ainda atordoada. Sempre adorara a maciez da seda.
         Certa vez, gastara todo o salrio comprando uma blusa de seda bege com pequenos botes dourados. Ficou sem almoar durante duas semanas, mas sentir o tecido 
sobre a pele compensara o sacrifcio.
         Suspirou, lembrando-se daquele momento.
         - Vamos, est na hora de acordar.
         -  O qu? - Ela piscou vrias vezes, e divisou um lustre luxuoso no teto.
         - Tente beber isso. - Mac segurou-a pela nuca e ergueu a cabea dela para ajud-la a tomar um pouco de gua.
         - O qu?
         - Est sendo repetitiva. Beba mais.
         -  Certo. - Obediente, Darcy tomou outro gole, estudando a pele morena da mo que segurava o copo. Estava em uma cama coberta de lenis de cetim- - Oh, 
Deus. - Levantou os olhos at visualizar o rosto dele. - Pensei que voc fosse o chefe ndio. 
         -. Quase. - Mac colocou o copo na mesa e sentou-se na beirada da cama. Riu quando ela se afastou, mantendo certa distncia. - Sou Mac Blade. Dirijo o cassino.
         - Darcy. Sou Darcy Wallace. Por que estou aqui?
         - Achei melhor traz-la para c em vez de deix-la cada no cho do cassino. Voc desmaiou.
         - Mesmo? - Mortificada, ela fechou os olhos. - Sim, acho que desmaiei. Desculpe.
         - No  uma reao fora do comum para algum que ganhou quase dois milhes de dlares.
         Abrindo os olhos, ela levou as mos ao peito.
         -  Sinto muito, estou um tanto confusa. Disse que ganhei quase dois milhes de dlares?
         - Colocou o dinheiro na mquina, puxou a alavanca e ganhou o prmio acumulado. - No havia cor no rosto dela. - Resolveremos os trmites legais quando estiver 
se sentindo melhor. Quer ver um mdico?
         -  No, eu... estou bem. No consigo raciocinar. Minha cabea est girando.
         - Fique  vontade. - Mac ajeitou os travesseiros e a acomodou. - Quer que eu chame algum conhecido seu para vir ajud-la?
         - No! Por favor!
         Embora espantado com a reao, Mac assentiu.
         -  Tudo bem.
         - No h ningum - Darcy explicou mais calma. - Estou viajando. Minha bolsa foi roubada ontem em Utah. Meu carro quebrou a poucos quilmetros daqui. Creio 
que foi o leo dessa vez.
         - Pode ser - ele murmurou. - Como chegou aqui?
         -  Andando. - Ou ao menos ela imaginava ter sido assim. Era difcil lembrar-se dos detalhes. - Eu tinha apenas nove dlares e trinta e sete centavos...
         -  Entendo. - Mac no sabia se se tratava de uma luntica ou uma jogadora profissional. - Bem, agora possui um milho, oitocentos mil, oitenta e nove dlares 
e trinta e sete centavos.
         -  Oh... - Darcy ocultou o rosto com as mos e comeou a soluar.
         Houvera mulheres suficientes na vida de Mac para deix-lo incomodado com lgrimas femininas. Sentado onde estava, observou-a chorar.
         Que figura peculiar, pensou. Quando ela desmaiou em seus braos parecia to lnguida e no pesava mais que uma criana. Agora dizia-lhe que caminhara sob 
o sol do deserto e arriscara todo seu dinheiro no cassino.
         Tal ato requeria tanto coragem quanto insanidade.
         De qualquer forma, ela ganhara o grande prmio. Agora estava rica e, por enquanto, sob a responsabilidade de Mac.
         - Desculpe. - Darcy descobriu o delicado rosto ainda molhado pelas lgrimas. - No sou sempre assim. Juro. Mas no consegui me conter. - Aceitou o leno 
que Mac lhe oferecia e assoou o nariz. - No sei o que fazer.
         -  Vamos comear com o bsico. Quando foi a ltima vez que se alimentou?
         -  Ontem  noite... bem, comprei uma barra de chocolate hoje de manh, mas derreteu antes que eu pudesse termin-la. Ento o doce no conta.
         - Vou pedir uma refeio para voc. Preciso descer e dar algumas instrues. Por que no toma um banho quente e relaxa?
         - No tenho roupas. Deixei minha mala no carro. Oh! Minha bolsa. Eu estava com minha bolsa.
         - Est aqui. - Como ela se tornava plida de novo, Mac apressou-se em pegar a bolsa de couro. __  esta?
         __Sim, obrigada. - Aliviada, Darcy voltou a relaxar. - Pensei que a tivesse perdido. No so roupas - acrescentou, suspirando. -  meu trabalho.
         -  Est seguro aqui. H um robe no armrio. Darcy clareou a voz. A despeito de quo gentil aquele homem estava sendo, encontrava-se sozinha com ele, um 
perfeito estranho em um opulento e luxuoso quarto.
         - Agradeo a ateno. Mas, se puder me adiantar algum dinheiro, posso encontrar um hotel.
         - H algo errado com este?
         -  Como?
         -  Este hotel - Mac respondeu com admirvel pacincia. - Esse quarto.
         - No, nada.  lindo.
         -  Ento, sinta-se  vontade. O quarto ser registrado em seu nome durante sua estada...
         -  Desculpe? - Darcy se sentou, assustada. - Posso ficar neste quarto?
         - E o procedimento habitual para os ganhadores. - Ele sorriu outra vez, fazendo o corao de Darcy disparar. - Voc est qualificada.
         -  Estou?
         - O gerente espera que voc devolva ao hotel um pouco do que ganhou. Nas mesas de jogo ou nas lojas. Seu quarto e refeies so por conta da casa.
         - Vou me hospedar aqui de graa porque ganhei dinheiro de seu cassino?
         Dessa vez, Mac sorriu de modo malicioso.
         -  Quero a chance de recuperar a quantia. Cus, ele era lindo. Como um heri de romances.
         Tal pensamento ativou-lhe o crebro.
         - Muito justo. Obrigada, sr. MacBlade.
         -  No  MacBlade - ele a corrigiu, apertando a mo que Darcy lhe oferecia. -  Mac. Mac Blade.
         -  Creio que no ando muito coerente.
         - Vai se sentir melhor depois que se alimentar e dormir.
         -  Estou certa que sim.
         - Que tal conversarmos pela manh? s dez horas em meu escritrio?
         -  Sim, est perfeito.
         - Bem vinda a Las Vegas, srta. Wallace. - Mac se levantou e caminhou at a escada que dava acesso  sala.
         - Obrigada mais uma vez. - Darcy forou as pernas trmulas para alcanar o corrimo. Mas sentiu-se tonta ao olhar para baixo e ver a requintada sala com 
mveis cor de bano e flores tropicais. - Sr. Blade?
         - Sim? - Mac se virou. Ela parecia uma criana de doze anos perdida no parque.
         -  O que vou fazer com tanto dinheiro?
         -  Vai conseguir pensar em algo. - Ento ele pressionou um boto e, quando as portas se abriram, entrou no que parecia ser um elevador privativo.
         Depois que as portas se fecharam, Darcy deixou-se vencer pela emoo e ajoelhou-se no carpete. Respirava ofegante. Se fosse um sonho, alguma alucinao 
causada pelo cansao e excesso de sol, esperava nunca mais acordar.
         Ela no somente escapara da vida infeliz que tinha, como agora estava livre para viver.
         
         
         
         
         
        CAPTULO II
         
         
         Darcy acordou s seis horas da manh e fitou, estarrecida, seu reflexo no espelho que cobria o teto. Ergueu a mo e observou-se tocar o rosto. Sentiu os 
dedos, viu-os deslizar sobre as faces at atingir a testa.
         Apesar de fora do comum, aquela situao tinha de ser real. Nunca se vira deitada antes. Parecia to divertido ver-se estirada na cama.
         Espreguiou-se, empurrando a pilha de travesseiros. Tudo amanhecera diferente. Durante quantos anos acordara em sua velha cama todas as manhs?
         Anos de uma vida tediosa pareciam se tornar sculos.
         De algum modo, a mera possibilidade de nunca mais ter de acomodar o corpo quela cama desconfortvel a deixou to feliz que comeou a gargalhar at quase 
perder o flego.
         Rolou de um lado para o outro na imensa cama, sacudiu as pernas no ar, espalhou os travesseiros e, como se no bastasse, danou sobre o colcho.
         Depois de alguns minutos, jogou-se sobre os lenis e abraou os joelhos. Usava uma camisola de seda branca, um dos vrios artigos de uso pessoal que recebera 
aps o jantar. Tinham vindo da butique do hotel como presente de cortesia do Comanche.
         Darcy nem sequer se preocupou com o fato de o maravilhoso Mac Blade t-la despido. No depois de admirar-se naquela fabulosa camisola de seda. Pulou da 
cama para explorar a sute. Na noite anterior estivera to exaurida que apenas vagara pelo quarto sem reparar em nada. Agora era o momento de brincar.
         Pegou um controle remoto e apertou os botes. As cortinas azuis do mezanino onde dormira se abriam e fechavam, fazendo-a sorrir como uma tola. Ao abri-las 
novamente, divisou atravs da janela a cidade de Las Vegas.
         O cu azul estendia-se sobre o vasto deserto. Imaginou em que andar estaria j que a vista era to magnifcente. No vigsimo? Trigsimo? Pouco importava. 
Encontrava-se no topo de um novo mundo. Pressionando outro boto, Darcy abriu um painel da parede da sala, revelando uma enorme tela de televiso, um videocassete 
e um complicado aparelho de som. S sossegou quando ouviu uma cano suave invadir o ambiente e ento desceu a escada.
         Abriu todas as cortinas, sentiu o aroma adocicado das flores e experimentou o conforto dos dois sofs e das seis cadeiras. Encantou-se com a lareira e admirou 
o piano branco no canto da saleta de estar. Como no houvesse ningum para reprimi-la, sentou-se diante do instrumento e tocou a primeira melodia que lhe veio  
mente.
         Enquanto as notas fluam pelo espao da sute, ela ria de felicidade.
         Atrs do balco do bar viu uma pequena geladeira e sorriu ao encontrar duas garrafas de champanhe. Caminhou at o toalete e maravilhou-se com o telefone, 
a minscula televiso e todos os lindos acessrios de higiene arrumados dentro de uma cesta de vime.
         Cantarolando, voltou a subir a escada. A sala de banho representava o que havia de mais luxuoso no mundo. A banheira de hidromassagem ocupava metade do 
espao, e o espelho, rodeado de luzes, era capaz de refletir boa parte do corpo de Darcy. Somente o mezanino, onde ficava o quarto, era muito maior do que seu apartamento 
em Kansas.
         Ela poderia viver o resto da vida naquele hotel, pensou, contente consigo mesma. Plantas naturais enfeitavam a beirada da banheira. Em um canto havia potes 
de vidro com xampu e sabonetes. Sais de banho coloridos jaziam dentro de uma bela taa de cristal. O perfume da sala inebriava-lhe os sentidos.
         No armrio havia um robe felpudo e um par de pantufas com o logotipo do Comanche. Alm de duas elegantes poltronas ao lado da cama, havia uma mesa redonda, 
com um belo vaso de flores, diante da janela.
         Tratava-se do tipo de ostentao que ela s vira em filmes e revistas. Veludos, plumas e paets. Agora que o impacto inicial havia sido amenizado, Darcy 
se questionava acerca daquela extravagante situao.
         Como acontecera? O tempo e as circunstncias que a levaram quela cidade surgiram em sua mente. As luzes coloridas da mquina, os gritos de excitamento 
das pessoas e o inacreditvel charme de Mac Blade tornaram-se claros.
         - No se questione - sussurrou. - No estrague tudo. Mesmo que a fantasia acabe em uma hora, voc tem de aproveitar.
         Mordendo o lbio inferior, ela pegou o telefone e chamou o servio de quarto.
         -  Servio de quarto. Bom dia, srta. Wallace.
         -  Oh, Deus. - Darcy piscou vrias vezes, sentindo-se observada. - Eu queria saber se posso tomar um caf.
         -  Claro. E o desjejum?
         - Bem... - Ela no pretendia explorar ningum. - Talvez algumas torradas.
         - Apenas isso, senhorita?
         -  Sim, por favor.
         -  Seu caf da manh ser servido em quinze minutos. Obrigado, srta. Wallace.
         - Por nada... Quero dizer, obrigada.
         Aps desligar o telefone, Darcy correu para a saleta e ligou a televiso a fim de verificar se havia alguma notcia sobre de uma possvel epidemia de alucinao 
em massa.
         
         Em seu escritrio, Mac mantinha os olhos atentos s telas de segurana que registravam o movimento nas mesas de jogos. Alguns jogadores haviam passado a 
noite em claro, tentando a sorte nas roletas. Vestidos de gala confundiam-se com roupas casuais.
         Dez da noite ou da manh no fazia qualquer diferena. O tempo em Las Vegas tinha outra lgica e, para alguns apostadores, a realidade se resumia apenas 
nas cartas. Mac ignorou o fax que acabara de chegar. Caminhava pelo escritrio, tomando uma xcara de caf e conversando com o pai ao telefone.
         Imaginava que o velho Justin Blade fazia o mesmo no escritrio em Reno.
         - Vou conversar com ela em poucos minutos - Mac prosseguia. - Quero dar-lhe algum tempo para descansar.
         - Fale-me dela - Justin pediu, sabendo que os instintos do filho lhe dariam uma tima imagem da vencedora.
         - No sei muito ainda. Ela  jovem. - Mac fitava as telas, verificando o trabalho dos seguranas e a atitude dos jogadores. - E insegura - acrescentou. 
- Parece-me que est fugindo de algum problema, pelo que tudo indica, nunca havia entrado em um cassino antes.
         A imagem de Darcy invadiu-lhe a mente, e Mac pde ouvir a voz delicada outra vez.
         -  Eu diria que veio de uma cidade pequena do meio-oeste. Ela me faz pensar em uma professora do jardim de infncia. Estava falida e apavorada quando ganhou.
         - Ento foi seu dia de sorte. Se algum tem de ganhar, que seja uma professora interiorana de jardim de infncia.
         Mac sorriu.
         - Ela se desculpa por tudo.  nervosa como um rato em uma conveno de gatos. Mas  bonita - revelou, enfim, lembrando-se dos grandes olhos dourados. - 
E ingnua. Os lobos a faro em pedaos se no a prevenirmos.
         Houve uma pequena pausa.
         - Planeja se colocar entre ela e os lobos, Mac?
         -  Somente orient-la na direo certa - Mac murmurou. Sua reputao de co de guarda na famlia era famosa. - A imprensa j comeou a assediar o Comanche. 
A garota precisa de um advogado e de uma orientao sria porque, voc sabe, os urubus viro logo atrs dos lobos.
         Ele imaginou a batelada de perguntas e pedidos que chegariam a Darcy, implorando-lhe contribuies e oferecendo investimentos.
         - Mantenha-me informado.
         -  Claro. Como est mame?
         -  tima. Ela organizou uma festa a fim de angariar fundos para alguma instituio de caridade. E est dizendo que pretende passar por Las Vegas quando 
formos a Boston. Uma rpida visita - Justin acrescentou. - Ela sente saudade do beb.
         -  Sei. - Mac sorriu. Sabia que seu pai faria tudo por uma mnima chance de visitar a nica neta, em Boston. - Como vai a pequena Anna?
         -  Fantstica.  Os dentes  comearam  a crescer. Gwen e Bran no tm dormido muito durante a noite.
         -   o preo a pagar pela paternidade.
         - Tive muitas noites insones com voc, filho.
         -  Como eu disse... - Mac riu. - Voc faz a escolha e arca com as conseqncias. - De repente, algum bateu  porta. - Deve ser a fada ansiosa.
         -  Quem?
         - Nossa recente milionria. Entre! - Mac gritou e acenou para Darcy, que parou, hesitante,  soleira da porta. - Ligo para voc mais tarde. Cumprimente 
mame por mim.
         - Tenho o pressentimento de que poder cumpriment-la pessoalmente em poucos dias.
         -  timo. At breve.
         No minuto em que ele desligou o telefone, Darcy encheu-se de culpa.
         -  Sinto muito. No sabia que estava ocupado. Sua assistente, ou secretria, disse-me que eu poderia entrar. Mas voltarei mais tarde. Depois que terminar 
seu trabalho.
         Paciente, Mac esperou que ela parasse de falar. Isso lhe deu a oportunidade de ver como uma refeio e uma boa noite de sono faziam bem  beleza das mulheres. 
Darcy parecia menos frgil e incrivelmente... composta, usando aquela saia e blusa que ele pedira  butique para entregar na sute.
         Porm, continuava nervosa e aflita.
         - Por que no se senta?
         - Est bem. - Ela ajeitou a saia e sentou-se na confortvel poltrona de couro verde. - Eu estava me perguntando... se no houve algum engano.
         A poltrona a envolvia, fazendo-o visualiz-la como uma pequena fada sentada sobre um imenso cogumelo encantado.
         -  Engano?
         - Sim, o dinheiro. Hoje de manh me dei conta de que tudo pode no ter acontecido.
         -  Aqui em Las Vegas tudo pode acontecer. - Esperando deix-la mais  vontade, Mac sentou-se na ponta de sua escrivaninha. - Voc j tem vinte e um anos, 
certo?
         - Vinte e trs. Farei vinte e quatro em setembro. Oh, esqueci de lhe agradecer pelas roupas. - Darcy se forou a no pensar nos conjuntos de lingerie, tampouco 
considerar que ele poderia lembrar-se de que a despira. Mas, mesmo assim, o rubor subiu-lhe s faces. - Foi muita gentileza.
         - As peas serviram?
         -  Sim. - O rubor aumentou. O suti de rendas era exatamente de seu tamanho. Ela no queria especular como Mac pde ser to preciso. - Perfeitas.
         -  Dormiu bem?
         -  Como se algum houvesse me enfeitiado - ela brincou. - Acho que vinha dormindo mal nos ltimos tempos. No costumo viajar.
         Havia pequenas sardas sobre o nariz de Darcy, ele notou. Um detalhe imprescindvel somado aos maravilhosos olhos dourados. O perfume suave de lavanda tomava 
conta do ambiente.
         - De onde voc ?
         - Tradei's Corners, uma pequena cidade do Kansas.
         Mac acertara a origem interiorana de Darcy Wallace. Agora era hora de dar a segunda cartada.
         -  Mesmo? Por que deixou a cidade?
         - Eu fugi - Darcy confessou, sem pensar. Mac tinha um sorriso lindo, e a fitava como se estivesse interessado em saber. De alguma maneira, ele facilitava 
o bate-papo espontneo.
         Dando um passo  frente, Mac sentou-se no brao da poltrona de couro para que ficassem mais prximos.
         - Em que tipo de encrenca se meteu, Darcy? - ele perguntou com gentileza e carinho.
         - Em nenhuma. Eu estaria encrencada se ficasse, mas... - Ento, ela arregalou os olhos. - No fiz nada de ilegal. Isto , no fugi da polcia.
         Como Darcy estivesse assustada, Mac soltou uma gargalhada, ocultando o desejo de dizer que ela seria incapaz de cometer at mesmo uma in-frao de trnsito.
         - No foi isso que pensei, mas em geral as pessoas tm uma razo especfica para fugir de casa. Sua famlia sabe onde est?
         - No tenho famlia. Perdi meus pais h um ano.
         -  Sinto muito.
         - Foi um acidente. A casa pegou fogo durante a noite. - Darcy ergueu as mos e pousou-as no colo outra vez. - Eles no acordaram.
         - Deve ser difcil superar esse sofrimento.
         - No havia nada a fazer. Eles se foram, a casa virou cinzas. Tudo que tnhamos desapareceu. Fiquei sem lar. Mudei-me para um apartamento poucas semanas 
depois do acidente. Eu... - Darcy esfregou a gola da blusa, distrada. - Bem, acho que foi o destino.
         -  Ento decidiu fugir?
         Para simplificar a explicao seria melhor concordar. Mas no era a verdade; e ela jamais fora mentirosa.
         - No exatamente. Perdi meu emprego semanas atrs. - A humilhao ainda feria a alma de Darcy. __ E estava prestes a perder meu apartamento. Dinheiro era 
um problema. O seguro de vida de meus pais tornou-se nfimo perto da hipoteca da casa. E havia tambm as contas. De qualquer maneira, sem um salrio, eu no consegui 
pagar o aluguel. Nunca tive muito dinheiro para poupar. Alis, no sou muito boa em finanas.
         - Dinheiro no ser mais problema agora - Mac lembrou-a, tentando faz-la sorrir.
         - No entendo como pode me dar quase dois milhes de dlares.
         - Voc ganhou quase dois milhes de dlares. Veja. - Ele a tomou pelas mos, conduzindo-a at as telas.- As pessoas se amontoam ao redor das mesas o dia 
inteiro. Algumas vencem, outras perdem. H aquelas que jogam por diverso, ou pelo prazer de quebrar a banca. Apenas uma vez. Existem jogadores profissionais, e 
os que agem por intuio.
         Fascinada, Darcy observava as imagens nas telas. Todos se moviam em silncio. Cartas eram embaralhadas, dados rolavam sobre o veludo das mesas, e a roleta 
girava sem emitir rudo algum.
         -  O que voc faz?
         - Oh, jogo profissionalmente. s vezes, sigo uns palpites.
         -   como um imenso teatro - ela murmurou.
         -Tem razo. Um teatro sem intervalos. Voc tem um advogado?
         - Um advogado? - O brilho nos olhos de Darcy desapareceu, de repente. - Preciso de um advogado?
         - Eu lhe recomendaria um. Voc acabou de ganhar uma grande soma em dinheiro. A Receita Federal vai querer uma parte. Depois disso, descobrir que tem amigos 
dos quais nunca ouviu falar, e as pessoas vo lhe oferecer oportunidades incrveis de investimento. Assim que sua histria chegar  imprensa, os reprteres aparecero 
aos montes.
         - Imprensa? Jornais? Televiso? No, no posso aparecer! - Darcy exclamou, apavorada. - No vou falar com reprteres.
         Estava certo, conclua Mac, aquela jovem inocente iria precisar de algum para ajud-la a atravessar a densa floresta da fama sem se perder.
         - A jovem rf, moradora de uma pequena cidade no interior do Kansas, gasta seu ltimo dlar no Comanche em Las Vegas e...
         - No era meu ltimo dlar - ela o corrigiu.
         - ...em segundos, ganha um milho e oitocentos mil dlares. Querida, a imprensa vai delirar com sua histria.
         Claro que Mac Blade tinha razo. A histria de sua vida era emocionante. At Darcy gostaria de registr-la em um romance.
         - No quero que outras pessoas saibam. H televises e jornais em Trader's Corners.
         A expresso de pnico no olhar de Darcy deixou-o desconfiado. Havia algo estranho naquela histria.
         -  Talvez batizem uma rua da cidade com seu nome - ironizou para instig-la a dizer a verdade.
         - No quero que ningum saiba onde estou. Eu no lhe disse tudo. - Agarrando-se  esperana de que Mac pudesse ajud-la, ela se sentou novamente. - No 
lhe contei a razo principal que me levou a sair da cidade. H um homem. Gerald Peterson.  de uma famlia muito influente em Kansas. Possui terras e a maior parte 
do comrcio local. Gerald, por algum motivo, quer se casar comigo. Na verdade, insiste com essa idia.
         -  As mulheres so livres para dizer "no" em sua cidade, suponho.
         - Claro que sim. - Parecia to simples dito daquela forma. Mac devia ach-la uma tola. - Mas Gerald  muito determinado. Sempre encontra um jeito de conseguir 
o que deseja.
         - E ele a deseja - Mac completou.
         -  Bem, sim. Ao menos parece que sim. Meus pais haviam ficado muito contentes com o interesse de Gerald. Quem iria imaginar que eu poderia atrair um homem 
como ele?
         -  Est brincando?
         -  Como?
         - No importa. - Mac deu de ombros. - Ento Gerald quer se casar, e imagino que voc no o queira. O que mais?
         - Meses atrs eu aceitei o pedido. Parecia a nica atitude sensata a tomar. Bem, ele assumiu que estvamos noivos. - Envergonhada, Darcy baixou o rosto. 
- Gerald no sabe lidar com frustraes. Acho que  gentico. Concordar com o casamento foi estpido e me arrependi no mesmo instante. Eu no podia levar o compromisso 
adiante, mas ele no quer entender isso. Havia at um anel de noivado - acrescentou com um suspiro.
         - Anel de noivado - Mac repetiu, entretido no relato.
         -  Foi tolice. Eu jamais desejei um solitrio de diamante. Queria apenas viver algo... diferente. Mas Gerald no deu a menor ateno. Peguei o anel, que 
estava devidamente assegurado, claro. Ele me explicou tudo acerca do valor do investimento. - Darcy fechou os olhos. - No tinha a menor vontade de ouvir aquele 
discurso financeiro.
         - No imagino que tivesse - Mac murmurou.
         - No esperava romance. Bem, de certa forma, esperava. Mas sabia que no iria acontecer. Pensei em me estabelecer com segurana. Eu deveria ser capaz de 
suportar aquele noivado.
         - Por qu?
         - Porque todos comentavam a respeito da sorte que eu tivera em conquistar aquele homem. Mas sentia-me presa. Gerald ficou furioso quando devolvi o anel. 
No disse nada, mas parecia colrico. De repente, tudo mudou. Mostrou-se calmo e me disse que eu logo voltaria  razo. Assim que isso acontecesse, ns reataramos 
o compromisso. Duas semanas depois, perdi o emprego.
         Ao erguer o rosto, Darcy notou a ateno de Mac. Ele a estava escutando, reparou surpresa. Era raro algum se dispor a ouvi-la.
         - Alegaram conteno de despesas - ela prosseguiu. - Fiquei to chocada na hora que somente aps algum tempo pude perceber que Gerald havia tramado tudo. 
Os Peterson fazem gordas contribuies  biblioteca da cidade. E so proprietrios do prdio em que eu morava. A inteno de Gerald era me obrigar a lhe pedir ajuda.
         -  Mas voc no se intimidou com as ameaas. Ele merecia muito mais do que ser abandonado...
         - Gerald deve estar se sentindo humilhado e muito, muito zangado. Por isso no quero que saiba onde estou. Tenho medo dele.
         Uma terrvel possibilidade resvalou a mente de Mac.
         -  Ele a feriu?
         - No. Gerald no usa a fora fsica para intimidar as pessoas. Preciso desaparecer por um tempo. Ele me quer de volta porque no suporta recusas. No h 
amor. Sou o perfil da esposa ideal que ele deseja. Comportada, quieta e bem-educada.
         - Vai se sentir melhor se o enfrentar.
         -  Eu sei. Mas tenho medo de no conseguir.
         - Faremos o possvel para mant-la no anonimato - prometeu Mac. - A mdia ter de se divertir com a misteriosa ganhadora por enquanto. Mas vai durar pouco 
tempo, Darcy.
         - Estou ciente disso.
         -  Certo. Ainda no posso lhe entregar a soma em dinheiro que ganhou. Voc no tem identificao alguma, o que complica os trmites burocrticos. Precisa 
tirar a segunda via de sua identidade, da certido de nascimento e da carteira de motorista. Portanto voltamos ao problema do advogado.
         - No conheo advogado algum. Somente a firma que organizou a documentao quando meus pais morreram. Mas no quero contat-los.
         - Suponho que no. Voc quer comear uma nova vida. Certo?
         Quando Darcy sorriu, Mac fixou a ateno na curva sensual dos lbios rubros.
         - Pois  isso mesmo que desejo fazer. Quero escrever livros - ela confessou.
         - Muito justo. J que  bibliotecria, deve amar os livros. Por que no escrev-los?
         Os lindos olhos dourados adquiriram um brilho diferente.
         - Voc foi a primeira pessoa que me incentivou a escrever. Gerald nunca se importou com meus anseios.
         - Gerald  um idiota - Mac resmungou. - Creio que precisa apenas comprar um computador e comear a trabalhar.
         Atnita, Darcy levou as mos ao rosto.
         - Posso fazer isso? - Quando seus olhos se encheram de lgrimas, ela meneou a cabea. - No vou chorar de novo. Oh, mas a vida pode mudar por completo em 
um piscar de olhos.
         - Est se saindo muito bem. Logo, vai conseguir suportar o resto.
         Mac se levantou e no reparou no olhar afetuoso de Darcy. Ningum jamais confiara nela.
         -  No sei se  tico, mas posso falar com meu tio. Ele  advogado. Uma pessoa da mais absoluta confiana.
         - Muito obrigada, sr. Blade. Eu lhe serei grata...
         - Mac - ele a interrompeu. - J que terei de entregar-lhe quase dois milhes de dlares, dispenso formalidades.
         To logo liberou uma gargalhada, Darcy cobriu os lbios com as mos.
         - Desculpe.  estranho ouvir o valor dessa quantia. Dois milhes de dlares.
         -  um nmero e tanto - Mac disse secamente, acabando com a diverso de Darcy.
         - Nunca atinei com relao a sua parte. Quero dizer, no cassino. No precisa me pagar tudo de uma s vez - ela se explicou. - Pode parcelar.
         Em um impulso, ele se abaixou e segurou-a pelo queixo.
         - Voc  incrivelmente doce, Darcy de Kansas. A voz soava rouca, e os olhos eram to azuis que Darcy sentiu o corao pular no peito, como se fosse explodir.
         - O que disse? Desculpe?
         Com o dedo, Mac acariciou a pele macia. "To alva como uma fada", pensou, absorvido pelas sensaes. De sbito, sentiu-se pego em flagrante e se afastou. 
"No ouse ir por esse caminho, Mac", advertiu-se em pensamento.
         - O Comanche nunca lana uma aposta que no possa cobrir. E, afinal, meu av no precisa mesmo daquela cirurgia.
         - Oh, Deus.
         - Estou brincando - Ainda mais encantado por ela, Mac riu. - Voc se deixa enganar muito facilmente. - Os lobos a comeriam viva, refletiu, preocupado. - 
Faa um favor a si mesma. No chame muita ateno at que meu tio d entrada nos documentos. Vou lhe adiantar algum dinheiro.
         Sentando-se  escrivaninha, ele abriu uma gaveta onde mantinha alguma soma em dinheiro.
         - Dois mil dlares devem ser suficientes por enquanto. Imagino que queira pegar seu carro e mandar consert-lo.
         - No consigo respirar direito - Darcy sussurrou, quase sem foras. - Desculpe.
         Alarmado, Mac a encarou. Darcy inclinou-se para a frente, colocando a cabea entre os joelhos.
         -  Estarei bem em um minuto - ela explicou quando sentiu a mo de Mac em suas costas. - Sinto muito. S estou lhe causando problemas.
         - No est. Mas prefiro que no desmaie de novo.
         - No vou desmaiar. Preciso apenas de algum tempo nessa posio. - Quando o telefone tocou, ela se endireitou na poltrona. - Estou tomando seu tempo.
         - Acalme-se - Mac ordenou e pegou o telefone. - Deb, diga a quem quer que seja que telefonarei mais tarde. - Virando-se, ele sentiu uma grande sensao 
de alvio ao v-la recuperar a cor. - Est melhor?
         -  Sim. Desculpe-me pelo inconveniente.
         - Pare de se desculpar.  um hbito muito ruim.
         - Descu... - Darcy cerrou os lbios.
         - timo. - Mac pegou o mao de dinheiro e entregou-o a Darcy. - Faa compras - sugeriu. - V brincar. Marque uma hora no salo de beleza, descanse na piscina. 
Divirta-se. Jante comigo hoje  noite. - Ele no pretendia dizer isso, e no tinha idia de como fizera tal proposta.
         A expresso sria de Mac deixou Darcy ainda mais confusa.
         -  Eu adoraria. - Sentindo-se inadequada, ela se levantou e guardou o dinheiro no bolso. Havia esquecido de trazer a linda bolsa que a butique lhe enviara 
porque no tinha nada para pr dentro. - No sei o que fazer primeiro.
         - No importa. Faa tudo.
         - Que maneira maravilhosa de pensar. - Incapaz de evitar, ela o plagiou. - Faa tudo. Tentarei. Vou deix-lo voltar ao trabalho agora. - Darcy caminhou 
at a porta, mas Mac foi mais rpido e abriu-a. Fitou-o sem saber que palavras usar. - Voc salvou minha vida. Sei que soa dramtico, mas  como me sinto.
         -  Salvou-se a si mesma. Agora cuide bem de sua vida.
         - Vou cuidar.
         Ela estendeu a mo para se despedir e, porque era irresistvel, Mac beijou a ponta dos delicados dedos.
         - Nos veremos mais tarde.
         - Claro. - Darcy se virou e caminhou, como se tivesse o poder de flutuar sobre o cho.
         Depois de fechar a porta, Mac colocou as mos nos bolsos da cala. Darcy, a bibliotecria de Kansas, no era seu tipo de mulher. Na verdade, ele estava 
apenas preocupado com o bem-estar da jovem. Uma preocupao quase fraterna.
         Quase.
         Eram aqueles olhos dourados que o perturbavam. Como um homem poderia resistir a olhos to grandes e brilhantes? Havia tambm a tmida hesitao na voz de 
Darcy, seguida por uma exploso de entusiasmo. E a sincera docilidade. Nada alm de pura inocncia.
         Contudo, ela ainda no fazia o tipo de Mac. Mulheres eram mais seguras quando conheciam o jogo da seduo. Darcy Wallace no tinha a menor idia de como 
agir.
         Bem, no seria justo entregar-lhe todo o dinheiro e deix-la  merc da prpria sorte. Ou seria?
         Iria somente indicar-lhe a direo correta, Mac prometeu a si mesmo. Depois diria adeus.
         Ainda pensativo, pegou o telefone.
         - Deb, ligue para o escritrio de Caine MacGregor em Boston.
         
         
         
         
         
        CAPTULO III
         
         
         Sem dvida era um mundo diferente. Seria um outro planeta? Darcy perguntava-se enquanto entrava cautelosa na butique do cassino.
         A Darcy Wallace que costumava fitar as extravagantes vitrines do lado de fora, agora estava dentro da loja. E podia comprar o que bem quisesse.
         Embora no ousasse tocar em nada, ela se deu conta de que poderia obter tudo. Porque o mundo virara de cabea para baixo, e ela, de alguma maneira, chegara 
ao topo.
         Dando mais um passo  frente, encantou-se com o pequeno armrio de vidro. Requintados objetos reluziam sobre a prateleira: brincos, pulseiras e anis com 
os mais variados desenhos. Ela sempre tivera vontade de usar algo brilhante.
         Por mais estranho que parecesse, Darcy no havia apreciado o solitrio de diamante que Gerald lhe dera. Na verdade, o anel era propriedade dele. Claro, 
jamais pertencera a Darcy.
         - Posso ajud-la?
         Assustada, Darcy desviou seu olhar das jias.
         -  No sei.
         -  Est procurando algo especial? - A mulher atrs do balco sorriu.
         - Tudo me parece especial.
         O sorriso da vendedora aumentou.
         - Fico feliz em saber. Temos orgulho de nossa coleo. Terei prazer em ajud-la, se puder. Caso contrrio, sinta-se  vontade para admirar o que quiser.
         -  Na verdade, tenho um jantar hoje  noite, e nada para vestir.
         -  sempre assim, no ?
         -  Literalmente no possuo nada para vestir - Darcy enfatizou. Como a mulher no se mostrasse chocada, prosseguiu, corajosa: - Acho que preciso de um vestido.
         -  Formal ou casual?
         -  No tenho a menor idia. - Confusa, Darcy voltou a fitar as jias sobre a pequena prateleira. - Ele no me disse.
         - Jantar para dois?
         - Isso mesmo. Mas no  exatamente um encontro. 
         Divertindo-se com o jogo de adivinhao, a vendedora lanou outra pergunta.
         - Negcios? - disse.
         - De certa forma, sim. - Darcy jogou para trs a mecha de cabelo que lhe caa  testa. - Creio que deve ser isso.
         - Ele  atraente?
         - E um adjetivo fraco para descrev-lo.
         - Interessante?
         -  Pode listar todas as qualidades do mundo e jamais conseguir defini-lo. Mas...
         - Vamos ver. - Pensativa, a mulher fitou Darcy da cabea aos ps. Feminina, mas no em exagero. Sexy, mas nada bvia. - Acho que tenho o que voc precisa.
         Myra Proctor trabalhava na butique mais luxuosa do Comanche havia cinco anos, desde que ela e o marido tinham se mudado para Las Vegas. Ele era bancrio, 
e Myra ocupara-se com moda durante a maior parte de sua vida adulta. Tinha dois filhos, um menino e uma menina. A filha de treze anos entrava na adolescncia, causando 
preocupao em demasia  me.
         Darcy j sabia de tudo aquilo porque no se cansava de fazer perguntas  vendedora. Conversar a deixava relaxada enquanto Myra aprovava ou rejeitava os 
modelos.
         Depois de escolher um vestido elegante, uma jaqueta de linho, uma bolsa para noite e brincos resplandecentes, Myra indicou-lhe o salo de beleza.
         - Pergunte por Charles - avisou-a. - Diga-lhe que eu a mandei. Ele  absolutamente genial.
         
         - O que aconteceu a seus cabelos? - Charles perguntou quando Darcy sentou-se na cadeira do salo. - Um acidente? Uma doena terminal? Ratos?
         Constrangida, ela encolheu-se sob o avental branco que lhe fora colocado minutos antes.
         - Eu mesma cortei meus cabelos.
         -  Seria capaz de remover o prprio apndice? Quando Charles aproximou-se com os olhos verdes de raiva, Darcy se encolheu ainda mais.
         -  Creio que no.
         - Os cabelos so parte de seu corpo e devem ser tratados por um profissional experiente.
         - Eu sei. Tem toda a razo. - Darcy segurou a risada. No era hora de brincadeiras, repreendeu-se, apesar de nervosa. Tentou sorrir, desculpando-se. - Foi 
um impulso. Na realidade, um ato rebelde.
         - Contra o qu? - Charles passou os dedos entre os fios, detendo-se nas pontas desformes.
         - Bem, havia um homem que me dizia sempre o que fazer, como agir, andar e ser. Ele me deixava furiosa. Ento cortei os cabelos.
         -  Esse homem era seu cabeleireiro?
         - No. Ele  empresrio.
         - Ah... Nesse caso, ele no tinha a menor noo do que estava falando. Cortar os prprios cabelos foi corajoso. Tolo, mas corajoso. Na prxima vez que quiser 
se rebelar, contrate um profissional.
         - Farei isso. Pode me ajudar?
         - Minha querida criana, fao milagres em condies bem piores. - Ele estalou os dedos. - Xampu - ordenou  assistente.
         
         Darcy nunca se sentira to bajulada em sua vida. Era maravilhoso ter algum para lavar-lhe os cabelos e massagear o couro cabeludo. Deliciava-se com os 
dedos delicados da assistente de Charles.
         Ao retornar  cadeira diante do espelho, no mais se sentia apreensiva ou nervosa.
         - Precisa de uma manicure - Charles resolveu e se virou. - Sheila, temos de cuidar das mos e dos ps de... Como  seu nome, querida?
         - Darcy. Ps? - Imaginar as unhas dos ps pintadas lhe parecia extico demais.
         - Exato. E pare de roer as unhas imediatamente. - Envergonhada, Darcy escondeu as mos sob a capa.
         -  E um pssimo hbito.
         - Pouco atraente. Mas voc tem sorte. Seus cabelos so finos e saudveis. A cor  linda. No vamos mexer nessa parte. - Charles puxou os cabelos de Darcy 
para trs. - Costuma usar maquiagem?
         - Apenas creme hidratante. Mas eu o perdi. --Darcy esfregou o nariz, distrada.
         -  As sardas do um toque de charme. No mexa nelas.
         - Mas eu preferiria...
         -  Pretende usar um bisturi para extra-las? - ele perguntou, franzindo a testa. Depois que Darcy meneou a cabea, Charles ficou satisfeito. - Vou maqui-la 
pessoalmente. Se no gostar, no precisa pagar. Agora, se gostar, no s vai pagar como tambm comprar os produtos.
         Outro astuto jogador, pensou Darcy.
         - Est certo.
         - Est agindo corretamente, garota. Vamos ver... - Ele virou o rosto de Darcy, estudando-a. - Fale-me de sua vida amorosa.
         - No tenho nenhuma.
         - Vai ter. - Charles sorriu, pretensioso. - Meu trabalho nunca falha.
         
         Eram quase trs horas quando Darcy retornou  sute. Estava carregada de sacolas e radiante de felicidade. Em um impulso, jogou-as sobre o sof e fitou-se 
no espelho. Myra tinha razo. Charles era genial. O corte ficara fantstico. Quase um requinte de sofisticao. Embora estivessem bem mais curtos, os cabelos haviam 
tomado forma e brilho.
         A franja no mais cacheava, mas caa solta sobre a testa. E o rosto... no era impressionante o que alguns cremes, tubos e pincis podiam fazer? A maquiagem 
realara os traos, e Darcy sentia-se bonita. - Quase linda - disse para o prprio reflexo. -  verdade mesmo. Oh, os brincos! - Correu e vasculhou as sacolas at 
encontrar o ltimo detalhe para compor o novo visual.
         Ento notou a luz vermelha que piscava no telefone.
         Ningum sabia onde ela estava. Como algum poderia lhe telefonar? A imprensa? Teria a mdia descoberto seu paradeiro? No, pensou, esfregando as mos. Mac 
havia prometido mant-la no anonimato. Ele no seria capaz de tra-la.
         Com a pulsao acelerada, Darcy pegou o telefone e apertou a tecla vermelha. Foi informada de que havia dois recados para ela. O primeiro era da assistente 
de Mac. Respirou aliviada. O sr. Blade a pegaria para jantar s sete e meia. Se no fosse de seu agrado, precisava apenas ligar e remarcar.
         - Sete e meia est timo - murmurou consigo mesma. - Sete e meia  perfeito.
         A segunda mensagem vinha de Caine MacGregor, que se identificava como tio de Mac e pediu-lhe que retornasse a ligao quando possvel.
         Hesitante, Darcy no queria enfrentar os negcios to depressa. Seria mais emocionante se tudo permanecesse nas sombras. Mas fora educada para retornar 
ligaes caso fosse solicitada. Portanto, sentou-se  mesa e ligou para Boston.
         
         Quando abriu a porta e encontrou Mac segurando uma nica rosa branca, Darcy soube que milagres aconteciam. O homem parecia ter sado dos romances que ela 
escrevia em seus cadernos. Alto, moreno, elegantemente masculino, charmoso e com um olhar perigosamente sensual, o que o tornava mais atraente.
         O milagre consistia no fato de ele estar ali, segurando a flor e sorrindo para Darcy.
         Desde aquela tarde, quando telefonara a Boston, havia uma questo que a incomodava e sobre a qual gostaria de conversar.
         - Caine MacGregor  seu tio?
         - Sim, ele .
         - Era o principal advogado do governo dos Estados Unidos.
         - Isso mesmo. - Mac depositou a rosa na mo de Darcy. - Ele era, sim.
         - Alan MacGregor foi presidente.
         - Eu sei. Ouvi essa histria em algum lugar. Vai me convidar para entrar?
         - Oh, claro. Seu tio foi presidente - ela repetiu devagar, - Por oito anos.
         - Voc passou na prova de histria. - Mac fechou a porta e ficou um bom tempo fitando Darcy. Soltou um murmrio de aprovao. - Est fabulosa.
         - Acha mesmo? - Lisonjeada com o comentrio, ela olhou para baixo. - Eu jamais optaria por esse vestido - confessou, alisando a saia curta. Aquela roupa 
era a mais ousada que tivera. - Myra... da butique do hotel, o escolheu. Disse que sou como uma jia colorida.
         - Myra tem excelentes olhos. - E merecia um aumento, Mac concluiu, girando o dedo. - D uma volta.
         - Volta... - Darcy ria enquanto executava a ordem. Na verdade, uma promoo, ele decidiu fitando a saia rodada que salientava as pernas esguias.
         - No esto aqui.
         -  O qu? - Ela se assustou. - O que no est aqui?
         - As asas. Esperava ver asas de fada. - Ruborizada, Darcy riu outra vez.
         - Se a noite for igual ao dia que tive, no ficarei surpresa se as vir.
         -  Por que no tomamos um drinque antes do jantar? Assim poder me contar como foi seu dia.
         Mac caminhou at o bar e pegou uma garrafa de champanhe na pequena geladeira. Ela adorava observ-lo se mover. Tinha charme e confiana nos movimentos. 
Mas exalava perigo. Soltou um suspiro profundo. Mac Blade era melhor do que seus personagens imaginrios.
         -  Charles cortou meus cabelos - ela comeou, estremecendo ao escutar o estampido da rolha do champanhe.
         - Charles?
         - Do salo de beleza.
         - Ah, aquele Charles. - Mac pegou duas taas e encheu-as com o lquido borbulhante. - Os clientes se apavoram, mas sempre acabam voltando para Charles.
         - Pensei que ele fosse me expulsar do salo quando viu o que fiz. Mas acho que ficou com pena de mim. Charles tem opinies bem definidas.
         Mac fitou os cabelos sedosos.
         - Eu diria que ele viu as asas.
         - A partir de hoje s pego em uma tesoura para cortar papis. - Darcy aceitou a taa que Mac lhe oferecia. - Ou terei de arcar com as conseqncias. Se 
roer minhas unhas, serei punida. Tive medo de perguntar a ele qual seria a punio. Oh, isto  maravilhoso - murmurou depois do primeiro gole. Fechou os olhos e 
bebeu novamente. - Por que as pessoas tomam outras bebidas?
         O prazer puro e sensual estampado no rosto de Darcy fez ferver o sangue de Mac. Uma criana perdida na floresta, lembrou-se. Seria difcil manter uma barreira 
entre ambos.
         - O que mais voc fez?
         - Oh, fiquei no salo por uma eternidade. Charles ocupou-me o tempo todo. Fiz os ps. - Ela ria, divertindo-se com as novidades. - No tinha idia de quo 
relaxante era uma massagem nos ps. Sheila passou parafina em meus ps. Pode imaginar? Nas mos tambm. Sinta.
         Inocente, ela ofereceu as mos para Mac. A pele era to macia quanto a de uma criana.
         - Esto muito gostosas.
         - No esto? - Feliz, Darcy acariciou as prprias mos, sorrindo. - Charles disse que preciso me submeter a cuidados mais intensos, como banho de lama e 
outras coisas das quais no consigo me lembrar. Escreveu todos os itens e me mandou falar com Alice no spa. Ela marcou as consultas. Tenho de estar l s dez, depois 
de fazer exerccios na sala de ginstica. Charles acredita que tenho negligenciado o corpo tambm. Ele  muito exigente. Posso tomar mais champanhe?
         - Claro. - Uma pequena guerra entre o divertimento e o desejo se travava no interior de Mac enquanto servia-lhe champanhe.
         - Este lugar  incrvel. Surpresas maravilhosas nos aguardam em cada esquina.  como viver em um castelo. - Darcy fechava os olhos enquanto bebia. - Quando 
criana, eu queria ser uma princesa. Em meus sonhos o prncipe escalaria os muros altos do castelo, depois de enfrentar o drago... Nunca gostei de histrias onde 
drages morrem. Afinal, so to mgicos e poderosos. Bem, o prncipe aparece, e o feitio acaba, trazendo vida de volta ao castelo. Cores e melodias. Haveria o baile 
final e todos viveriam felizes para sempre.
         De repente, ela parou e comeou a rir. Mac fitou-a encantado e sorriu.
         - O champanhe est me subindo  cabea. No era a respeito disso que eu queria conversar com voc. Seu tio...
         - Conversaremos durante o jantar. - Mac pegou a taa da mo dela. Em seguida, viu a bolsa sobre a mesa e entregou-a a Darcy.
         - Posso tomar champanhe durante o jantar? - ela lhe perguntou no elevador.
         Agora foi Mac quem riu.
         - Querida, pode fazer o que desejar.
         - Imagine. - Suspirando, Darcy encostou-se na parede de vidro do elevador panormico.
         Sorrindo, Mac apertou o boto do restaurante da cobertura. Ela usara perfume, uma fragrncia suave e sensual. Para evitar maiores problemas, Mac colocou 
as duas mos no bolso.
         - Foi ao cassino?
         - No. Havia tanto a fazer. Dei uma volta entre as mesas, mas no sabia por onde comear.
         -  Em minha opinio voc comeou muito bem. As portas do elevador se abriram, dando acesso a um hall acarpetado. Mac conduziu-a a uma sala iluminada  luz 
de velas e rodeada de janelas, de onde se podia avistar Las Vegas.
         - Boa noite, sr. Blade. Madame-o maitre saudou-os.
         Darcy estava fascinada com aquele mundo de fantasias. Quando se acomodaram  mesa prxima  janela, ela desejou nunca mais sair dali.
         - A dama prefere champanhe, Steven.
         -  Claro. A bebida ser servida em um instante.
         - Deve ser emocionante morar aqui.  como um mundo  parte. Voc gosta, no?
         -  Gosto muito. Nasci com um par de dados em uma mo e um baralho na outra. Meus pais se conheceram em uma mesa de blackjack. Ela trabalhava como crupi 
durante um cruzeiro martimo e ele a desejou no instante em que a viu.
         - Um romance em alto-mar. - Darcy suspirou. - Ela era linda?
         -  Sim, ela  linda.
         - E ele devia ser moreno, elegante e talvez um tanto perigoso.
         - Mais do que isso. Minha me adora jogar.
         - Ambos ganharam. - Ela entreabriu os lbios, sedutora. - Voc tem uma famlia grande.
         - E alegre.
         - Crianas tm sempre inveja de famlias grandes e alegres. Aposto que nunca est sozinho.
         -  No. Mas a solido s vezes  bem-vinda. - Ele aprovou a escolha da safra do champanhe enquanto o garom a mostrava.
         Entretida com o ritual, Darcy observava cada passo do impecvel rapaz de roupas brancas que manuseava a garrafa. A um discreto sinal de Mac, uma pequena 
dose foi servida a ela para que provasse o lquido.
         - Est timo.  como beber ouro.
         O garom sorriu diante do comentrio e terminou de servir o champanhe, antes de colocar a garrafa em um balde de prata, repleto de gelo.
         -  Sade. - Mac tocou a taa de Darcy com a sua. - Ento conversou com meu tio.
         - Conversei. No me dei conta de quem era at fazer a ligao. Quando falei: Caine MacGregor, juro que comecei a gaguejar. Ele foi muito paciente comigo. 
- Darcy riu, de repente. - Um dos maiores advogados do pas agora trabalha para mim.  to esquisito. Seu tio me disse que ir cuidar de minha certido de nascimento 
e de tudo mais. E ainda afirmou que no levar muito tempo.
         - Os MacGregor tm suas estratgias.
         - Li muitos artigos acerca de sua famlia. - Darcy aceitou o menu, distrada. - Seu av  uma lenda.
         - Ele vai adorar escutar isso. Tem personalidade. Voc gostaria de conhec-lo.
         - Verdade? Como  a personalidade dele? Como definir Daniel MacGregor? Mac refletiu por alguns segundos.
         -  Ele  ousado. Grande, forte e fala alto. Um escocs que construiu um imprio e ainda age com simplicidade. Fuma charutos escondido, quando minha av 
no est por perto.  capaz de envolv-la em segundos. Ningum consegue blefar diante dele. Possui um corao generoso. Para Daniel MacGregor a famlia vem primeiro, 
depois e sempre.
         - Voc o ama.
         -  Demais.
         Porque ela estava adorando a conversa, Mac contou-lhe como o jovem e intrpido Daniel chegara a Boston, procurando por uma esposa. Ao fixar os olhos em 
Anna Whitfield, apaixonou-se perdidamente, conquistou-a e casou-se com ela.
         -  Ela foi corajosa por se tornar mdica. Havia tantos obstculos para as mulheres naquela poca.
         -  Ela  extraordinria.
         - Voc tem irmos, Mac?
         - Um irmo, duas irms, dezenas de primos, sobrinhas e sobrinhos. Quando estamos todos juntos formamos... uma espcie de hospcio - ele completou, fazendo-a 
rir.
         - Voc no mudaria isso por nada nesse mundo.
         - No, jamais. Darcy abriu o cardpio.
         -  Sempre imaginei como seria...  Oh, Deus!
         Olhe isso. Como algum consegue escolher entre tantos pratos?
         - Do que gostaria?
         Com os olhos brilhantes, ela o fitou, constrangida.
         - De tudo.
         
         Animada, Darcy experimentou um pouco de cada prato. Pato assado com molho francs, salmo defumado ao caviar e outras iguarias refinadas. Incapaz de resistir, 
Mac cortou uma fatia de seu fil e colocou-a entre os lbios rosados.
         De olhos fechados, ela saboreou a carne, soltando um frgil gemido de prazer. Mac sentiu o sangue ferver nas veias.
         Nunca conhecera uma mulher to aberta a simples prazeres da vida. Darcy devia ser estupenda na cama, sensual, sensvel a cada toque, cada gosto, cada movimento. 
Podia imaginar claramente os pequenos sinais, sussurros e delrios.
         Mais uma vez, ela soltou um suspiro e sorriu.
         - Est uma delcia. Alis, tudo est maravilhoso. Era como se as novidades flussem por dentro dela, aumentando ainda mais a intensidade dos sabores do 
vinho, da comida e do olhar de Mac Blade. Darcy aproximou-se.
         - Voc  to atraente. Tem um rosto forte. Adoro observ-lo.
         Vindo de qualquer outra mulher, o elogio soaria como um convite. No caso de Darcy, Mac preveniu-se, era uma mistura de vinho e ingenuidade.
         - De onde voc veio?
         - De Kansas. - Ela sorriu. - No foi isso que quis dizer, certo? No tenho a menor sutileza. - confessou. - E quando relaxo, geralmente falo tudo que me 
vem  mente. Em geral fico nervosa ao lado de homens. Nunca sei como agir.
         - Com certeza, eu no a deixo nervosa. Estou arrasado.
         - Mulheres sempre criam fantasias a respeito de homens como voc. Mas no me deixa nervosa porque sei que no tem segundas intenes em relao a mim.
         - No?
         - Os homens nunca tm. - Darcy tomou mais um gole de champanhe. - Eles no se sentem atrados por mulheres sem uma bela aparncia fsica. Loiras exticas 
- prosseguiu, fitando o prato de Mac e imaginando como pedir outra fatia daquela carne -, morenas suntuosas, ruivas sensuais. A ateno  toda delas.  algo natural. 
Homens atraentes procuram mulheres bonitas.
         - De onde tirou essas concluses?
         - Gosto de observar as pessoas e ver de que forma se aproximam umas das outras.
         - Talvez no tenha reparado bem, Darcy. Voc  muito atraente. - Mac divertiu-se com a expresso surpresa no rosto dela. - Sensual - murmurou, cedendo ao 
impulso de tocar-lhe o pescoo. - E adorvel.
         Os olhos dourados fixaram-se nos lbios de Mac. Ento a respirao se tornou ofegante. Era tentador demais manter-se quela distncia, concretizando a teoria 
de Darcy, Contudo, ela comeou a tremer como um pssaro assustado.
         -  Veja s - ele disse. - Agora voc se calou. Est nervosa?
         Meneando a cabea devagar, Darcy sentiu os lbios quentes tocarem os dela. O beijo foi firme e profundo. Os dedos msculos acariciavam-lhe o pescoo, fazendo-a 
estremecer. O corao disparou, como se fosse saltar do peito.
         O pnico estampado naqueles olhos dourados o fez segur-la pela nuca.
         - No deveria desafiar um jogador, Darcy. - Mac se afastou, depois de sorrir de modo amigvel. - Sobremesa?
         -  Sobremesa?
         -  Quer sorvete?
         - No sei se agento. - Seus dedos mal conseguiam segurar o garfo.
         - Quer tentar a sorte? - ele sugeriu, vendo-a corar. - No cassino?
         -  Oh, sim. Eu adoraria.
         
         - O que devo jogar? - Darcy perguntou quando entraram no cassino.
         - Voc escolhe.
         - Bem. - Ela mordeu o lbio inferior, tentando esquecer que a mo de Mac estava em suas costas.
         - Talvez blackjack. Afinal,  s somar os pontos.
         -  apenas parte do jogo. A mesa de cinco dlares - ele decidiu. - At adquirir o ritmo. - Mac conduziu-a  mesa de um crupi especialista em novatos. - 
Com quanto quer comear?
         - Vinte?
         - Vinte mil  pouco para uma iniciante. Embora atnita, Darcy riu.
         -  Quis dizer dlares. Vinte dlares.
         - Dlares - Mac repetiu. - Est certo... se puder controlar a empolgao.
         Quando ele pegou a carteira no bolso, Darcy interveio:
         - No. Tenho algum dinheiro. - Puxou uma nota de vinte dlares da bolsa. - Dessa forma sinto que a quantia  minha.
         - E  sua - ele a lembrou. - Posso comear a recuperar meu dinheiro com vinte dlares.
         -  Talvez eu ganhe. - Darcy fitou o homem a seu lado de palet azul-marinho. - Est ganhando?
         Ele tomou um gole de cerveja, antes de responder. 
         - J consegui cinqenta dlares, mas esse homem - ele apontou o crupi -  duro na queda.
         - Mesmo assim continua a freqentar minha mesa, certo, sr. Renoke? - brincou o crupi. - Deve ser meu charme.
         Renoke fez uma careta e avaliou as cartas.
         - D-me mais uma, amigo. O crupi abriu um quatro.
         - Seu desejo  uma ordem.
         - L vamos ns. - Renoke comemorou os dezenove pontos que fizera. Quando o crupi completou dezoito, Renoke bateu levemente no ombro de Darcy.
         - Parece que voc me trouxe sorte.
         - Espero que sim. Eu quero jogar.
         - Trocando vinte. - O crupi pegou a nota de Darcy e devolveu-lhe quatro fichas de cinco dlares.
         - Apostas?
         - Ponha uma ficha naquela faixa - Mac instruiu-a. As cartas se moviam rpido, escorregavam sobre o veludo e desapareciam quase que imediatamente. Darcy 
tinha um seis e um oito, e o crupi mostrou-lhe um dez.
         -  O que fao agora?
         - Arrisque.
         - Mas vou passar de vinte e um pontos com esse dez. Posso perder a jogada, no?
         - A vantagem  conseguir dois pontos a menos do que a mesa. Corra o risco.
         -  Certo. Vamos l. - Darcy arriscou. - Perdi.
         - Mas perdeu corretamente - explicou o crupi. Por mais duas vezes, ela perdeu da forma correta. Totalmente concentrada apostou a ltima ficha e ganhou.
         - Nem precisei fazer nada. - Darcy acomodou-se na cadeira e fitou Mac. - Acho que vou jogar de modo incorreto por enquanto para ver se aprendo.
         -  O jogo  seu.
         Com certa surpresa, Mac observou-a jogar contra a lgica e ganhar dez fichas. Logo a pilha se reduziu para trs fichas e ento multiplicou-se outra vez. 
Enquanto apostava de maneira inteligente, Darcy conversava com Renoke, descobrindo que ele tinha dois filhos da universidade.
         Os vinte dlares j haviam se transformado em duzentos, Mac notou, admirado. A mulher era muito esperta.
         Um crupi de outra mesa fez um sinal para Mac, indicando confuso.
         - Volto j - ele murmurou para Darcy.
         No foi difcil divisar onde se encontrava o centro do problema. Um homem esbravejava por ter perdido trezentos dlares em fichas. Mac julgou-o um mau perdedor, 
apesar de embriagado.
         -  Escute, se no consegue jogar limpo,  melhor ser despedido. - O homem apontava o dedo em riste para o crupi, enquanto outros jogadores se retiravam, 
procurando uma mesa mais calma. - No posso ganhar mais do que uma mo de dez. E aquela mulher sem graa antes de voc era pior. Quero ver ao nesta pocilga. - 
Ele socou a mesa com o punho fechado.
         - Algum problema? - Mac se aproximou da mesa.
         - D o fora. No  problema seu.
         - Pode apostar que . - Um sinal sutil fez com que seguranas se dirigem at a mesa. - Sou Blade e esta "pocilga" me pertence.
         - Oh,  mesmo? - O homem ergueu o copo. - pois saiba que seu cassino  uma droga. Os crupis pensam que podem roubar, mas estou de olho. - Ele ps o copo 
na mesa. - J me tiraram trezentos dlares. Sei quando tentam trapacear.
         A voz de Mac permaneceu baixa e os olhos, frios.
         -  Se tem queixas a fazer, ser bem-vindo em meu escritrio.
         - No tenho de ir a seu escritrio. - Com um gesto violento, ele atirou o copo no cho. - Exijo uma satisfao.
         Mac ergueu a mo para impedir dois seguranas que j se moviam em sua direo.
         - No vai conseguir nenhuma. Sugiro que troque suas fichas e v a outro lugar.
         - Est me expulsando? - O homem se levantou. Embora cambaleasse, ele fechou os punhos, furioso. - No pode me chutar daqui.
         Uma violncia contida inflamava os olhos de Mac.
         -  Quer apostar?
         Era visvel que o homem tremia de raiva. Porm, bbado ou no, ele teria de se retirar do cassino.
         - Que droga. - Ele pegou as fichas. - Eu devia saber que no se pode confiar em ndios.
         Mac agarrou-o pelo colarinho, quase tirando-lhe os ps do cho.
         -  Saia de meu cassino. - A voz era feroz, e os olhos faiscavam. - Se o vir aqui novamente, no vou deix-lo sair ileso. Acompanhem esse... senhor at o 
caixa. - Instruiu os seguranas. - Depois mostrem-lhe a sada.
         -  Sim, senhor.
         - Seu calhorda - esbravejou o homem enquanto se afastava.
         Quando sentiu um toque no brao, Mac se virou depressa. Darcy esquivou-se ao ver aquela expresso colrica. Os msculos sob seus dedos pareciam duros como 
ao. Ele estava irado.
         -  H muitos outros de onde ele veio.
         Darcy s podia pensar que jamais vira um olhar to frio em sua vida.
         -  No posso acreditar. - Ela se abaixou e comeou a recolher os cacos do copo que se espatifara no cho. Mas Mac a puxou pelo brao, erguendo-a.
         -  O que est fazendo?
         - Eu ia limpar a sujeira...
         - Pare, - Ele ainda estava furioso com a cena horrvel da qual participara. - Voc no pertence a este lugar-murmurou, arrastando-a entre a multido de 
jogadores. - No se trata de diverso. E no  um castelo encantado. H pessoas como ele em todos os cantos.
         -  Sim, mas... - Mac andou com tanta rapidez pela rea do hotel que ela precisou correr para acompanh-lo.
         - Deve voltar para Kansas e retomar seu trabalho na biblioteca.
         - No quero voltar para Kansas.- Colocando-a no elevador, ele inseriu o carto magntico para envi-la  sute.
         -  Eles vo devor-la em segundos. Eu mesmo quase o fiz.
         - No sei do que est falando.
         -  Exato. - Mac sentia-se frustrado, furioso e irritado.
         Os olhos de Darcy se tornaram brilhantes e os lbios comearam a tremer.
         -  Esse  o problema - Mac disse, tentando se acalmar. - Preciso voltar e cuidar do cassino. Fique em seu quarto.
         - Mas...
         - Obedea - ordenou, tirando-a do elevador. Indicou-lhe a direo da sute antes que cometesse algo insano. Como beij-la at perder o flego. - Voc me 
preocupa - murmurou, fitando-a. - Est comeando a me preocupar.
         E continuaram a se olhar at que as portas do elevador se fechassem.
         
         
         
         
         
        CAPTULO IV
         
         
         
         Na manh seguinte, Darcy compareceu s sesses do spa porque achou deselegante desmarc-las. Mas sua mente e corao no estavam ali. Mesmo sendo massageada 
com leos exticos por uma egpcia e submetendo-se a uma minuciosa limpeza de pele no conseguia se empolgar.
         Mac a queria longe de Las Vegas. Mas Darcy no tinha para onde ir.
         Poderia viajar por lugares desconhecidos, to logo sua documentao ficasse pronta, mas nada disso parecia importante. Queria ficar naquele maravilhoso 
e excitante hotel, deslumbrando-se com todas as luzes e sons do cassino, e centenas de pessoas vidas por emoes.
         Desejava jogar outra vez, tomar champanhe, comprar outro par de brincos. Queria apenas um pouco mais de tempo naquele lugar repleto de homens charmosos.
         Mais do que tudo, queria viver dias mgicos com Mac, antes que sua carruagem voltasse a ser uma abbora, e o sapato de cristal sumisse.
         Era maravilhoso v-lo sorrir para ela. A cada sorriso o rosto de Mac se transformava em uma requintada obra de arte.
         Ele no era apenas lindo, mas tambm uma pessoa adorvel com quem conviver. Os expressivos olhos azuis a faziam pensar que realmente se importava com o 
que ela dizia ou pensava.
         Nunca fora capaz de conversar com um homem do modo como fazia com Mac Blade, sem sentir-se inadequada ou tola.
         Mas j havia tomado muito do precioso tempo do empresrio. Darcy sempre se mantivera  margem das situaes, observando pessoas. No instante em que deu 
um passo adiante, sob as luzes da ribalta, acabou espantando aquele que mais a havia amparado.
         O dinheiro no mudaria quem ela era. Um lindo vestido, um novo corte de cabelo... eram somente aparncia. Por dentro, continuava a ser comum e sem graa.
         - Vai adorar isso.
         Interrompida em seus pensamentos, ela olhou para a esteticista. Havia se esquecido do nome da mulher, algo que, na opinio de Darcy, fora to rude quanto 
pensar em desmarcar as sesses.
         Deitada sobre a maca, fitou o crach de identificao pregado ao uniforme alvo.
         - Vou, Angie?
         -  Claro.
         Para o horror de Darcy, Angie puxou o lenol branco e comeou a passar lama sobre seus seios.
         -  Oh, Deus!
         - Est muito quente?
         -  No. - Ela no iria corar. Nunca mais. - Para que serve a lama?
         -  Para tornar sua pele irresistvel.
         - Ningum ver minha pele - Darcy resmungou, e Angie caiu na gargalhada.
         - Estamos em Las Vegas. Sua sorte pode mudar a qualquer momento.
         - Talvez tenha razo. - Desistindo, Darcy fechou os olhos e relaxou.
         
         Ela e sua irresistvel pele mal haviam entrado na sute quando a campainha tocou. Ao abrir a porta, deparou-se com Mac.
         -  Tem um minuto? - ele perguntou e entrou no quarto. - No tenho muito tempo, mas queria que soubesse que a imprensa est me pressionando. A mulher misteriosa 
j foi noticiada. Os jornalistas vo continuar a especular, mas no ser s isso. Cedo ou tarde, sua identidade vir  tona. Precisa estar preparada.
         - No vou voltar para Kansas. - A frase surgiu de forma to inesperada que espantou a ambos.
         -  Se  assim que deseja - Mac disse, confuso.
         - No pretendo voltar - ela repetiu. - A quantia que voc me adiantou  suficiente para me hospedar em outro hotel.
         - E faria isso porque...
         - Voc disse que no me quer aqui.
         - No creio. - Mas ele se lembrou da exploso na noite anterior e imaginou ter dito algo semelhante. - Com certeza, no foi o que quis dizer. - Aborrecido 
consigo mesmo, passou a mo entre os cabelos. - Darcy...
         - J abusei demais de seu tempo. Sente-se responsvel por mim, mas no  necessrio. Vou ficar fora do caminho. Posso permanecer aqui e escrever. Alis, 
fiz isso a noite passada depois...
         Mac ergueu a mo, impedindo-a de prosseguir.
         -  Desculpe. Eu estava muito nervoso. Aquele idiota me deixou irado e descontei em voc. - Colocou as mos no bolso, frustrado. - Mas no deveria circular 
pelo cassino sozinha.
         Darcy encontrava-se prestes a ceder quando o ltimo comentrio a fez desistir.
         - Acha que sou estpida e ingnua.
         - No acho que seja estpida.
         Os olhos dourados faiscaram, fascinando Mac.
         -  S ingnua. Talvez um pouco incompetente e muito... - Sua mente trabalhava feroz, procurando a palavra certa. - Muito caipira para cuidar de mim mesma 
nesta grande e cruel cidade.
         Irritado, Mac franziu a testa, tornando-se ainda mais charmoso.
         -  Foi voc quem entrou na cidade com menos de dez dlares no bolso, sem documento, e vestindo apenas a roupa do corpo, no foi?
         - E da? Consegui chegar at aqui, no?
         - Estamos empatados - ele resmungou.
         - E ontem  noite no foi a primeira vez que vi um homem bbado. Sou de Kansas, no de Dog-patch. H muitos bbados de onde eu venho.
         -  Posso imaginar. - Mac precisou se controlar para no rir.
         - No se sinta obrigado a me proteger como se eu fosse um bichinho de estimao perdido no meio do trfego. No h razo para se preocupar comigo.
         - Eu no falei que estava preocupado com voc. Disse que voc me preocupa.
         -   a mesma coisa.
         -  E totalmente diferente.
         -  Como assim?
         Por um instante, Mac a estudou. As faces estavam rosadas, e os olhos se tornaram escuros e brilhantes.
         Darcy estava com o orgulho ferido. E a culpa era dele. Suspirou, aborrecido.
         - No est me deixando outra escolha. Voc realmente me preocupa - repetiu, tocando-a nos ombros. - Porque... - Deslizou as mos ao longo dos braos delicados 
e segurou-a pela cintura. Viu os lbios se entreabrirem e cobriu-os com os dele.
         O mundo pareceu parar. Cada pensamento coerente desapareceu em segundos. Os lbios de Mac eram como ela os sentira na noite anterior: quentes, firmes e 
decididos. Mas agora, enquanto se via transportada por sensaes ininteligveis, tudo parecia chocante. Cores salpicavam ao redor at se derreterem no corpo de Darcy.
         Afoito, Mac aprofundou o beijo, estimulando-a, convidando-a e brincando com a sbita intimidade. Ela se sentiu inebriada de prazer, como se estivesse mergulhada 
em uma piscina aquecida.
         Ao perder o equilbrio, Darcy agarrou os braos fortes. Mac pde sentir a presso dos dedos atravs da roupa e tambm a volpia ansiosa dos lbios dela. 
Rendio e desejo, uma perigosa mistura, pontuavam a fragilidade daquele momento. A sensao parecia muito mais profunda do que ele previra. Queria mais, mais do 
que havia esperado.
         Ento algo comeou a perturb-lo. Precisava terminar aquele interldio a seu modo. Darcy estava excitada. Ele tambm. Apesar de inocente, no se tratava 
de uma criana. E Mac a desejava. Deus, como a queria.
         Quando ele se afastou, os olhos de Darcy permaneceram fechados. Fitou-a umedecer os lbios, como se ainda quisesse sentir o sabor do beijo. Ondas de prazer 
fluam entre ambos.
         Darcy abriu os olhos e o encarou. Em seguida, suas faces ficaram vermelhas. Suspirou, embevecida.
         - Por que... - Darcy respirava ofegante. - Por que fez isso?
         "Seja cuidadoso com ela", advertia-se em pensamento. "Muito cuidadoso".
         -  Porque eu quis. H algum problema?
         - No - ela respondeu com tamanha seriedade que quase o fez rir. - Creio que no.
         -  Que bom. Porque ainda no terminei.
         Mac estreitou o abrao, colando seu corpo ao dela.
         -  Bem... - Darcy sorriu. - Fique  vontade.
         Sua inocncia era to clara quanto a lua, e tremendamente sedutora. No, no se tratava de uma criana, Mac concluiu outra vez, mas as vantagens daquele 
jogo estavam todas contra ela. No tinha o direito de se aproveitar daquela frgil condio.
         Readquirindo controle, encostou sua testa na dela. "V devagar", ordenou a si mesmo. "Ou melhor, pare".
         - Darcy, voc  uma mulher perigosa.
         - Eu? - Os olhos se arregalaram de espanto. O choque no tom de voz no aliviou a tenso de Mac. No se tratava de mero desejo, mas sim de desejo puro e 
real por ela. Uma sensao especfica e completamente imprpria.
         -  Letal - murmurou e se afastou. Contudo, manteve as mos sobre os ombros finos, incapaz de romper o contato. Ela o fitava, curiosa. Os olhos dourados 
ainda possuam brilho, e os lbios antecipavam outro beijo.
         - J teve intimidade com algum namorado? Piscando vrias vezes, Darcy olhou para a camisa de Mac. Era de seda preta. Sentira a maciez do tecido sob seus 
dedos. Queria toc-lo de novo.
         - No exatamente.
         - A despeito das infinitas variedades, sexo ainda  um timo passatempo.
         Por fim, ela teve a ntida impresso de que Mac no pretendia beij-la novamente. Frustrao sexual era algo novo e nada agradvel. Um tanto ofendida, voltou 
a encar-lo.
         -  Sei o que  sexo.
         "No, querida", pensou, "no sabe". Darcy no tinha uma nfima idia do que Mac pretendia dela e com ela. Caso contrrio, agitaria as invisveis asas de 
fada e fugiria para bem longe.
         - Voc no me conhece, Darcy. No sabe como so as regras por aqui.
         - Posso aprender. No sou idiota.
         - Prefiro que no aprenda determinadas coisas. - Ele apertou-lhe com suavidade os ombros quando o telefone comeou a tocar. -  melhor atender.
         Virando-se, ela caminhou a passos largos e pegou o aparelho.
         - Sim? Al?
         -  Quem est falando?
         A repentina pergunta soou to enftica que Darcy se apressou em responder.
         -  Darcy Wallace.
         - Wallace?  parente de William Wallace, o grande heri da Esccia?
         - Na verdade... - Darcy ficou intrigada. - Ele  meu ancestral por parte de pai.
         - Santo Deus! Sinta-se orgulhosa de sua descendncia, garota. Darcy, certo?  uma mulher casada, Darcy Wallace?
         -  No, no sou. Eu... Desculpe-me, mas quem est falando?
         - Sou Daniel MacGregor, e  um prazer conhec-la. Darcy quase perdeu o flego de tanta emoo.
         - Como vai, sr. MacGregor?
         - Estou timo, Darcy Wallace. Fui informado de que meu neto estaria com voc.
         -  Sim, est aqui. - No podia acreditar que conversava ao telefone com o famoso Daniel MacGregor. - Gostaria de falar com ele?
         -  Gostaria, sim. Possui uma voz clara e muito suave, Darcy Wallace. Quantos anos tem?
         - Vinte e trs.
         - Aposto que tambm  saudvel. Divertindo-se, ela assentiu.
         - Sim, sou saudvel. - S notou a presena de Mac quando ele roubou-lhe o telefone.
         - Quer que eu verifique os dentes dela tambm, vov?
         - A est voc. - Feliz, mas nada arrependido, Daniel aumentou o tom de voz - Sua secretria transferiu a ligao. Claro, eu jamais a deixaria faz-lo se 
meu neto mais velho se importasse em telefonar algumas vezes para sua av. Ela se sente negligenciada.
         Como sempre, Daniel usava de artimanhas para conseguir o que queria.
         - Faz menos de uma semana que falei com vocs dois - Mac se defendeu.
         - Em nossa idade, garoto, uma semana representa anos.
         - Vocs vo viver para sempre. - Mac sorriu.
         - Esse  o plano. Sua me, que telefona com freqncia, me disse que perdeu quase dois milhes.
         Mac olhou para Darcy, que estava parada diante da janela.
         - s vezes ganhamos, outras vezes perdemos.
         - Sem dvida. E foi a garota com quem acabei de falar que o escalpelou?
         - Foi.
         - Uma Wallace. Boa maneiras, voz clara. Ela  bonita?
         Sentando-se  mesa, Mac franziu a testa. Conhecia muito bem seu av.
         - A composio  perfeita. Os olhos so indescritveis. - Distrado, ele folheou o caderno sobre a mesa enquanto ouvia a gargalhada de Daniel.
         - Ento ela  linda. Fique de olho nela, certo?
         Desviando a ateno de pginas e pginas manuscritas, Mac fitou a postura de Darcy. O sol iluminava os cabelos sedosos. De braos cruzados, ela fitava a 
paisagem atravs da janela. Parecia to delicada quanto uma linda flor perdida no deserto.
         - No - respondeu, convicto. - No vou ficar.
         - Por que no? Pretende permanecer solteiro a vida toda? Um homem de sua idade precisa de esposa. Devia comear uma famlia.
         Enquanto Daniel discursava a respeito de responsabilidade, dever e o nome da famlia, Mac leu uma das pginas. Descrevia uma mulher, sozinha no escuro, 
observando as luzes da cidade pela janela. O sentido de solido e tristeza era comovente.
         Pensativo, fechou o caderno e estudou Darcy apreciando a cidade.
         - Mas estou me divertindo, vov - disse quando, enfim, Daniel fez uma pausa. - Trabalho do meu jeito com as garotas do show.
         Daniel soltou outra gargalhada descontrada.
         - Voc  incorrigvel. Sinto saudade, Robbie. - Seu av era o nico que ainda o chamava pelo apelido de infncia.
         -Tambm estou com saudade. De todos vocs, alis.
         - Bem, se abandonasse as garotas do show por alguns dias, poderia vir visitar sua pobre e infeliz vov.
         Claro que Anna MacGregor no estava perto do marido. Mac podia imaginar a cena, caso ela escutasse Daniel chamando-a de "pobre" e "infeliz".
         -  Diga-lhe que mando beijos.
         -  Farei isso, embora ela prefira receb-los pessoalmente. Ponha a garota de volta ao telefone.
         -  No.
         -  Que falta de respeito - Daniel murmurou. - Eu deveria ter lhe dado uma boa surra quando criana.
         -  Tarde demais. Comporte-se, vov. Ligo para voc em breve.
         - Vou esperar.
         Mac permaneceu onde estava depois de desligar o telefone.
         - Perdoe o interrogatrio do velho MacGregor.
         -  Est tudo bem. - Ela continuava em frente  janela, sob os raios dourados do sol. - Ele me pareceu formidvel.
         - Aparentemente  duro mas tem um bom corao.
         - Sei...
         Ela no era bisbilhoteira, mas no pde deixar de escutar parte da conversa de Mac. O tom amoroso e, ao mesmo tempo, irritado a incomodou. E certas palavras 
lhe haviam aumentado a confuso.
         As garotas do show. Nada mais normal do que se sentir atrado por longas pernas, belos corpos, rostos exticos. Devia estar curioso, sups, desanimada. 
A curiosidade justificava o beijo.
         Ele despertara em Darcy a doce necessidade de sentir mais uma vez aquele turbulento sabor do pecado.
         - Eu me distra e no disse a verdadeira razo que me trouxe aqui, - Mac esperou que ela se virasse. A postura fria e correta contradiziam a expresso conturbada 
dos lindos olhos. - Est zangada.
         -  No, estou irritada, mas no zangada. Qual foi a razo... - Darcy interrompeu-se de repente para dar mais nfase s palavras seguintes - que o trouxe 
aqui?
         Aquele sarcasmo o surpreendeu. A sbita distncia o fez se levantar e colocar as mos no bolso.
         -  A imprensa. Sei quanto se preocupa com a possibilidade de seu nome sair no noticirio. Estamos sendo assediados por telefonemas constantes. Posso manter 
sua identidade em segredo, mas logo sabero de tudo, Darcy. H centenas de empregados no hotel e vrias pessoas j a conhecem. Mais cedo ou mais tarde, algum informar 
aos reprteres.
         - Estou certa de que tem razo. - Ela devia se sentir grata por Mac lhe oferecer mais preocupaes? - Voc pensa que sou uma covarde por no querer que 
Gerald saiba onde me encontro.
         - Penso que isso  problema seu.
         - Pois sou uma covarde - Darcy ergueu o queixo, desafiadora, contradizendo as prprias palavras. - Acho melhor concordar do que lutar, fugir a enfrentar. 
E  por isso que estou aqui, certo? Covardia combina comigo.
         - Ele no pode feri-la, Darcy.
         - Claro que pode. - Erguendo as mos, ela suspirou, resignada. - As palavras ferem, machucam o corao e dilaceram a alma. Prefiro ser esbofeteada a ouvir 
certas frases. - Ento ela sacudiu a cabea. - Bem, que assim seja. Quanto tempo ainda tenho at que meu nome venha  baila?
         - Um dia ou dois.
         - Nesse caso, vou aproveitar o anonimato enquanto posso. Agradeo sua preocupao. Voc deve estar ocupado. No quero incomod-lo mais.
         - Est me mandando embora?
         - Ambos sabemos que voc tem trabalho a fazer. __Darcy tentou sorrir. - No preciso de bab.
         Mac caminhou at a porta, mas parou com a mo na maaneta.
         - Quis beij-la novamente. - O rosto de Darcy ficou plido. - Um pouco ousado demais para seu prprio bem, e talvez para o meu.
         - Estou cansada de pensar em meu prprio bem e disposta a jogar.
         Algo nos olhos de Mac a fez estremecer.
         - A aposta  muito alta. Um risco excessivo para uma novata, Darcy de Kansas. Regra nmero um: nunca faa uma aposta que no possa cobrir.
         Depois que Mac se retirou e fechou a porta, ela se jogou no sof.
         -  Por que acha que no serei capaz de cobrir a aposta?
         
         Durante o resto do dia, Darcy ficou no quarto, escrevendo furiosamente. O mecnico do hotel havia rebocado seu carro e feito os reparos necessrios. Em 
um impulso, ela lhe perguntou quanto podia valer o veculo, caso pretendesse vend-lo. Com exceo dos cadernos que trouxera, queria eliminar qualquer vestgio do 
passado em Trader's Corners.
         Quando o mecnico lhe ofereceu mil dlares, ela aceitou no ato e apressou-se em assinar toda a papelada.
         Havia um pequeno computador porttil sobre a mesa quando retornou  sute, com um bilhete dizendo que o aparelho seria dela durante a estada no Comanche.
         Empolgada, Darcy ligou o computador, examinou-o e experimentou-o. Depois de familiarizar-se com o aparelho, transcreveu suas notas na tela.
         Trabalhou noite adentro at seus olhos comearam a turvar e os dedos a doer. De repente, sentiu fome. Era tentador pegar o telefone e pedir a refeio no 
quarto, somente para ficar escondida.
         Porm, ergueu os ombros e agarrou a bolsa. Precisava sair, decidiu, mais animada. Aproveitaria a oportunidade de fazer o que bem quisesse. E, depois do 
jantar, iria ao cassino.
         
         Todas as mesas de jogo estavam abarrotadas de clientes, e a fumaa dos cigarros se misturava com aromas de perfumes variados. A princpio, ela apenas estudou 
o movimento do cassino. Refletiu acerca das vantagens, como dissera Mac. Precisava aprender as regras do jogo.
         Darcy gostava daquele mundo, de testar os limites e da emoo de correr riscos.
         Aproximou-se de uma mesa de blackjack. Por algum tempo, observou um homem, com um charuto no canto da boca, perder cinco mil dlares sem pestanejar.
         Impressionante.
         Analisou a roleta e as inmeras apostas que dependiam da minscula bola de prata que saltitava de acordo com a velocidade da roda. Viu o movimento frentico 
de fichas e mais fichas. Pretas ou vermelhas, as marcaes do feltro verde pareciam adquirir vida prpria.
         Fascinante.
         Do outro lado do cassino, as mquinas de caa-nqueis no paravam de funcionar. Luzes piscavam e sirenes ecoavam pelo ambiente. Jackpot. Darcy observou 
a tcnica de uma senhora que apertava botes e conversava com o aparelho brilhante. Quando as moedas caram na bandeja, ela gritou de satisfao.
         - Cinqenta dlares - disse a mulher, sorrindo para Darcy. - J era hora de essa mquina me devolver alguma quantia.
         - Parabns.  pquer, no ?
         -  Isso mesmo. Estou jogando h mais de duas horas. Mas agora ganhei. - Ela deu um tapa amigvel na mquina e apertou o boto vermelho. - Vamos l, doura.
         Devia ser muito divertido, pensou Darcy. Simples, descomplicado e um excelente lugar para comear. Caminhou pelo corredor de caa-nqueis at encontrar 
uma mquina desocupada. Aps ler as instrues, inseriu vinte dlares e viu as luzes se acenderem. Apertou o boto e sorriu quando as cartas foram distribudas.
         
         Em seu escritrio, Mac a vigiava atravs da tela. No podia acreditar. Darcy jogava com inexperincia. Se queria ganhar, tinha de aumentar os crditos. 
Agora ela segurava dois reis em vez de arriscar o straight flush.
         Era bvio que ela jamais jogara pquer em sua vida.
         Bem, a alternativa seria impedir que Darcy perdesse mais de cem dlares, pensou, lamentando a ousadia.
         Olhou para a porta quando ouviu algum bater e sorriu ao ver sua me entrar no escritrio.
         -  Ol, bonito.
         -  Ol, beleza. - Mac a abraou pela cintura e beijou-lhe o rosto. - S esperava v-la aqui amanh ou depois.
         - Terminamos mais cedo. - Ela o segurou pelo rosto e o fitou. - E eu queria ver meu menino.
         -  Onde est papai?
         - Logo estar aqui. Ele parou para conversar na, recepo e ento o abandonei.
         Mac riu e a beijou de novo. Ela era to linda com aquela pele macia e olhos verdes. A expresso forte e de rara beleza fora a garantia de uma infncia feliz 
e segura.
         - Sente-se, me. Deixe-me servir-lhe um drinque.
         - Eu adoraria uma taa de vinho. O dia foi longo e cansativo. - Suspirando, Serena sentou-se em uma das poltronas de couro. - Falei com Caine hoje de manh. 
Ele j conseguiu a papelada da mulher que ganhou o prmio acumulado. A imprensa tem feito muitos comentrios a respeito da Madame X.
         Rindo, Mac serviu o vinho favorito de sua me.
         -  No posso imaginar em um ttulo mais adequado para ela.
         - Verdade? Como ela ?
         - Veja por si mesma. - Ele apontou para uma das telas. -  aquela mulher de blusa azul em frente  mquina de pquer.
         Serena aproximou-se e observou enquanto degustava o vinho. Franziu a testa quando Darcy segurou um par de oito e dispensou o que poderia ser a grande cartada.
         - No joga muito bem, no ?
         - To verde quanto as uvas.
         O corao de jogadora de Serena se apertou no instante em que Darcy puxou mais dois oitos.
         - Mas tem sorte. E  bonita.  verdade que estava falida quando chegou aqui?
         - Prestes a perder o ltimo dlar.
         - Que bom para ela. - Serena ergueu a taa diante da tela e brindou. - Estou querendo conhec-la. Oh, algum resolveu ajud-la.
         -  O qu?
         Alerta, Mac fitou a tela e viu um homem se aproximando da mquina. O olhar predador era evidente quando ele colocou a mo sobre o ombro de Darcy.
         - Cretino.
         Mac se precipitou em direo  porta, antes que Serena pudesse impedi-lo.
         - Mac?
         - Tenho de descer.
         -  Mas por que...
         Serena decidiu que havia apenas um meio de descobrir, j que o filho desaparecera. Deixou o vinho de lado e correu atrs dele.
         
         
         
         
         
        CAPTULO V
         
         
         
         As pessoas eram to gentis e amigveis, pensou Darcy, enquanto sorria para o atraente homem que usava chapu de vaqueiro. Ele se mostrou atencioso ao oferecer-lhe 
ajuda com a mquina. Seu nome era Jake e morava em Dallas, o que, segundo ele, os tornava praticamente vizinhos.
         - Sou novata em matria de jogos - Darcy confidenciou-lhe, admirando os brilhantes olhos verdes de Jake.
         -  Pude perceber isso no primeiro instante, doura. Como lhe disse, voc precisa aumentar o nmero de crditos, caso contrrio no conseguir uma quantia 
considervel quando ganhar.
         -  Certo. - Darcy apertou o boto e estudou as cartas. - Tenho um par de trs, portanto vou segur-lo.
         - Pode ser. - Jake agarrou-lhe a mo antes que ela fizesse qualquer movimento. - Mas, pense, est atrs da grande cartada, certo? O prmio  acumulado. 
Voc tem o s, a rainha e o valete de copas. Um par de trs no vai lhe servir para nada. Mesmo trs cartas iguais apenas a manteriam no jogo.
         - Devo me livrar dos trs?
         - Se quer jogar de verdade... - Ele aproximou-se muito do rosto dela. - Arrisque.
         - Vamos ver.
         Concentrada, ela dispensou as duas cartas iguais, Em seguida, conseguiu um s e um cinco.
         - No  nada bom. - Lembrando-se do que o crupi lhe dissera, Darcy se virou para Jake e sorriu. - Mas perdi corretamente.
         - Esse  o esprito. - Ela era linda como uma flor delicada, pensou Jake, e muito fcil de conquistar. Interessado, aproximou-se ainda mais. - Por que no 
conversamos acerca das estratgias do pquer tomando um drinque no bar?
         - A dama no est disponvel. - Mac abraou Darcy pelos ombros de forma possessiva.
         Tensa, ela virou o rosto.
         - Mac... - sussurrou.
         Ele estava com aquele olhar frio outra vez. Mas no era para Darcy. A frieza se direcionava exclusivamente a seu novo amigo.
         - Esse  Jake. Ele est me ensinando a jogar pquer na mquina.
         - Entendo. A dama est comigo.
         Aps alguns segundos de reflexo, Jake decidiu no arriscar sua integridade fsica.
         - Desculpe, colega. No sabia que estava invadindo seu territrio. - Tirando o chapu, ele olhou para Darcy. - Da prxima vez, fique atenta  grande cartada.
         - Obrigada. - Ela estendeu a mo para se despedir. Mas ficou confusa quando Jake fitou Mac, antes de aceitar o cumprimento.
         - Foi um prazer. - Depois de uma rpida troca de olhares com Mac, Jake se retirou.
         - Eu estava fazendo tudo errado - Darcy comeou a se explicar.
         - No lhe disse para no vir ao cassino sozinha? - O fato de ele estar falando baixo no diminua a fria por trs das palavras.
         - Que ridculo. - Darcy queria, na verdade, gritar, mas conteve-se. - No espera que eu fique sentada em meu quarto a noite toda? Eu s...
         - Dez minutos na mquina foram suficientes para ele flertar com voc.
         - No era flerte. Ele estava me ajudando. O rude murmrio de Mac deixou-a ofendida,
         -  No fale palavres na minha frente.
         - No era com voc. - Ele a segurou pelos braos, puxando-a. - O vaqueiro no pretendia pagar-lhe um drinque apenas para ser gentil. Estava preparando o 
terreno. E, acredite-me, voc  presa fcil.
         Trmula, Darcy sentia o sangue ferver nas veias de tanta raiva.
         - Bem, se ele pretendia mesmo flertar comigo, isso  problema meu.
         - O cassino me pertence. Logo o problema  meu. Irritada, ela tentou se desvencilhar em vo.
         - Solte-me. No preciso me submeter a isso. Se quisesse um homem possessivo a meu lado, teria ficado em Kansas.
         - Voc no est mais em Kansas.
         - Nada mais bvio e original, sr. Blade. Agora deixe-me ir. H muitos outros lugares onde posso jogar e fazer amizades sem ser interrompida pelo gerente.
         - Quer jogar? - Para espanto e prazer de Darcy, ele a prensou contra a mquina, fitando-a com olhos de puro desejo. - Quer fazer amizades?
         - Mac? - Decidindo que j havia presenciado o suficiente, Serena aproximou-se e sorriu. - No vai me apresentar  jovem?
         Pego de surpresa, ele se virou. Tinha se esquecido completamente de sua me. Alm do sorriso gentil havia uma expresso de comando nos olhos de Serena, 
Sentiu-se como se voltasse a ter doze anos outra vez.
         - Claro. - Relutante, Mac largou os braos de Darcy. Sentiu o rosto corar de constrangimento. - Serena MacGregor Blade, Darcy Wallace. Darcy, essa  minha 
me.
         - Oh, Deus. - Darcy no conseguia esconder a vergonha. - Sra. Blade, como vai?
         - Estou feliz em conhec-la. Acabei de chegar  cidade e perguntei de voc a Mac. - Ainda sorrindo, Serena passou o brao ao redor dos ombros de Darcy. 
- Agora podemos conversar pessoalmente. Vamos tomar uma bebida. Mac - ela fitou o filho -, estaremos no bar do hotel. Avise seu pai onde me encontro, certo?
         - Claro - Mac murmurou. - Est certo. - Ele hesitou por alguns segundos, antes de se afastar de Darcy.
         
         Em um canto sossegado do bar do hotel, sentada na macia poltrona de veludo, Darcy deslizava os dedos ao longo da taa de vinho. Havia tomado somente um 
gole para molhar a garganta, pois tinha medo de exagerar.
         Mac estava certo apenas em uma questo, pensou. Ela no sabia se controlar quando se tratava de bebida.
         - Sra. Blade, sinto muito mesmo.
         -  Por qu? - Serena acomodou-se na poltrona e estudou a face da jovem a sua frente. A beleza delicada, quase etrea, tornava-a linda.  Grandes olhos inocentes, 
lbios de boneca e mos nervosas.
         No era o tipo de mulher que seu filho olharia duas vezes.
         -  Agora sei o que Mac quis dizer com asas de fada. Parabns por sua sorte, Darcy.
         - Obrigada. Ainda no parece real. - Ela olhou ao redor. - Alis, nada disso me parece verdadeiro.
         -  Tem planos para o novo futuro? Ou vai nos dar a chance de recuperar parte da quantia?
         -  Oh, ele  como o senhor. Na verdade, ganho um pouco mais cada vez que jogo. - Darcy tentou ser educada, mas estragou tudo com uma risada nervosa. - Mas 
irei devolver alguma parte nas lojas e no salo de beleza.
         - Uma mulher com meu corao - Serena brincou. - Temos lojas incrveis aqui.
         - E as vendedoras ajoelham quando a vem. - Justin comeou a acariciar uma mecha dos cabelos de Serena.
         O gesto simples fez Darcy se dar conta de que jamais vira seus pais se tocarem assim. No havia intimidade entre eles, e tal constatao a entristeceu.
         - Outra rodada, senhoras? - Justin acenou para a garonete.
         - Para mim, no. Obrigada. Preciso dormir. Pensei em procurar um carro novo amanh.
         -  Quer companhia?
         Darcy pegou a bolsa e se levantou. Sorriu hesitante para Serena.
         -  Sim, gostaria muito.
         - Adoro compras. Ligue para meu quarto quando decidir sair. Mesmo que eu no esteja, algum vai me encontrar.
         - Est certo. Foi timo conhec-los. Boa noite. Antes de fitar a esposa, Justin esperou que Darcy se afastasse.
         -  Que idias mirabolantes esto passando por sua cabea, Serena?
         -  Idias de todos os tipos. - Ela virou o rosto e beijou os lbios do marido.
         -  Tanto assim?
         - Nosso primognito quase esbofeteou um vaqueiro por estar flertando com nossa jovem do Kansas.
         - Outra dose de vinho para mim e minha mulher, Carol - ele pediu  garonete. - Deve estar exagerando, Serena. Duncan  o nico filho capaz de arrumar briga 
por causa de uma mulher. Mac jamais fez isso.
         - No estou exagerando. Senti aquele cheiro tpico de assassinato no ar, Blade - ela murmurou. - Acho que Mac foi seriamente fisgado.
         - Fisgado? - A palavra o fez rir. Mas, de repente, parou, ansioso. - Defina "seriamente".
         - Justin - Serena acariciou o rosto do marido -, ele tem quase trinta anos. Isso iria acontecer algum dia.
         - Ela no faz o tipo de Mac.
         - Exato. Ela no faz o tipo dele, mas ainda assim  perfeita para nosso filho. - Serena conteve as lgrimas que comearam a surgir. - Na realidade, pretendo 
descobrir se ela  mesmo perfeita para Mac.
         -  Serena, voc est falando como seu pai.
         - No seja ridculo. - As lgrimas secaram diante da ofensa. - No tenho inteno de manipular ou esquematizar estratgias. Vou apenas...   .
         -  Interferir.
         - Discretamente - ela completou. - Voc est muito atraente hoje. - Serena tocou as mechas de cabelos grisalhos de Justin. - Por que no levamos o vinho 
at nosso quarto, chefe ndio?
         - Est tentando me distrair.
         -  Claro que estou. - Ela sorriu, sedutora. - Funcionou?
         Tomando-lhe a mo, Justin ajudou-a a se levantar.
         -  Sempre funciona. - Beijou-lhe os dedos.
         
         Como de hbito, Mac dormia das trs da manh at s nove, apesar de finalizar a jornada de trabalho durante a madrugada. Podia deixar a responsabilidade 
do cassino com os seguranas. A rotina da manh era dedicada s pilhas de documentos que o Comanche exigia: extratos de banco, contas, reunies com a equipe, contratao 
e dispensa de funcionrios.
         Havia assumido a direo do Comanche em Las Vegas quando completara vinte e quatro anos. Por fora o ambiente era amigvel, barulhento, movimentado e agitado. 
Mas, nos bastidores, organizao e limites geravam lucros e dividendos.
         Sagaz, ele podia identificar trapaas ao observar uma mesa de jogo por apenas cinco minutos. Determinava at onde os jogadores poderiam ir ou quando parar. 
Dos empregados esperava honestidade e confiana. Aqueles que cumpriam as expectativas eram recompensados. Os que no o faziam eram despedidos.
         No havia segunda chance.
         Seu pai construra o Comanche com coragem e trabalho duro, tornando o estabelecimento a jia rara do deserto. A responsabilidade de Mac era mant-lo no 
topo, e ele levava muito a srio aquela tarefa.
         -  A primeira metade do ano me parece tima. - Justin acomodou-se na poltrona e tirou os culos de leitura. Ento devolveu a Mac o impresso do computador. 
- Cinco por cento a mais comparado ao ano passado.
         -  Seis - Mac o corrigiu. - E um quarto.
         - Voc herdou a destreza de sua me para clculos.
         - Vivo de nmeros, pai. A propsito, onde est mame? Pensei que ela viesse a esta reunio.
         -  Saiu com Darcy.
         Mac jogou a folha sobre a mesa.
         -  Com Darcy?
         - Foram s compras.  uma jovem muito agradvel. - O rosto de Justin tornou-se plido. - Assim fica difcil lamentar os sete dgitos que vamos entregar 
a ela.
         -  Tem razo. - Mac tamborilava os dedos na superfcie da mesa. -A imprensa est pressionando para saber quem  ela. Tenho uma dzia de funcionrios atendendo 
ligaes o dia todo.
         - Nada disso atrapalhar os negcios.
         - O hotel recebeu inmeras reservas nos ltimos dois dias. A vitria de Darcy j nos rendeu trinta por cento do oramento.
         -  Quando a histria vier  tona, e aquele lindo rosto sair na televiso, os turistas iro correr para o Comanche.
         - Vou colocar trs homens extras no cassino. E pretendo promover Jonny Hawber para chefe de segurana.
         -  Voc conhece sua equipe. - Justin acendeu um charuto. - Teremos quase o mesmo efeito em outras localizaes. - Quando Mac abriu o arquivo no computador, 
Justin soltou uma baforada do charuto. - O que aconteceu quela morena que adorava bacar e conhaque?
         - Pamela. - Seu pai no perdia nada, Mac pensou. - Creio que ela est jogando bacar e tomando conhaque no Mirage hoje em dia.
         - Que pena. Ela acrescentava certo brilho s mesas.
         - Estava procurando um marido rico. Decidi romper a relao.
         - Est saindo com algum? - Justin sorriu diante da expresso desconfiada do filho. - S quero me atualizar, Mac. Duncan troca tanto de parceiras que at 
perdi a conta.
         -  Duncan  viciado em mulheres, pai. Prefiro uma de cada vez.  menos complicado. E no, no estou saindo com ningum. Pode dizer ao vov que o neto mais 
velho continua um solteiro invicto.
         -  Creio que quatro lindos bisnetos vo satisfaz-lo por enquanto. - Justin riu.
         -  Nada ir satisfaz-lo at que todos ns estejamos casados e com uma penca de filhos. Ao menos ele poderia atormentar um de meus primos. Talvez em Washington.
         -  Ele j est fazendo isso. Alan me disse que Daniel no vai largar de Ian at conseguir v-lo casado. Mas seu primo morrer solteiro a despeito do av. 
-Justin gargalhou. - Ian sorri para Daniel, concorda com tudo e educadamente o ignora.
         - Talvez eu sugira outro nome em nossa prxima conversa e distraia Daniel por mais algum tempo. Para me preservar, claro.
         A porta se abriu de repente.
         - Falando no vov... - Mac se levantou. MacGregor parou  soleira da porta e sorriu. Os cabelos brancos emolduravam um rosto arredondado, e os olhos azuis 
brilhavam, transmitindo a alegria de Daniel. Os ombros largos o tornavam ainda mais acolhedor. Ele bateu a imensa mo nas costas de Justin, cumprimentando o genro.
         - Passe-me um desses charutos - Daniel pediu e abraou Mac com extremo afeto. - Sirva-me uma dose de usque, garoto. Atravessar o pas naquele avio me 
deixou sedento.
         - J tomou usque durante o vo. - Caine MacGregor entrou na sala. - E flertou com a aeromoa quando eu no estava olhando. Se mame descobrir, vai me matar.
         - O que os olhos no vem o corao no sente. - Daniel jogou-se na poltrona de couro e fitou o escritrio com grande prazer. - Bem, e quanto ao charuto?
         Conhecendo as regras e a personalidade de Anna MacGregor, Justin voltou-se para o cunhado.
         - Anna o deixou sob sua responsabilidade?
         - Ah! - Daniel ergueu a bengala que utilizava mais para se exibir do que por necessidade.
         - Ele no conseguia ficar quieto em casa. Mame mandou lembranas a todos.  bom v-los. - Caine abraou Justin e Mac. - Onde est Serena?
         - Fazendo compras - Justin respondeu. - Logo estar de volta.
         - Quer, por favor, me dar aquele charuto - Daniel esbravejou e levantou de novo a bengala. - E onde est a jovem que lhe tirou quase dois milhes?
         Mac se virou para fitar o av. Formidvel, Darcy teria dito. No mnimo, ela iria descobrir por si s quo formidvel seria conhecer Daniel.
         
         Cansada e com sede, Darcy entrou na sute, carregando sacolas e caixas. Serena, tambm na mesma condio, vinha logo atrs.
         - Oh, foi to divertido. - Suspirando, Serena jogou os pacotes no cho e se sentou no sof. - Meus ps esto me matando. Mas  sinal de boas compras.
         -  Nem sequer me lembro do que comprei. Vi tantas coisas bonitas.
         - Sou uma pssima influncia.
         -  Voc foi maravilhosa. - Havia sido um dos dias mais magnficos da vida de Darcy. De loja em loja, ela provou modelos e desfilou para os olhos argutos 
de Serena. - Sabe tudo acerca de roupas.
         - Tenho uma vida inteira de experincia. Darcy, suba e vista aquele vestido amarelo. Estou louca para v-la outra vez com ele. Calce as sandlias brancas 
tambm. - Serena se levantou e conduziu-a  escada. - Faa isso por mim, querida. Vou pedir um refresco gelado para ns duas.
         - Est bem. - Aps subir alguns degraus, Darcy se virou. - Foi um passeio encantador, Serena. Mas no sei se quero aquele carro esporte. E to... desconfortvel.
         -  Pensaremos nisso depois. - Resmungando consigo mesma, Serena pediu limonada ao servio de quarto.
         A jovem estava sedenta por ateno, pensou, penalizada. Quando Darcy falava de sua infncia era muito fcil perceber-lhe toda a carncia afetiva. Serena 
duvidava de que algum, algum dia, a tivesse levado para fazer compras, ou se divertir em uma loja de lingeries, ou dizer quo linda ficava naquele vestido amarelo.
         Ainda se lembrava da expresso de espanto no rosto de Darcy quando, aps um debate acerca de que brincos escolher, Serena riu e a abraou. E o olhar pensativo 
diante do carro esporte azul, antes de notar o sbrio seda que ela achou mais conveniente.
         Pelo pouco que Serena pde avaliar, Darcy tivera raros momentos de alegria durante a vida.
         Determinada, resolveu que isso iria mudar.
         Quando o telefone tocou, Darcy gritou do quarto:
         - Por favor, atenda. Estou...
         - Pode deixar. - Serena pegou o aparelho. - Sute da srta. Wallace, - Ela sorriu ao escutar a voz do outro lado da linha. - Sim, acabamos de chegar. Sua 
mente trabalhou rpido, imaginando o orgulho que Daniel sentiria ao ver a nova milionria.
         - Por que no resolvemos tudo aqui? Estou certa de que ela se sentir mais confortvel. Sim, agora est timo. At logo.
         Novamente resmungando, Serena se aproximou da escada.
         - Precisa de ajuda?
         - No, obrigada. H tantas caixas. Acabei de encontrar o vestido.
         - Leve o tempo que quiser. Era Justin no telefone. Importa-se de fazermos uma pequena reunio de negcios aqui?
         - De forma alguma. Fique  vontade.
         - timo. Vou pedir uns drinques. - Champanhe, ela decidiu.
         
         Enquanto descia a escada, dez minutos mais tarde, Darcy escutou passos depois que as portas do elevador se abriram. Parou onde estava, assustada com a mistura 
de vozes masculinas e a sbita onda de energia que adentrou o quarto.
         Ento viu Mac.
         Atenta, Serena observou o brilho revelador nos olhos do filho quando ele fitou Darcy. Agora suas suspeitas haviam se confirmado.
         - Minha garota. - Daniel envolveu a filha entre os braos fortes. - Voc telefona pouco para sua me. Ela est triste.
         - Tenho passado boa parte do tempo atormentando minhas crianas. - Serena beijou o rosto do pai e virou-se para abraar o irmo. - Como vai, querido? E 
Diana? Os garotos?
         - Todos vo timos. Diana est no meio de uma causa importante por isso no pde vir. Sente saudade de voc.
         - Ora, vejam s. - Daniel fitou a mulher parada na escada. - Voc  muito pequena, garota. Desa para que possamos v-la melhor.
         - Ele no morde. - Mac subiu alguns degraus e estendeu a mo para Darcy.
         As pernas bambeavam, e os dedos estavam agarrados ao corrimo para sustent-las. Portanto Darcy fingiu ignorar a gentileza de Mac. Mas, mesmo assim, ele 
tomou-lhe a mo com firmeza.
         - Darcy Wallace, MacGregor.
         Ela sentia tanto medo que no conseguia falar. Daniel parecia to grande e to orgulhoso de si com aqueles cabelos brancos e olhos azuis.
         - Prazer em conhec-lo, sr. MacGregor.
         Por algum momento, Daniel encarou-a apenas. Em seguida, seus lbios de abriram em um sorriso amistoso.
         - To brilhante quanto o raio de sol. - Ele tocou a face de Darcy com a mo enorme. - E pequena como um elfo.
         - O senhor  muito grande - brincou Darcy. - Se William da Esccia tivesse enfrentado homens como o senhor, ele no ganharia a batalha.
         Daniel soltou uma gargalhada.
         -  Que garota! Venha sentar-se comigo.
         - Poder interrog-la mais tarde, pai. Sou Caine MacGregor.
         Emocionada, Darcy fitou o homem alto de cabelos grisalhos e olhos tambm azuis.
         -  Sim. Prazer em conhec-lo. Estou to nervosa. - Quantas figuras legendrias ela poderia conhecer em um s dia? - Li muito a respeito do senhor na escola. 
Todos imaginavam que chegaria  presidncia.
         - Deixei a poltica para Alan. Sou somente um advogado. Seu advogado, alis - ele acrescentou, conduzindo-a  mesa. - Primeiro, chame-me de Caine. Quer 
privacidade enquanto tratamos de negcios?
         - Oh, no, por favor. - Darcy olhou ao redor e deteve-se em Mac. - Todos aqui fazem parte disso.
         - Como quiser. - Caine abriu sua maleta. - Tenho sua certido de nascimento, seguro social e uma cpia do boletim da polcia, relatando o roubo de sua bolsa. 
Talvez nunca mais consiga recuper-la.
         - No h problema. - Darcy fitou os papis que ele lhe entregava. - Voc trabalhou rpido.
         - Tenho boas relaes. - Caine sorriu. - Tirei cpias das duas ltimas declaraes do imposto de renda. H alguns formulrios que precisa preencher e assinar. 
Vrios, alis.
         - Est bem. - Ela tentou no se mostrar confusa.
         - Por onde comeo?
         - Vou explicar tudo conforme formos conversando. - Caine voltou-se para os olhares curiosos da famlia. - No tm nada melhor a fazer?
         - No. - Daniel acomodou-se em uma cadeira.
         - Um homem pode tomar uma bebida enquanto essa transao acontece?
         - J pedi. - Para distra-lo, Serena comeou a lhe contar as ltimas peripcias dos netos.
         Ouvindo atentamente, Darcy preencheu cada um dos formulrios. Hesitou quanto ao endereo, mas resolveu colocar o nome do hotel. Como Caine no a corrigisse, 
relaxou e prosseguiu com a burocracia.
         - Sua identidade est em ordem - Caine informou-lhe. - Pode tirar a segunda via da carteira de motorista, solicitar cartes de crdito e tudo mais. Voc 
no indicou um banco.
         - Um banco?
         - A transferncia de fundos  feita automaticamente de conta para conta. O cheque que Mac vai lhe apresentar  apenas fachada. Trata-se de uma estratgia 
publicitria para o Comanche. A quantia que recebeu sair da conta bancria do cassino para a sua. Quer que enviemos o dinheiro ao banco de Kansas?
         - No - ela respondeu veemente e ficou calada.
         - Onde quer que o dinheiro seja depositado, Darcy? - Caine perguntou, paciente.
         -  No sei. Talvez possa ficar em algum banco aqui em Las Vegas.
         - No tem problema. Est ciente de que a Receita Federal vai pegar uma parte, no?
         Darcy assentiu, assinando seu nome no ltimo formulrio. Pelo canto dos olhos, viu Mac abrir a porta para o servio de quarto.
         Ele vestia terno preto e camisa branca. O tecido parecia macio e leve. Darcy imaginou poder sentir a textura da roupa, acariciando o corpo viril.
         - Vai precisar de um consultor financeiro.
         -  O qu? - Corando por no prestar ateno, ela encarou Caine. - Desculpe.
         - Amanh de manha, ir receber uma grande quantia em dinheiro. Precisa de um consultor financeiro.
         - Voc no pode cuidar disso?
         - Posso lhe dar as coordenadas iniciais. Depois vai necessitar de um especialista. Escreverei alguns nomes confiveis.
         -  Obrigada,
         - Bem, abriremos uma conta para voc, e o dinheiro ser transferido.
         - Acabou?
         - Acabou.
         - Oh, Deus. - Darcy pressionou a mo sobre o ventre. Mais uma vez procurou Mac, esperando que lhe dissesse o que fazer ou como agir. Mas ele somente a fitava 
com uma expresso enigmtica.
         Impaciente diante da atitude passiva do filho, Serena se levantou.
         - Temos de comemorar. Mac querido, abra o champanhe. Darcy, voc recebe a primeira taa.
         - Vocs so to gentis comigo que... - Ela pulou ao escutar o barulho da rolha.
         - Nunca perdi mais de um milho para algum to educado. - Justin pegou a taa e entregou-a a Darcy. - Aproveite. - Ento beijou-lhe o rosto.
         Comovida com a manifestao de carinho, ela sentiu as faces corarem.
         - Obrigada.
         - Parabns. - Caine tomou-lhe a mo, em um gesto caloroso.
         Todos ergueram as taas e comearam a conversar. Darcy foi abraada e beijada por cada um, exceto por Mac. Ele apenas passou o dedo sobre a face rosada 
e sorriu.
         Houve risadas e discusses a respeito de onde a famlia iria jantar. E Darcy notou, chocada, que estava includa no evento.
         Distrada, Serena passou o brao ao redor dos ombros de Darcy enquanto dizia a Caine que era inadmissvel pedir pizza para uma ocasio como aquela.
         Uma avalanche de emoes invadia o corao de Darcy, causando-lhe lgrimas nos olhos. Sentiu a respirao sfrega e no conteve a sbita vontade de chorar.
         - Com licena. - Subiu a escada, correndo, antes que casse em prantos.
         Horrorizada, notou que todos pararam de falar, antes de trancar-se na sala de banho. Abriu a torneira da pia para que ningum a ouvisse chorar.
         Sentou-se no cho, encolheu-se como um beb e comeou a soluar.
         
         
         
         
         
        CAPTULO VI
         
         
         A sute encontrava-se silenciosa quando Darcy abriu a porta da sala de banho. No sabia se deveria se sentir aliviada ou mortificada por todos terem ido 
embora.
         Precisaria pedir desculpas e explicar-se, pensou, lamentando a situao. Mas, por enquanto, aproveitaria a solido para organizar os sentimentos.
         Fitou o quarto repleto de sacolas e caixas. Arrumar aquela baguna seria uma maneira de comear a ordenar uma parte de sua vida.
         Estava desempacotando uma blusa quando ouviu passos na escada. Depois de ajeit-la no cabide, viu Mac aproximar-se.
         - Voc est bem?
         - Estou. Achei que todos haviam sado.
         - Eu fiquei - ele disse, displicente, e fitou a blusa no cabide. - Que cor bonita.
         -  verdade. Sua me a escolheu. - Sentindo-se tola, Darcy pendurou o cabide no armrio. - Fui to grosseira ao me retirar daquele jeito. Vou me desculpar 
com todos.
         - No h necessidade.
         - Claro que h. - Passou vrios segundos ajeitando as mangas da blusa como se fosse de fundamental importncia. - Senti centenas de emoes ao mesmo tempo. 
- Ela pegou um par de sapatos para guardar na sapateira.
         -  compreensvel, Darcy. Trata-se de muito dinheiro. Vai mudar sua vida.
         - O dinheiro? - Distrada, ela contorceu as mos. - Sim, suponho que o dinheiro tenha a ver com isso.
         -  O que mais?
         Darcy pegou uma caixa, mas logo colocou-a de volta na cama e fitou a janela. Sentia-se estranha naquele mundo que apenas comeara a conhecer.
         - Sua famlia ... maravilhosa. Voc no tem idia do que possui. Mas como poderia? Sempre estiveram a seu lado, nunca viveu sem eles.
         Luzes coloridas piscavam nos luminosos dos cassinos, atraindo os turistas.
         Ganhar no era to ruim, afinal. Mas havia um preo muito alto a pagar pela vitria.
         - Sou uma observadora, Mac. E o fao muito bem. Por isso quero escrever. Tenho necessidade de relatar tudo que vejo, sinto ou experimento. - Darcy cruzou 
os braos e se virou para ele. - Observei sua famlia.
         Ela parecia to adorvel, concluiu Mac. E to perdida.
         - E o que viu?
         - Seu pai acariciando os cabelos de Serena ontem  noite no bar do hotel. - Darcy notou a confuso nos olhos de Mac e sorriu. - Voc est to habituado 
a manifestaes de afeto que nem repara quando acontecem. Por que o faria? - murmurou, sentindo inveja. - Justin a abraou, e ela recostou a cabea nos ombros dele... 
porque sabia que ele a acolheria.
         De olhos fechados, Darcy tocou o peito, relembrando a cena.
         - Enquanto ele conversava comigo, afagava as mechas dos cabelos de Serena. Os nos sedosos se confundiam com os dedos. Foi adorvel. Os olhos de sua me 
brilhavam. Pergunto-me se algum j se deu conta da suavidade do gesto.
         Abrindo os olhos, ela sorriu.
         Ouvindo-a descrever as sutilezas da cena, Mac pde visualiz-la por si s. Darcy tinha razo. Era algo natural e rotineiro na famlia, logo, nunca notara.
         - Nunca vi meus pais se tocarem dessa maneira. Eles se amavam, sei disso, mas jamais demonstraram afeto de forma to natural. Talvez fossem apenas retradas.
         Mac aproximou-se dela.
         - Oh, no estou sendo coerente - ela sussurrou.
         - Est, sim.
         -  mais que isso. Todos aqui agiam com extrema naturalidade. Voc tambm no deve ter notado. O modo como seu av abraou sua me. Um abrao forte e seguro. 
Por um instante, Serena tornou-se o centro do mundo de seu pai e vice-versa. Quando ela se sentou no brao da poltrona para conversar com Daniel, ele, por sua vez, 
pousou a mo sobre a perna da filha. Foi lindo. A discusso entre Serena e Caine acerca do lugar onde jantar e como riram juntos. Cada toque e olhar representava 
a unio de pessoas que se amam.
         - Eles realmente se amam. - Mac pde perceber que havia lgrimas nos olhos de Darcy e tocou-lhe os cabelos. - O que foi?
         - Foram to amorosos comigo. Estou tirando dinheiro deles, muito dinheiro, mas todos beberam champanhe em minha homenagem. Sua me colocou o brao ao redor 
de meus ombros. - Darcy lutou contra as lgrimas. - Parece ridculo, eu sei. Contudo, se eu no tivesse fugido, seria capaz de me atirar nos braos de Serena e chorar. 
Ela pensaria que sou louca.
         Solitria? Mac j havia notado quo solitria era?
         - Ela entenderia que voc s queria um abrao. - Mac passou os braos em torno dela, sentindo-a tremer. - Vamos, chore quanto quiser. Est tudo bem.
         Estreitando o contato, ele roou o rosto nos cabelos macios. Podia sentir a hesitao, a batalha de emoes que ainda a mantinha rgida. De sbito, Darcy 
relaxou e o abraou. Respirou fundo e soltou bem devagar.
         - Abraos e beijos so comuns em minha famlia. Voc no chocaria nenhum de ns, Darcy.
         Era to bom repousar a cabea naquele trax forte, ouvir as batidas do corao e sentir o aroma do perfume masculino. Darcy fechou os olhos outra vez, permitindo-se 
absorver o conforto das suaves carcias em suas costas.
         -   tudo to novo para mim. Todos eles. Especialmente voc.
         A voz soava rouca e baixa. A fragrncia dos cabelos sedosos inebriavam os sentidos de Mac. Lembrou-se de que aquele corpo moldado ao dele significava afeto, 
e no prazer. Amizade, mas nunca paixo.
         Ento ela ergueu o rosto como se pressentisse as necessidades emergentes.
         - Sente-se melhor? - Comeou a se afastar, mas Darcy segurou-o. Mac beijou-lhe a testa. Ficaram abraados  somente  porque ela precisava e nada mais, argumentou 
em pensamento.
         O vestido tinha pequenos botes ao longo das costas. Com os dedos, Mac percorreu cada um deles. Darcy soltou um longo suspiro de prazer.
         Os lbios sedentos de Mac deslizaram sobre a face rosada e a beijaram.
         Por instantes, ele se esqueceu de ser gentil. Darcy colou-se a Mac, tal qual um dourado e quente raio de sol. O beijo exigia rendio, e ela se submeteu 
ao ato, derretendo-se nos braos de Mac, como se houvesse esperado a vida toda para se entregar quele homem. A fora e o poder daqueles braos apertando-a possessivamente 
eram arrebatadores. Mesmo sabendo quo frgil estava, rendeu-se, glorificada, s carcias. Tratava-se de necessidade, refletiu. Um desejo selvagem que energizava-lhe 
o corpo. A pulsao aumentava, e o calor a consumia.
         Entorpecida, ela mergulhou em Mac. Em um gesto brusco, ele agarrou os quadris arredondados, pressionando-os contra seu prprio corpo. Mac absorvia os lbios 
ansiosos, impedindo novos gemidos e murmrios. Podia imaginar-se ardendo de desejo, possuindo-a at que as ondas de prazer se acalmassem.
         No momento em que suas mos comearam a desabotoar o vestido com certa violncia, Mac se deteve. Fitou aqueles grandes olhos dourados ainda inundados de 
lgrimas.
         Recuou de forma to abrupta que assustou Darcy. Ela levou a mo ao peito como se pudesse" assim acalmar as batidas frenticas do corao.
         - Voc confia em qualquer um. - As palavras a atingiram tal qual um punhal. - E um milagre que tenha sobrevivido at hoje.
         "Oh, meu Deus". Foi tudo em que ela pde pensar. Seu sangue deveria ferver daquele jeito? A pele parecia arder em chamas. Darcy roou os lbios com os dedos, 
sentindo-os ainda midos.
         - Sei que no vai me ferir.
         Mac chegara perto, muito perto de arrancar-lhe as roupas e possu-la sem o menor cuidado ou gentileza. Ela se encontrava ali, fitando-o nos olhos de maneira 
confiante e sensual.
         - Como no? - esbravejou. - Voc no me conhece. Tampouco sabe jogar. Siga meu conselho, Darcy, no aposte contra a casa. A casa sempre ganha no final. 
Sempre.
         Ela mal podia respirar.
         - Mas eu ganhei.
         - Continue aqui - ele a desafiou. - Vou pegar tudo de volta. E mais. Mais do que voc quer perder. Portanto seja esperta.
         Tomando-a de assalto, Mac agarrou-lhe a nuca. Queria v-la apavorada. Assim talvez conseguisse controlar o enorme desejo.
         Ela fitou-o sem pestanejar.
         - Fuja. Pegue o dinheiro e fuja para bem longe. Compre uma casa com um jardim e plante rvores. Porque este mundo no  seu.
         Atnita, Darcy quase vacilou. Mas, se cedesse  presso, estaria provando que ele tinha razo.
         -  Gosto daqui.
         Malicioso, e um tanto cruel, ele sorriu.
         -  Querida, nem sequer sabe onde est.
         - Estou com voc. - E era exatamente isso que ela queria, descobriu, emocionada.
         - Acha que pode jogar comigo? - Mac segurou-a pelos ombros. - Pequena Darcy de Kansas? Cresa antes de se atrever a jogar.
         - Voc no me assusta, Mac.
         - No? - Ficou furioso. - Voc nem tem coragem de arriscar aparecer em pblico, temendo que aquele idiota a encontre. Achou melhor fugir na calada da noite 
como um ladro a enfrentar o problema. Acredita mesmo que pode jogar com profissionais? - Rindo, ele a soltou. - De jeito nenhum.
         As agressivas palavras a envergonharam. Sentiu-se estremecer, mas controlou-se.
         - Tem razo.
         No topo da escada, Mac se virou. Darcy permanecia prxima  janela, de braos cruzados e olhos que contrastavam a paixo com uma aparncia defensiva.
         Desesperado, ele queria voltar e tom-la nos braos para nunca mais solt-la. No s porque Darcy precisava, deu-se conta de repente em pnico, mas por 
ele prprio.
         -  Est absolutamente certo - ela explodiu. - De que maneira podemos fazer isso?
         Apoiando-se no corrimo, Mac visualizou imagens de puro xtase sexual.
         -  Como disse?
         - Como fazemos para informar a imprensa? Voc apenas fornece meu nome ou precisamos marcar uma entrevista coletiva?
         A combinao de vergonha e raiva que ela sentia era letal. Esfregou o rosto, buscando controle.
         -  Darcy, no h motivos para se apressar.
         - Por que esperar mais? Disse que mais cedo ou mais tarde tudo viria  tona. Prefiro acelerar o processo. Se eu continuar a me esconder, nunca ir me respeitar.
         -  Nada disso se refere a mim. Pare de pensar nos outros e preocupe-se consigo prpria.
         - Pois  isso que estou fazendo. Estou pensando em mim. - Por mais estranho que parecesse, ela comeou a se sentir calma. - No se trata de manobras ou 
presses. Posso no ser uma jogadora profissional, Mac, mas j me sinto pronta para apostar. Antes que pudesse mudar de idia, Darcy precipitou-se at o telefone.
         - Voc liga ou quer que eu o faa? Esperando v-la desistir, ele a fitou por alguns segundos. Mas a postura decidida permanecia. Quieto, Mac pegou o telefone 
e apertou os botes.
         - Aqui  Blade. Quero que marque uma reunio com a imprensa. Usaremos a sala de conferncias. Em uma hora.
         
         - Eu a forcei. - Na sala contgua ao auditrio, Mac colocou as mos no bolso enquanto observava Caine instruir Darcy.
         -  Voc lhe deu tempo para respirar - Serena o corrigiu. - Se no tivesse interferido, ela seria engolida pela mdia, sem a oportunidade de se preparar. 
- Afetuosa, tocou o brao do filho. - E sem o apoio de um dos melhores advogados do pas.
         - Ela no est pronta, mame.
         - Acho que a subestima.
         -  Voc no a viu uma hora atrs.
         -  No. - Imaginando o que se passara entre Darcy e Mac, ela comeou a rezar, esperanosa. - Mas a estou vendo agora. Diria que est pronta.
         Serena apertou a mo do filho e observou a mulher que escutava as palavras de Caine. Darcy usava um casaco de linho branco sobre o vestido amarelo. Um toque 
de requinte, concluiu, satisfeita.
         Ela estava plida, mas conseguia se conter.
         -  Darcy vai se surpreender - murmurou. "E voc tambm", acrescentou em pensamento. - Caine estar ao lado dela e ns lhe daremos suporte.
         Justin entrou na sala.
         - Tudo certo. Os reprteres esto agitados. Quer que eu faa o pronunciamento? - perguntou a Mac.
         - No, pai. Eu mesmo o farei.
         Mac observou ento o modo como Serena tocava o ombro do marido e como os corpos se roavam. Formavam uma unidade. Eram movimentos to naturais e constantes 
que ele nunca os notara. At conhecer Darcy.
         - Ainda no os agradeci. - Mac segurou a mo de ambos. - No o suficiente.
         Intrigado, Justin observou-o aproximar-se de Darcy.
         -  Por que ele disse isso?
         - No sei - Serena sorriu. - Mas gostei. Vamos distrair MacGregor. Assim Darcy poder enfrentar a imprensa com tranqilidade.
         Darcy estava atemorizada. Tudo que Caine lhe dissera parecia danar em seu crebro. O orgulho a manteve no lugar enquanto se imaginava fugindo como um coelho 
assustado.
         O corao bateu descompassado quando Mac veio em sua direo.
         - Pronta?
         Era hora de parar de fugir.
         -  Sim.
         -  Vou dar uma breve explicao. Depois voc vem e responde algumas perguntas. E s isso.
         No faria a menor diferena caso ela tivesse de sapatear diante do pblico. Mas assentiu de qualquer forma.
         -  Seu tio me explicou como funciona.
         - A menina no  idiota - Daniel interveio. - Ela sabe falar por si. Certo, garota?
         Os brilhantes olhos azuis emanavam confiana. 
         - Vamos descobrir. - Endireitando os ombros,
         Darcy espiou o auditrio pela fresta da porta. 
         - Quantas pessoas! - Sentiu-se tonta diante de tantos rostos. - Bem, um ou cem  a mesma coisa.
         -  No responda nada, se no se sentir  vontade - Mac disse rapidamente e entrou na sala de conferncias.
         O barulho diminuiu quando ele subiu os degraus da extensa plataforma.
         Havia confiana e classe na maneira com que ele se movia e ajeitava o microfone. A voz soou clara, e o sorriso era adorvel. Quando todos comearam a rir, 
Darcy se espantou.
         No escutara o que fora dito, apenas o tom. Entendia que Mac tentava manter o clima amigvel e casual.
         Uma atitude muita espontnea da parte dele, Darcy concluiu. Encarar desconhecidos, manter os ps no cho, ser controlado. Os rostos que o fitavam no o 
deixavam nervoso; as questes tampouco o assustavam.
         - Tudo bem? - Caine tocou o ombro de Darcy.
         - Tudo bem - respondeu, suspirando.
         Toda a ateno se voltou para ela quando adentrou o auditrio. Cmaras disparavam enquanto fotgrafos tentavam pegar o melhor ngulo. Os holofotes da televiso 
ofuscavam-lhe a vista. Uma batelada de perguntas ecoou pelo ambiente to logo Darcy se posicionou diante do microfone. Recuou quando Mac ajustou-o para ela.
         -  Eu... - Sua voz ecoou nas caixas acsticas, fazendo-a rir. - Sou Darcy Wallace. Eu... - Limpou a garganta para conseguir tempo de pensar em algo coerente. 
- Ganhei o jackpot.
         Houve risadas e aplausos. Em seguida, as perguntas comearam em uma velocidade incrvel.
         - De onde veio?
         -  Como se sente?
         -  O que est fazendo em Las Vegas?
         -  O que aconteceu quando... Por qu? Onde? Como?
         -  Desculpe. - Sua voz falhou. Mas quando Mac fez meno de se aproximar, ela o impediu. Precisava continuar, havia prometido a si mesma. E iria at o fim 
sem bancar a tola. - Desculpe - repetiu. - Nunca falei com jornalistas antes. Logo no sei como agir. Talvez seja melhor eu lhes contar o que aconteceu.
         Contar uma histria facilitava e diminua a tenso. Enquanto falava, a voz de Darcy tornou-se fluda e os dedos que apertavam o microfone comearam a relaxar.
         -  Qual foi o primeiro pensamento que lhe veio  mente quando ganhou?
         - Antes ou depois de desmaiar? - Algumas pessoas riram. - O sr. Blade me ofereceu um quarto... quero dizer, uma sute. H lindos cmodos aqui, tal qual 
nos filmes e livros. Possuem piano, lareira e belas flores. S comecei a me sentir rica no dia seguinte. Ento a primeira atitude que tomei foi comprar um vestido.
         -  A garota tem um jeito muito especial de ser - comentou Daniel.
         - Conseguiu conquist-los. - Serena estava orgulhosa. - Ela no tem idia de quo charmosa .
         - Nosso garoto est cuidando dela. - Daniel sorriu ao ver expresso admirada da filha. - Veja como Mac a protege, est atento a qualquer um que ouse se 
aproximar de Darcy. Foi fisgado.
         Porm Serena no iria lhe dar a satisfao de concordar. No ainda.
         - Eles s se conhecem h poucos dias.
         Daniel chegou mais perto e sussurrou:
         __Quanto tempo levou para se apaixonar por ele? - E indicou Justin.
         -  Menos tempo do que precisei para descobrir que voc nos estava manipulando.
         - Esto casados h trinta anos. No, querida, no me agradea. - Daniel acariciou o rosto da filha. - Chega um dia em que um homem precisa constituir famlia. 
Tero lindos filhos, no acha, Serena?
         - Ao menos, tente ser sutil, papai.
         - Sutileza  meu nome - Daniel argumentou.
         
         -  Bom trabalho - Caine cumprimentou Darcy no instante em que a porta se fechou.
         -  Foi difcil, mas creio que consegui. - Darcy se sentia aliviada. - Agora tudo acabou.
         -  Est apenas comeando - Caine corrigiu-a e lamentou v-la assustada. - Mac os manter ocupados por enquanto - disse, vendo o sobrinho conversar com a 
imprensa.
         - Mas eu lhes disse tudo.
         - Sempre querem mais. Haver muitos telefonemas para entrevistas e fotos. Ofertas tentadoras com relao  histria de sua vida.
         - Minha histria - Darcy riu. - Eu mal tinha uma histria dias atrs.
         - O contraste ir somente acrescentar interesse. Os tablides vo explorar sua vida. Portanto esteja preparada para delrios do tipo: aliengenas a trouxeram 
a Las Vegas.
         Quando Darcy riu, Caine guiou-a em direo ao elevador de servio. Ele no pretendia assust-la ou estragar a sensao de sucesso, mas precisava preveni-la. 
- As pessoas vo lhe oferecer grandes investimentos e oportunidades inovadoras. Consultores financeiros, legtimos ou no, iro bater a sua porta. O cunhado da prima 
da criana que sentava atrs de voc na escola primria tentar persuadi-la a investir.
         - Deve ser Patty Anderson - brincou Darcy. - Nunca gostei dela.
         - Muito bem. Para facilitar, no atenda o telefone durante alguns dias. Melhor ainda. Podemos pedir a Mac que impea a telefonista de transferir as ligaes.
         -   o mesmo que fugir outra vez, no?
         - No. Est se protegendo, Darcy. Se quiser entrevistas, poder marc-las. Quando descobrir como investir o dinheiro, contrate um consultor. O que quer 
que queira fazer, faa-o com calma, ponderadamente.
         - Agora  comigo - Darcy deduziu quando chegaram  porta da sute.
         - Exato. Se tiver alguma pergunta, pode me telefonar. Estarei aqui at amanh. Depois, me encontrar em Boston.
         - No sei como lhe agradecer.
         -  Aproveite a vida. E no se esquea de quo divertido foi comprar um vestido novo.
         - Parece to simples - ela murmurou.
         -  Seja voc mesma, garota. - Caine beijou-lhe o rosto. - Nos veremos mais tarde.
         Sozinha, Darcy entrou na sute. Era uma mulher rica que tivera quinze minutos de fama. O sinal de mensagem no telefone piscava, e o aparelho comeou a tocar. 
Seguindo o conselho de Caine, ignorou-o at que parasse e ento retirou o fone do gancho.
         O primeiro problema estava resolvido.
         Mas algo mais complexo a perturbava.
         Estava apaixonada e sabia no existir meios de combater ou negar o sentimento. Jamais duvidara de seu corao. A bem da verdade, confiava nele.
         Com freqncia, sonhara com a emoo de estar apaixonada. Sempre imaginara quem seria aquele que a faria estremecer de paixo. Como ficariam juntos... Em 
seus devaneios, ele a amaria com a mesma intensidade.
         Mas no se tratava de sonho ou imaginao. Amar Mac era a mais pura realidade, com direito a necessidades fsicas. Parecia vital que ela fosse capaz de 
controlar a emoo.
         Darcy o queria; desejava toc-lo, sentir seus beijos frenticos. Queria conhecer a sensao de perder-se naquele amor.
         No obstante, necessitava provoc-lo para saber se era bem-vinda. At mesmo esperada. Queria trocar olhares cmplices, viver a verdadeira intimidade, dar 
e receber amor.
         No era uma questo simples.
         Entretanto, algo em Darcy o atraa e isso era um grande milagre. Se ele a quisesse, talvez houvesse uma chance. No devia ser mais difcil que ganhar quase 
dois milhes de dlares, sups.
         Animada, acomodou-se no sof e deitou a cabea sobre a almofada macia.
         Sonhou com as lindas mulheres do show, dzias de pernas esguias e seios avantajados sob roupas coloridas e brilhantes.
         Muito mais baixa, Darcy estava entre elas, clamando para ser notada. Um canrio em meio a pssaros exticos.
         As longas pernas e os corpos esbeltos danavam enquanto ela se misturava  complexa rotina. No conseguia competir. Quanto mais tentava, mais inferior se 
sentia.
         Mac observava com um sutil sorriso nos lbios. Lindas mulheres o seduziam com seus corpos curvilneos.
         Os olhos azuis se fixaram nela quando Darcy colocou-se  frente de Mac.
         - De onde voc veio? No pertence a este lugar.
         - Mas quero ficar.
         - No  lugar para voc, Darcy de Kansas. Nem sabe onde est.
         - Sei, sim. E posso pertencer a este lugar. Quero pertencer.
         E havia Gerald, agarrando-lhe a mo e puxando-a. Ele tinha aquela expresso impaciente no rosto e irritao nos olhos.  hora de parar com tolices. Se insistir 
em fingir o que no , vai fazer papel de tola. Estou cansado de esperar seu bom senso. Vamos voltar para Kansas.
         - No vou voltar - Darcy murmurou, acordando com o som da prpria voz. - No mesmo - disse, veemente, quando abriu os olhos e viu o quarto s escuras.
         Ainda permaneceu deitada por um momento, refletindo acerca do sonho e da tristeza que o acompanhava.
         - Vou ficar aqui. - Abraou a almofada.
         
         
         
         
         
        CAPTULO VII
         
         
         
         Darcy estava no Comanche havia uma semana e se surpreendia com a aparente infinidade de lugares ainda por explorar no hotel.
         Conseguiu assistir ao espetculo em um dos auditrios, onde homens, usando roupas indgenas, montavam cavalos exuberantes, divulgando os costumes da comunidade 
Comanche.
         Caminhou  beira da enorme piscina de guas cristalinas e molhou os dedos na pequena lagoa, rodeada de palmeiras e alimentada por uma cachoeira que emitia 
notas musicais.
         Aproveitou o tratamento oferecido no spa; ocupou-se em visitar as lojas; e ainda encontrou tempo para conhecer os trs teatros ou caminhar pelos vrios 
sales e salas de conferncia. Encontrou at uma desculpa para visitar o centro financeiro.
         Quanto mais vasculhava as reas entre o hotel e o cassino, mais extenso se tornava o Comanche.
         Quando o elevador abriu as portas da cobertura, Darcy entrou em um espantoso osis de palmeiras e flores do deserto. O sol da manh se estendia sobre a 
gua azul da piscina, formando raios de diamantes na superfcie.
         Mesas e cadeiras cor de safira estavam arranjadas para oferecer luz e sombra conforme a preferncia do hspede.
         Sentado a uma das mesas, protegido por um guarda-sol amarelo, estava Daniel MacGregor.
         Ele se levantou ao v-la. Darcy sentiu-se de novo mobilizada com o poder do homem que vivera quase um sculo, construra um imprio, criara um presidente 
e uma fascinante famlia.
         - Muito obrigada por concordar em me ver nessas circunstncias, sr. MacGregor.
         Daniel ofereceu-lhe uma cadeira.
         -  Se uma linda mulher me telefona solicitando um encontro a ss, eu seria um tolo caso no aceitasse. - Ele se sentou diante de Darcy. Em segundos, um 
garom apareceu. - Quer me acompanhar no caf da manh, garota?
         - No, obrigada. Estou nervosa demais para comer.
         - Voc precisa se alimentar. Traga ovos com bacon para a menina - ordenou Daniel ao garom. - Ovos mexidos. E no os deixe queimar na frigideira. O mesmo 
para mim.
         -  para j, sr. MacGregor.
         Darcy sorriu diante da pressa do garom. Aquela atitude era tpica das pessoas que rodeavam Daniel MacGregor. Todos corriam para obedecer a suas ordens.
         -  Depois de comer, vai se sentir melhor - explicou Daniel, tomando um gole de caf. - Muito lhe aconteceu em to pouco tempo. Meu neto est cuidando bem 
de voc?
         - Sim, ele tem sido maravilhoso. Todos vocs so muito gentis.
         - Mas o cho parece estar se abrindo sob seus ps.
         -  verdade. - Ela soltou um suspiro de alvio diante da compreenso. - O mundo tornou-se to estranho... e excitante, ao mesmo tempo - Darcy acrescentou, 
fitando o jardim. - Sinto-me como se tivesse cado dentro de um livro. E me vejo vagando nos primeiros captulos, sem saber como vai terminar a histria.
         - No h nada de errado no fato de aproveitar a pgina em que se encontra.
         - No, e tenho aproveitado muito. - Distrada, Darcy tocou o brinco de prata na orelha. - Mas fico pensando no que vai acontecer quando eu virar a pgina. 
No posso comprar roupas e brincos o resto da vida. Dinheiro  responsabilidade, no?
         Inclinando-se, Daniel a estudou. Ela era delicada, pensou, mas no havia nada de delicado com relao ao crebro. Tinha o pressentimento de que era sagaz 
como uma raposa. Melhor assim, ele decidiu. Seu neto precisava casar-se com uma mulher inteligente.
         - Isso mesmo, garota - respondeu e sorriu.
         O sorriso a confundiu. Era to... prudente. E havia segredos por trs daquele brilho nos olhos azuis. Constrangida, ela pegou a xcara de caf, esquecendo-se 
da costumeira dose de creme.
         - A telefonista me passou dzias de recados hoje de manh.
         -  Era de esperar.
         -  Sim, eu sei. Mac me disse que isso iria acontecer, mas nunca imaginei tamanha quantidade de interesses. Reprteres... - Darcy riu. - Representantes de 
revistas que sempre li, shows de televiso a que costumava assistir querem falar comigo. No fiz nada. No salvei a vida de algum, nem descobri a cura do cncer, 
ou dei  luz quntuplos.
         - H essa possibilidades em sua famlia? - indagou Daniel, curioso.
         - No.
         - Que pena. - Ele teria gostado de ter bisnetos gmeos. - Est vivendo uma fantasia normal, Darcy.  jovem, bonita e veio de uma cidade pequena com poucos 
dlares no bolso.  uma histria e tanto. Muitas pessoas podem se identificar com voc.
         - Suponho que sim. - Darcy se deteve quando o garom trouxe os pratos. Fitou, admirada, a fartura de comida.
         - Alimente-se, garota. Precisa de energia.
         - No sabia que serviam refeies aqui.
         - No servem. - Daniel sorriu. - Somente drinques e aperitivos. Mas adoro quebrar regras de vez em quando. Voc queria um lugar sossegado, certo? Poucas 
pessoas freqentam essa rea do hotel durante a manh. Os restaurantes devem estar lotados de hspedes.
         - H seis restaurantes - Darcy contou-lhe. - Li a respeito deles no guia do hotel. E quatro piscinas.
         - As pessoas precisam comer e ser vistas ao redor da piscina quando no esto jogando.
         - No consigo dimensionar o tamanho deste hotel. Teatros, bares, auditrio ao ar livre. E fantstico.
         - E todos os caminhos levam ao cassino. No  uma arquitetura casual. Pode fazer o que quiser em um hotel desta natureza, mas jogar  o objetivo.
         -   to emocionante. Daqui de cima, podemos avistar o deserto. Adoro admirar essa paisagem.
         - Por isso no h janelas no cassino. No queremos distrao. - Daniel fitou-a, desconfiado. - Depois de saborear o farto caf da manh, v tomar um banho 
de piscina. Eu costumo nadar todos os dias. O esporte me mantm jovem.
         Havia muito mais que juventude, pensou Darcy.
         Daniel tinha energia, interesse pela vida e o desafio diante das dificuldades lhe garantia disposio.
         - Sr. MacGregor, Caine me forneceu uma lista de nomes de consultores financeiros.
         Como no houvesse ningum mais ao redor, Daniel colocou sal nas batatas.
         -  Precisa proteger seu capital, Darcy.
         -  Compreendo bem isso, j que a maior parte das ligaes que recebi  de pessoas que querem conversar sobre finanas. Ofereceram-me at um vo a Los Angeles, 
com hospedagem no Beverly Wilshire.
         Franzindo a testa, Darcy pegou uma torrada. Daniel a acompanhou e comeu com satisfao.
         - A maioria deles parece muito interessada em discutir investimentos, mas nenhum est na lista que seu filho me deu.
         -  Isso no me surpreende.
         - Escrevi todos os nomes. Agora tenho duas listas. Pensei em mostr-las ao senhor. Sei que Caine me ofereceu os melhores profissionais, mas prefiro que 
algum me aponte uma direo especfica.
         -  Deixe-me olhar as listas. - Daniel pegou os culos enquanto Darcy lhe entregava os papis. - Ah! Esquea! So todos ladres. - Bastou apenas um rpido 
olhar para identificar os nomes. - Fique longe desses interesseiros, garota.
         -  Foi o que imaginei. Veja os nomes que seu filho me ofereceu.
         Daniel tamborilava os dedos na mesa enquanto lia a segunda lista.
         - O rapaz aprendeu bastante, no? - Sorriu satisfeito com os nomes que Caine fornecera. - Qualquer um deles servir a seus propsitos. O melhor  conversar 
com os donos de cada uma das firmas. Depois,  s escolher o que mais lhe inspira confiana.
         Darcy j havia feito sua escolha, mas tinha receio de confess-la.
         - Nunca tive dinheiro. Jamais tive de me preocupar com finanas. Mesmo assim, extratos bancrios sempre me confundiram. Ontem  noite, tentei imaginar como 
seria um milho de dlares. No consegui. E agora, mesmo depois dos impostos, ainda tenho mais do que posso dimensionar.
         Atento s palavras, Daniel serviu-se de caf. Anna o mataria, pensou, se o visse consumindo tanta cafena.
         - Diga-me o que quer fazer com o dinheiro.
         - Tempo - disse, de imediato. - Preciso de tempo livre para realizar meu maior desejo. Sempre quis escrever e nunca tive tempo disponvel. Preciso terminar 
meu novo livro e comear outro. Quero ser escritora e s conseguirei escrevendo.
         -  boa nisso?
         -  Sou, sim. E a nica atividade que sei fazer bem. S preciso de algumas semanas para terminar o romance que estou compondo.
         - O dinheiro lhe comprar mais do que algumas semanas.
         -  Sei disso. E tambm pretendo me divertir. - Darcy se aproximou. - Descobri que divertimento nunca fez parte de minha vida. Vou mudar tal condio. - 
Ela riu e se afastou. - Vou explorar a felicidade, sr. MacGregor.
         -  Muito justo.
         -  Acho que . Felicidade no  algo que se encontra a cada esquina. Mas preciso experimentar.
         - Tem sido to infeliz assim? - Daniel tocou-lhe a mo.
         - De certa forma, sim. Mas agora tenho a oportunidade de agir conforme meus desejos. Faz toda a diferena do mundo. Portanto, quero fazer boas escolhas.
         - Acho que j as fez. - Ele apertou-lhe a mo. - Comeou muito bem, garota.
         -  Quero usar o dinheiro e devolv-lo tambm.
         - A meu neto?
         Darcy riu outra vez e se apoiou na mesa.
         - Ao cassino.  parte da diverso, no? Mas pretendo usufruir do dinheiro para ter tempo e fornecer felicidade. Quero fazer doaes.  razovel?
         -  Claro que . - Daniel acariciou o rosto de Darcy. - E combina com voc.
         -  Contudo, no sei como faz-lo. Pensei que o senhor talvez pudesse me ajudar.
         - Ficarei feliz em ajud-la. - Quando o garom apareceu para retirar os pratos, Daniel o impediu. - Deixe o dela. Ainda no se alimentou o suficiente. - 
Ao ver a expresso consternada de Darcy, ele prosseguiu: - Ter tempo, oportunidade e far doaes. A menos que queira jogar dinheiro fora, e no me parece o caso. 
Voc tem planos especficos. O que quer?
         - Mais. - Darcy assustou-se quando Daniel soltou uma gargalhada.
         - Agora vejo uma garota com a cabea no lugar. Eu sabia.
         -  Parece demais, mas...
         - Parece saudvel - ele a corrigiu. - Por que querer menos? Mais  melhor, afinal. Quer que seu dinheiro trabalhe para voc. Eu a chamaria de tola caso 
desejasse o oposto.
         - Sr. MacGregor? - Darcy respirou fundo e rolou os dados. - Quero que pegue meu dinheiro e o faa trabalhar para mim.
         -  Quer mesmo? Por qu?
         - Porque serei uma tola se no escolher o melhor. Os olhos de Daniel a fitavam com tanta intensidade que Darcy imaginou ter ido longe demais. Envergonhada, 
comeou a gaguejar pedidos de desculpa. Ento, os lbios dele se abriram em um sorriso enorme.
         - No somos tolos, certo, garota?
         -  Certo, senhor.
         -  Muito bem. - Enquanto esfregava o enfeite de ouro da bengala, Daniel sentiu-se desafiado. Pegou um charuto do bolso e o acendeu. Aps algumas baforadas, 
seus olhos brilhavam de prazer.
         -  Sei que  pedir muito, sr. MacGregor, mas...
         - Daniel - ele a interrompeu. - Somos scios, certo? Coma - ordenou ao ver a surpresa de Darcy. - Tenho algumas idias de como conseguir "mais".  uma jogadora, 
menina?
         Com o corao repleto de alegria, Darcy comeu um pedao de bacon.
         - Parece que sou.
         
         Mac mantinha a mente ocupada. A mdia tentava ter acesso a Darcy. Reprteres clamavam por entrevistas e encontros pessoais. As vrias edies dos jornais 
estampavam notcias sobre o mesmo tema.
         Darcy de Kansas ganha o grande prmio no cassino.
         De Kansas para uma aposta de trs dlares.
         Alm do arco-ris com a bibliotecria milionria do Kansas.
         Em situaes normais, Mac teria aproveitado a publicidade positiva que a histria gerava para o Comanche. O hotel estava lotado de turistas e ainda recebia 
pedidos de reservas. No tinha dvidas de que o cassino receberia trs vezes mais jogadores enquanto o nome de Darcy estivesse nas manchetes.
         Podia lidar com a demanda incessante de entrevistas e fotos. Talvez at acrescentasse novos membros na equipe de segurana e dirigiria pessoalmente o esquema 
no cassino nos perodos de pico. Na verdade, seus pais j haviam concordado em prolongar a estada. E ele preferia, naquele momento, ocupar-se apenas de trabalho.
         Deus sabia quanto precisava distrair sua libido. Era impressionante o que um lindo par de olhos e um belo sorriso podiam fazer com ele.
         No pretendia ter um relacionamento srio, tampouco intencionava envolver-se com uma inocente e ingnua mulher que no sabia jogar pquer.
         Considerava-se um homem disciplinado, capaz de controlar os instintos e resistir a tentaes. No brincava com o amor tal qual seu irmo, Duncan. Muito 
menos se considerava um bom samaritano. No possua a menor inteno de se estabelecer e constituir uma famlia naquele estgio da vida, como sua irm, Gwen, estava 
fazendo.
         Para Mac, amor era algo eventual, quando houvesse tempo, circunstncias favorveis e uma boa chance de multiplicar as fichas.
         No fundo, queria o que seus pais possuam. Talvez no o soubesse at que Darcy apontou-lhe aquela abundncia de afeto. Mas precisava admitir que sempre 
os usara como referencial quando se tratava de relaes amorosas.
         Era essa a razo que o levara a evitar longos relacionamentos.
         Amava as mulheres. Mas envolver-se alm de um certo nvel poderia causar complicaes; e complicaes sempre geravam dor para uma das partes ou ambas. Havia 
sido cauteloso em no ferir nenhuma das mulheres com que saiu.
         No tinha a menor disposio de quebrar essa regra agora.
         Pensando no bem-estar de Darcy, Mac decidiu no apostar nesse jogo perigoso. Ela era inexperiente e vulnervel demais. No suportaria ir at o fim.
         Amizade, convenceu-se. Uma atitude solidria at que Darcy conseguisse caminhar sozinha. E nada mais.
         Mas, ao chegar  cobertura, Mac a viu.
         Ela estava em uma das mesas, os grandes olhos dourados fixos no rosto de seu av. Ambos se encontravam muito prximos, como conspiradores. Mac ficou intrigado. 
O que havia entre os dois?
         Darcy parecia to... frgil, concluiu absorvido pela viso. Ela mantinha a postura de uma menina que prestava muita ateno  aula. De pernas cruzadas, 
balanava o p esquerdo, exibindo as unhas pintadas com um leve tom de rosa.
         A vontade de beijar aqueles ps delicados aqueceu-lhe o corpo, causando sensaes abrasadoras.
         O desejo sexual, algo que sempre aceitara com naturalidade e o divertira, comeava a deix-lo fora de controle.
         Sentiu-se subitamente irritado. Caminhou a passos largos entre as palmeiras em direo  mesa. Daniel recostou-a na cadeira e ergueu as sobrancelhas.
         -  Ora, veja quem chegou. Quer caf, garoto?
         -  Aceito uma xcara. - Como conhecesse bem seu av, Mac no confiava naquela conversa aparentemente casual. Puxou uma cadeira e se sentou, encarando o 
rosto inocente de Daniel. - O que esta havendo aqui?
         -  Estou tomando meu desjejum com essa linda jovem. Algo que voc deveria fazer, em vez de ficar trabalhando.
         -  Tenho um cassino para administrar. - Mac virou-se e fitou Darcy. - Conseguiu dormir?
         -  Sim, obrigada. - Ela pulou quando Daniel bateu o punho na mesa.
         -  Que maneira  essa de cumprimentar uma dama logo de manh, menino? Por que no lhe diz quo bonita est ou a convida para passear de carro hoje  noite?
         -  Vou trabalhar hoje  noite - Mac rebateu, mais irritado.
         - No dia em que um MacGregor no puder encontrar tempo para uma bela mulher, haver apenas o caos. Gostaria de passear de carro, garota? Entre as colinas 
e sob a luz do luar?
         -  Gostaria, mas...
         - Ouviu? - Daniel socou a mesa novamente. - Vai tomar uma atitude, Mac? Ou me deixar passar por esse vexame?
         Considerando as perguntas, Mac pegou o charuto ainda aceso no cinzeiro. Estudou-o por algum tempo.
         - O que significa isso? - Ele sorriu para o av. - No  seu, certo, vov?
         Daniel desviou o rosto.
         - No sei do que est falando.
         - Vov ficaria muito triste se soubesse que anda fumando charutos escondido outra vez. - Mac bateu as cinzas no cinzeiro. - Muito aborrecida, alis.
         -   meu - Darcy precipitou-se, e os dois a encararam.
         -  Seu? - Mac perguntou, irnico.
         -  Sim. - Ela ergueu os ombros, arrogante. - E da?
         - Aproveite ento. - Mac entregou-lhe o charuto aceso.
         O desafio estampado nos olhos azuis no admitia recusa. Darcy pegou o charuto e tragou. Em segundos, sua cabea comeou a girar, a garganta travou, mas 
conseguiu suportar o mal-estar sem tossir.
         -  forte - comentou, quase desfalecendo.
         Os olhos de Darcy comearam a lacrimejar quando ela tragou outra vez o charuto. Mac resistiu  urgncia de tom-la nos braos.
         - Posso ver. Quer uma dose de conhaque para acompanhar o charuto?
         - No antes do almoo. - Tonta, Darcy comeou a sentir nuseas. - Seu av... - Piscou vrias vezes, e lgrimas escorreram pelas faces. - Seu av e eu estvamos 
discutindo negcios.
         - No permita que eu os atrapalhe. J terminou? - Mac pegou uma fatia de bacon do prato de Darcy e comeu-a. O rosto comeava a adquirir uma tonalidade esverdeada. 
- Ponha isso no cinzeiro, querida, antes que desmaie.
         - Estou tima.
         - Voc  uma raridade, Darcy. - Admirando-a, Daniel se levantou. Segurou-a pelo queixo e beijou-lhe o rosto. - Vou iniciar aquela transao sobre a qual 
conversamos. - Em seguida, lanou um olhar repreensivo para o neto. - No me envergonhe, Robbie.
         -  Quem  Robbie? - Darcy perguntou quando Daniel se retirou.
         - Sou eu. Ele me chama assim desde a infncia.
         -  Que adorvel.
         - Vai acabar doente, Darcy. - Mac tirou o charuto da mo dela. - No creio que precise continuar a farsa.
         - No sei do que est falando. Suspirando, ele pegou um copo de gua e ofereceu-o a Darcy.
         - Acreditou mesmo que eu iria delatar meu av? Vamos, tome um pouco de gua. A fumaa vai lhe fazer mal.
         - No foi to ruim. Acho que gostei da experincia. - Ela sorriu. - No seria capaz de contar nada a sua av, certo?
         - No faria a menor diferena. Minha av sabe que ele, s vezes, fuma escondido.
         -  Gostaria que Daniel fosse meu av. Ele  o homem mais maravilhoso do mundo.
         -  Ele tambm gosta de voc. Sente-se melhor?
         - Sim. - Darcy fitou o que havia restado do charuto no cinzeiro. - Creio que exagerei. - Tomou mais gua para limpar a garganta. - Ele no devia ter lhe 
provocado daquele jeito. Quero dizer, com relao  proposta de me levar para passear de carro.
         Com um gesto violento demais, Mac apagou o charuto.
         -  Meu av acha que voc combina comigo.
         - Verdade? - A idia aqueceu o corao de Darcy.
         -  O objetivo principal de meu av  ver todos os netos casados e com filhos. Ele conseguiu casar minha irm e duas primas minhas, forando-as a conhecer 
homens que ele prprio havia selecionado.
         -  O que aconteceu?
         - Nos trs casos funcionou. O que o torna ainda mais ousado. Ele  ardiloso. E agora... - Mac a fitou. - Acredita que voc  perfeita para mim.
         -  Entendo. - O arrepio que sentiu pelo corpo era um tanto inadequado, ponderou Darcy. Mas no pde evitar a vontade de sorrir. - Estou lisonjeada.
         - Devia estar mesmo. Sou, afinal, o neto mais velho e me aborreo quando insistem para que me case.
         -  Isso o irrita?
         - De certa forma - ele admitiu. - Mesmo amando meu av, no tenho a menor inteno de cair em seus esquemas. Peo-lhe desculpas por ele a ter trazido aqui 
para colocar idias absurdas em sua cabea. No estou interessado em casamento.
         -  Como disse? - Darcy arregalou os olhos.
         - Quando vi vocs dois juntos aqui, imaginei que ele estivesse arquitetando algum esquema.
         O calor que ela havia sentido minutos atrs se transformou em gelo.
         - E  claro que algum como eu se submeteria perfeitamente a esses esquemas.
         O tom de voz foi to neutro que Mac no notou a ironia.
         -  Daniel no consegue evitar. E por ser uma Wallace, ele ficou empolgado. O forte sangue escocs. - Mac riu. - Meu av a considera ideal para conceber 
meus filhos.
         -  E j que voc no est pensando em esposa e filhos, achou justo me prevenir a respeito das idias que ele pode ter colocado em minha mente vulnervel.
         - Mais ou menos. - Mac, enfim, percebeu a ironia. - Darcy...
         -  Seu cretino arrogante! - Ela se levantou to rpido que, ao faz-lo, esbarrou na mesa, derrubando o copo de gua. Fechou os punhos, na tentativa de controlar 
a fria. - No sou a idiota sem tutano que pensa que sou.
         -  No foi o que quis dizer. - Aturdido, Mac tambm se levantou. - De jeito nenhum.
         - No ouse me dar explicaes. Sei perfeitamente bem quando sou chamada de imbecil. No  o primeiro a cometer esse erro. Mas juro por Deus que ser o ltimo. 
Estou consciente de que no me quer, sr. Blade.
         - Eu nunca disse...
         - Sei que no sou seu tipo de mulher. - Irada, Darcy empurrou a cadeira e quebrou um copo. - Voc prefere mulheres com seios exuberantes.
         - O qu? De onde tirou isso?
         Do sonho que tivera na noite anterior, mas jamais iria revelar a Mac.
         - No tenho iluses com relao a nada. S porque eu aceitaria dormir com voc no significa que espero ser levada ao altar. Se quisesse me casar, teria 
ficado em Kansas.
         Apesar de furiosa, ela ainda parecia uma fada, Mac refletiu, constrangido por ser to idiota.
         - Antes que quebre mais copos, deixe-me pedir desculpas. - Ele segurou a cadeira, impedindo que Darcy a jogasse sobre a mesa. - No quero que meu av a 
coloque em uma situao desconfortvel.
         - No tire concluses precipitadas, Mac Blade. - A raiva corou-lhe as faces. - Para seu governo, eu pedi a Daniel que me encontrasse aqui hoje de manh. 
Apesar de ofender seu ego inflado, o assunto no girou em torno de voc. Foi uma reunio de negcios.
         - Negcios? - Mac fitou curioso. - Que tipo de negcios?
         - No  da sua conta - ela rebateu, friamente. - Mas, pelo bem de Daniel, vou contar. Ele aceitou ser meu consultor financeiro.
         Intrigado, Mac levou as mos ao bolso.
         - Pediu-lhe que investisse seu dinheiro?
         - H algum problema nisso?
         - No. - Esperando abrandar a raiva de Darcy, ele tentou sorrir. - Fez uma tima escolha.
         - Exato.
         - Darcy...
         - No quero desculpas. - A voz era dura como gelo. - Tampouco preciso de sua piedade. Acredito que ambos compreendemos nossa relao. - Ela pegou a bolsa. 
- Pode incluir o custo dos copos em minha conta.
         Mac no conseguiu impedi-la de se retirar. Estava boquiaberto, fitando os cacos de vidro no cho.
         Limpar aquela baguna seria o problema menor, pensou, infeliz.
         O segundo problema era muito mais complexo.
         Como conseguiria lidar com o fato de aquela mulher, que o colocara em seu devido lugar, ser o maior fascnio de sua vida?
         
         
         
         
         
        CAPTULO VIII
         
         
         
         Durante dois dias consecutivos, Darcy se concentrou em escrever. Pela primeira vez em sua vida agia da maneira que queria.
         Se preferia trabalhar no decorrer da madrugada e dormir at o meio-dia, no havia ningum para critic-la. Jantar  meia-noite? Por que no?
         A vida lhe pertencia e, em meio s primeiras horas de trabalho, tomou conscincia de que a estava vivendo.
         Sentiria saudade de Daniel, pensou. Ele voltaria para o leste no dia seguinte com a promessa de manter contato acerca dos investimentos. Insistira em convid-la 
para conhecer sua casa em Hyannis Port.
         Darcy pretendia aceitar o convite. Havia sido muito bem acolhida entre os MacGregor. Eram generosos e cordiais, apesar de um dos membros do cl ser arrogante, 
grosseiro e egocntrico.
         Mac havia pensado que mandar flores poderia apagar o mal-entendido. Darcy respirou fundo, absorvendo o perfume das rosas brancas que haviam sido postas 
sobre a mesa da saleta.
         Eram as mais lindas flores que ela j vira. Mas no seriam suficientes para abrandar seu corao. Tampouco a adorvel cesta de margaridas que ela colocara 
na sala de banho ou o vaso de gernios sobre a escrivaninha do quarto.
         As rosas haviam chegado primeiro, ela se lembrou, tamborilando os dedos na mesa. Menos de uma hora depois daquela discusso com Mac, o entregador batia 
 porta da sute. O carto junto s flores continha um pedido de desculpas que ela fez questo de ignorar.
         Ningum poderia conden-la por ter jogado o tal carto no lixo.
         As margaridas chegaram no dia seguinte, com a solicitao de que Darcy telefonasse para ele assim que possvel. Ela se livrou desse carto tambm e desprezou 
o pedido. Tal qual fizera quando o ouviu bater  porta na noite anterior.
         Naquela manh, Mac enviara hibiscos com uma splica.
         Droga, Darcy. Abra a porta.
         Rindo, ligou o computador. No pretendia deix-lo entrar. No iria abrir a porta do quarto, nem a porta simblica de seu corao.
         No era somente o fato de ter se apaixonado por ele que a mortificava. Mas tambm aquele tpico pensamento machista.
         Pobre e solitria mulher encontra homem charmoso e sofisticado e ca aos ps dele.
         Pois Darcy mudaria o rumo dessa histria. Mac podia lhe mandar um acre de flores e uma pilha de cartes, mas no conseguiria se redimir.
         Estava encarregada de si mesma agora. To logo terminasse o ltimo captulo do livro iria comprar uma casa. Uma residncia grande e colorida de frente para 
o misterioso deserto com sua majestosa cadeia de montanhas.
         Queria uma piscina ao ar livre, decidiu. Sempre gostara da luz das estrelas.
         A deciso de morar em Las Vegas no tinha nada a ver com Mac. Gostava da regio. Adorava o vento quente do deserto, a vida agitada e a promessa de ultrapassar 
os limites. Las Vegas era a cidade mais promissora dos Estados Unidos e mais habitvel.
         Ao menos era isso que dizia o guia do hotel em seu quarto.
         Por que no viver naquela balbrdia?
         Quando o telefone tocou, ela nem sequer fitou o aparelho. Se Mac pretendia falar com ela, podia mudar de idia. Darcy ignorou o chamado, ajeitou-se na cadeira 
e voltou ao livro.
         
         Mac caminhava pelo escritrio enquanto sua me estudava o caderno de eventos para os prximos seis meses,
         - Voc est com uma programao espetacular.
         - Sei. - Ele no conseguia se concentrar, e isso o enfurecia.
         Apenas quisera preveni-la da tendncia inata de seu av em armar esquemas e armadilhas. Somente para o bem de Darcy, refletia Mac, andando de janela a janela 
sem ater-se a nada.
         Havia se desculpado repetidas vezes. Ela nem sequer tivera a cortesia de agradecer as flores.
         Por pouco no usara seu carto magntico para acionar o elevador privativo de Darcy. Mas tal atitude teria sido uma imperdovel invaso de privacidade e 
anularia suas responsabilidades no Comanche.
         Mas o que ela fazia na sute, afinal? No sara para almoar ou jantar desde o caf da manh na cobertura. Muito menos colocara os ps no cassino ou no 
bar do hotel.
         De tanto ser ignorado Mac estava de mau humor.
         - E o que mereo por me preocupar com dela - murmurou.
         - Como? - Serena olhou para o filho. J havia notado que ele estava alheio a tudo na ltima meia hora. - Mac, o que houve?
         - Nada. Quer ver a programao de entretenimento?
         - J a estou olhando.
         - Oh. Certo. - Ele voltou a percorrer as janelas. Suspirando, Serena deixou os papis de lado.
         - Precisa me dizer o que o est incomodando. Seno, vou atorment-lo at falar.
         - Quem pensaria que ela podia ser to teimosa? - As palavras surgiram de repente. - Como consegue ser to fria? Pergunto-me at onde ir sustentar essa 
situao.
         Serena encostou-se na poltrona e cruzou as pernas. Mulheres raramente perturbavam Mac. Era um bom sinal.
         -  Suponho que esteja se referindo a Darcy.
         -  Claro que estou falando de Darcy. - Havia frustrao nos olhos dele. - No sei o que ela faz trancada naquela sute dia e noite.
         - Ela est escrevendo.
         -  O que quer dizer com "escrevendo"?
         - Seu livro - Serena respondeu, paciente. - Est tentando terminar seu livro. Ela quer finaliz-lo antes de contatar agentes.
         -  Como sabe?
         - Darcy me disse. Tomamos ch ontem.
         Foi preciso um controle monumental para Mac manter a boa educao.
         - Ela a deixou entrar?
         - Claro que sim. Conversamos durante uma pausa no meio da tarde. Ela  uma mulher muito disciplinada e decidida. E tem talento.
         - Talento?
         - Eu a persuadi a me deixar ler algumas pginas do livro que ela escreveu no ano passado. - Serena sorriu, orgulhosa. - Fiquei impressionada. E absorvida 
na leitura. Est surpreso?
         -  No. Ento ela est trabalhando?
         -  Isso mesmo.
         -  No  desculpa para ser rude.
         -  Rude? Darcy?
         - Estou cansado desse silncio - Mac resmungou.
         -  Darcy no conversa com voc? O que fez? Mac cerrou os dentes e encarou Serena.
         -  Por que acha que fiz alguma coisa?
         -  Querido. - Ela se levantou e segurou-lhe o rosto. - Por mais que eu o ame, voc  homem. O que fez para aborrec-la?
         - Tentei explicar a ela o comportamento do velho MacGregor. Peguei-os conversando em sigilo na cobertura, e vov comeou a sugerir que eu a levasse para 
passear de carro sob o luar. Bem, voc conhece essa histria.
         - E como conheo! - Daniel, o sutil MacGregor, Serena lembrou-se, resignada. - O que tentou explicar a ela exatamente?
         - Disse que Daniel queria ver todos os netos casados e com descendentes e que ele havia escolhido Darcy para mim. Desculpei-me pelo comportamento inadequado 
de meu av e expliquei que eu no queria me casar, portanto ela no deveria lev-lo a srio.
         Serena deu um passo para trs a fim de melhor visualizar o filho.
         - Voc costumava ser uma criana inteligente.
         - S estava pensando nela, me. Imaginei que fosse mais uma das artimanhas de Daniel. Como eu poderia saber que ela pretendia contrat-lo como consultor 
financeiro? Admito que passei dos limites. - Mac colocou as mos no bolso. - Pedi desculpas vrias vezes. Mandei flores, telefonei... O que eu deveria fazer? Rastejar?
         - Talvez servisse para acalm-lo. - Serena riu da expresso irada de Mac. - Por que est to preocupado, filho? O que sente por ela?
         - Preocupo-me com ela. Darcy apareceu aqui para se esconder. Precisa de algum que a oriente.
         - Ento seus sentimentos por ela so... fraternos. Por um momento longo demais, ele hesitou.
         - Deveriam ser.
         - So?
         - No sei.
         Adorando aquela indeciso, Serena acariciou os cabelos do filho.
         - Talvez deva descobrir.
         - Como? Ela no quer falar comigo.
         - Um homem que tem o sangue dos MacGregor e dos Blade nas veias no permitiria que uma porta o impedisse. - Ela o beijou no rosto. - Aposto minhas fichas 
em voc.
         
         Os olhos de Darcy estavam fechados enquanto tentava visualizar a cena antes de escolher as palavras. Enfim, depois de superar vrios obstculos, os dois 
personagens principais iriam ficar juntos. Haviam resistido aos impulsos primitivos e negado as necessidades mais bsicas do corao. Mas agora iriam finalmente 
se encontrar. O instante tinha de ser precioso.
         O cmodo estava frio, e o aroma de lenha queimada se espalhava pelo ambiente. Os raios da lua de inverno penetravam pelas janelas.
         Ele iria toc-la. Como o faria? Um roar de mos no rosto macio? A respirao tornava-se ofegante. Sentiria ela o calor daquele corpo se ele se aproximasse? 
Que pensamento lhe ocorreria segundos antes de os lbios afoitos cobrirem os dela?
         Insanidade, Darcy resolveu.
         Mantendo os olhos fechados, Darcy deixou as palavras flurem de sua mente para a tela do computador. A repentina campainha do telefone soou to estridente 
que ela agarrou o aparelho, sem pensar.
         - Sim, al?
         - Darcy. - A voz era grave, irritante e muito familiar.
         - Gerald. - A paixo e a promessa da cena se dissiparam, dando lugar  tenso. - Ah, como vai?
         - Como acha que estou? Voc s me causou problemas.
         - Sinto muito. - O pedido de desculpas foi automtico, fazendo-a congelar no instante em que proferiu as palavras.
         - No posso imaginar o que est pensando. Vamos discutir o assunto. D-me o nmero de seu quarto.
         - O nmero do quarto? - Ela comeou a sentir pnico. - Onde voc est?
         - No hall deste ridculo lugar que escolheu como casa. E mais do que inadequado... mas corresponde a seu bizarro comportamento dos ltimos dias. No entanto, 
pretendo resolver essa questo. O nmero do quarto, Darcy.
         Seu quarto? Seu refgio? No, no o deixaria invadir sua vida.
         -  Vou descer - disse, rpido. - H algumas poltronas ao lado da cachoeira,  esquerda da recepo. Consegue ver o local?
         -  No  difcil not-lo. No se demore.
         - No, j estou indo.
         Darcy desligou o computador. O desespero comeou a crescer em seu corao. Ele no poderia obrig-la a nada, disse para si mesma. Gerald no tinha poder 
ou controle em Las Vegas. No haveria meios de dissuadi-la a voltar.
         Mas, quando pegou a bolsa, suas mos tremiam. As pernas mal lhe obedeciam ao entrar no elevador. Concentrou-se em respirar profundamente at chegar ao andar 
trreo.
         O hall estava repleto de pessoas; famlias de turistas que atiravam moedas na base da cachoeira ou assistiam a espetculos no anfiteatro ao ar livre. Hspedes 
chegavam e partiam. Outros se sentiam atrados pelo som mgico das mquinas do cassino. Gerald estava sentado em uma das poltronas perto da piscina. O terno preto 
e bem talhado no possua nenhuma marca ou vinco; o rosto permanecia srio enquanto observava a atividade do hotel.
         Ele parecia imponente na opinio de Darcy. Destacava-se do caos ao redor. Frio, concluiu. Era aquela natureza glida que sempre a assustara.
         Ao v-la se aproximar, os olhos a fitaram da cabea aos ps, desaprovando a saia verde e a blusa cor de pssego. Em seguida, ele se levantou. Boas maneiras, 
Darcy pensou. Gerald sempre fora educado.
         -  Presumo que tenha explicaes para me dar. -  Ele lhe indicou uma poltrona.
         O gesto era um modo de manter controle. E ela sempre obedecia.
         Dessa vez ficou em p.
         -  Decidi mudar.
         - No seja absurda. - Gerald segurou-a pelo brao e a puxou para a poltrona. - Tem idia de quanto constrangimento me causou? Esgueirando-se pela noite...
         - No me esgueirei. - Claro que o fizera, mas no iria concordar com ele.
         -  Voc saiu sem uma palavra. Foi irresponsvel como eu j devia esperar. Fazer uma viagem dessa sem planejamento algum. O que pretendia conseguir?
         Fugir, respondeu em pensamento. Aventura. Vida. Darcy cruzou as mos e pousou-as sobre o colo.
         - No se trata de uma viagem. Eu resolvi partir. No h nada para mim em Trader's Corners.
         -   seu lar.
         - Agora no  mais.
         - No seja mais tola do que o necessrio. Sabe em que tipo de situao me colocou com essa atitude infantil? Minha noiva desapareceu e...
         -  No sou sua noiva, Gerald. Rompi o compromisso meses atrs.
         - Tive muita pacincia, permitindo que voc voltasse a si e se acalmasse. E veja o que fez. Las Vegas, meu Deus!
         Inclinando-se, Gerald baixou o tom de voz.
         - As pessoas esto falando de voc agora. Tudo isso me afeta negativamente. Seu rosto apareceu nos noticirios da televiso.
         - Ganhei quase dois milhes de dlares, Gerald. Foi isso que aconteceu.
         - Jogando em um cassino! - Ele fez uma careta de repulsa. - Claro que consegui manipular a imprensa. A novidade vai logo se dissipar. E apenas uma questo 
de tempo para o lado srdido desaparecer.
         -  Srdido? Pus meu dinheiro em uma mquina. Ganhei o prmio acumulado. O que h de srdido nisso?
         -  No espero que compreenda a profundidade da situao, Darcy. Sua inocncia lhe d crdito. Vamos transferir o dinheiro e...
         - No. - O corao comeou a bater acelerado.
         - Pode morar em Nevada. Meu contador investir o dinheiro de maneira rentvel. Farei questo de que tenha um bom salrio.
         Salrio? Darcy estava estonteada com tantos absurdos. Somente se fosse uma criana precisaria de algum para controlar seus gastos.
         - A quantia est sendo devidamente investida. O sr. MacGregor, Daniel MacGregor,  responsvel.
         Chocado, Gerald agarrou-lhe as mos.
         - Meu Deus, Darcy, no me diga que entregou mais de um milho de dlares a um estranho?
         -  No  um estranho. Alis, com os impostos e despesas para viver, a quantia j diminuiu um pouco.
         - Como pde ser to estpida? - O tom de voz aumentou, fazendo-a recuar. Havia fria nos olhos de Gerald. - Avalie a situao. MacGregor tem interesses 
financeiros neste hotel. E agora conseguiu o dinheiro que voc, indiretamente, tirou dele.
         - No sou estpida - Darcy rebateu. - E Daniel MacGregor no  ladro,
         -  Meu advogado cuidar dos documentos necessrios para transferir os fundos... ou o que restou dele. Temos de trabalhar depressa. - Ele olhou o relgio. 
- Preciso ligar para ele. Ser inconveniente neste horrio, mas no pode ser evitado. Suba e faa as malas enquanto cuido dessa confuso em que se meteu. Quanto 
antes chegarmos em casa, melhor ser.
         -  Voc veio pelo dinheiro ou por mim, Gerald?
         Darcy jamais conseguiria sustentar agresses fsicas. Portanto concentrou os esforos e a raiva na estratgia verbal. 
         - Ocorreu-me de repente que voc teria mandado um funcionrio me buscar. Jamais largaria seus compromissos para vir pessoalmente. Estava certo de que eu, 
humilhada e infeliz, voltaria para Trader's Corner, seguindo suas ordens.
         - No temos tempo para infantilidades, Darcy. V fazer as malas e vista uma roupa mais apropriada.
         -  No vou a lugar algum.
         Irado, Gerald pegou-lhe a mo e forou-a a se levantar.
         - Faa o que eu lhe disse. Agora. No vou tolerar uma cena em pblico.
         - Ento v embora. Porque s vai conseguir um escndalo.
         De sbito, ela sentiu um toque no ombro. Sabia, antes de ouvi-lo, que era Mac.
         -  H algum problema aqui?
         -  No. - Darcy no fitou Mac. - Gerald, esse  Mac Blade. Ele administra o Comanche. Mac, Gerald est de sada.
         -  Adeus, Gerald - Mac disse em um tom que poderia arrasar qualquer criatura. - Creio que a dama gostaria que largasse sua mo.
         -  Dispenso sua interferncia.
         Mac deu um passo  frente at que ficaram face a face.
         - No comecei a interferir, mas ficaria feliz em faz-lo. - Ele sorriu, maquiavlico. - Na verdade, tenho procurado essa oportunidade.
         -  No. - Sentindo-se mais zangada, Darcy colocou-se entre os dois homens. - Sou perfeitamente capaz de resolver meus problemas.
         -  nisso que est se metendo, Darcy? - Gerald parecia enojado. - Deixou-se seduzir por essa... pessoa? Iludiu-se, imaginando que ele queira algo mais do 
que dinheiro e sexo barato?
         No mesmo instante, Darcy sentiu a tenso no corpo de Mac e agarrou-lhe os braos.
         - Por favor, no. Por favor. - Os msculos dele pareciam vibrar de dio. - No vai ajudar em nada, Mac. Por favor.
         Curiosos fingiam estar ocupados enquanto observavam discretamente a cena. Talvez o fato de estar firmemente ancorada pelo slido corpo de Mac a ajudasse. 
Mas Darcy precisava enfrentar aquela situao sozinha ou nunca mais seria capaz de faz-lo. 
         - Gerald, o que fao e onde estou no tem nada a ver com voc. Peo desculpas por ter aceitado o pedido de casamento. Foi um erro que tentei retificar, 
mas nunca quis me ouvir. Alm disso, no tenho razes para me preocupar.
         Enquanto observava a ira no rosto de Gerald, respirou aliviada. Ele queria esbofete-la e ela no ficou surpresa com a constatao. Caso Darcy no encontrasse 
coragem para fugir, Gerald seria capaz de usar a fora bruta. Cedo ou tarde, intimidaes no seriam suficientes.
         A certeza da prpria liberdade lhe forneceu condies para prosseguir.
         - Voc me manipulou quanto pde. Por isso quis se casar comigo... a princpio. Depois, passou a insistir porque no foi capaz de aceitar a recusa e precisava 
explicar o rompimento do noivado aos vizinhos.
         - No vou ficar aqui enquanto voc expe nossos assuntos pessoais em pblico. - Gerald tornou-se ainda mais frio.
         -  livre para partir quando quiser, Gerald. Veio at aqui porque, de repente, ganhei uma grande soma em dinheiro.  conveniente, afinal, a imprensa est 
atrs de mim agora. Tenho certeza de que alguns reprteres apareceram em Trader's Corners e descobriram nosso antigo noivado. Foi constrangedor para voc, mas no 
pde ser evitado. - Respirando fundo, ela continuou: - Escute bem, Gerald. Voc jamais ir colocar as mos em mim ou em meu dinheiro. Eu nunca mais vou voltar. Moro 
aqui e gosto da cidade. No gosto de voc. Ele deu um passo para trs.
         - Posso ver agora que voc no  a pessoa cordata que imaginei.
         - No consigo dizer quanto isso me faz feliz. V embora, Gerald.
         Franzindo a testa, ele fitou Darcy e Mac com desdm.
         -  Pelo que pude ver vocs dois combinam com esse lugar. Se mencionar meu nome para a mdia, serei obrigado a process-la.
         - No se preocupe - Darcy murmurou. - Acho at que j me esqueci de seu nome.
         - Muito bem! - Incapaz de resistir, Mac beijou o rosto de Darcy.
         -  Est feito. Acabou. Obrigada pela ajuda.
         - Voc no parecia precisar. - Mas Mac sentiu-a estremecer. - Vou lev-la para a sute.
         -  Sei o caminho.
         - Darcy. - Ele a fitou, segurando-a pelos ombros. - Voc no me deu a satisfao de quebrar o nariz de Gerald. Est me devendo.
         -  Certo. Sempre pago minhas dvidas. - Abraando-a, Mac guiou-a at o elevador. Por instinto, acariciava o brao, tentando aplacar o tremor.
         - Recebeu minhas flores?
         -  Sim, so lindas. Obrigada - agradeceu em voz baixa.
         Em seguida, entraram no elevador.
         - Minha me me disse que esteve trabalhando.
         -   verdade.
         - Por isso no atendeu meus telefonemas nem mesmo abriu a porta? Continua magoada comigo?
         - No costumo guardar mgoas - ela retrucou.
         - Mas abriu uma exceo para mim.
         - Talvez.
         - Est certo. Temos duas escolhas. Pode me perdoar por ser arrogante e grosseiro, como voc mesma disse, ou serei obrigado a ir atrs de Gerald e desabafar 
minhas frustraes nele.
         - No faria isso.
         -  Oh, sim, faria.
         Quando as portas do elevador se abriram, Darcy o fitou, intrigada.
         - Faria - disse com um misto de medo e deleite.
         - Mas no iria resolver nada.
         - Contudo, eu me divertiria. Vai me convidar para entrar ou devo procur-lo?
         Dando de ombros, ela tentou no se mostrar contente.
         - Entre. No conseguirei retomar meu trabalho.
         - Obrigado. - Mac olhou o computador sobre a mesa. - Como est se saindo?
         - Muito bem.
         - Minha me me disse que a deixou ler algumas pginas.
         - Ela dificulta qualquer negativa. Quer tomar algo? Um caf?
         - Agora no, obrigado. Posso ler seu livro?
         -  Quando for publicado poder l-lo.
         Virando-se, Mac a encarou. As faces delicadas haviam readquirido a cor natural. Um alvio para ele. Darcy parecera to plida e frgil diante de Gerald.
         - Posso dificultar as coisas tambm.  gentico. Mas, como est muito atordoada no momento, vou esperar.
         -  apenas uma reao. - Darcy cruzou os braos, apreensiva. - Fiquei apavorada quando ele ligou.
         - Mas desceu para encontr-lo.
         - Tinha de ser feito.
         - Podia ter me chamado. No precisava enfrent-lo sozinha.
         - Precisava, sim. Tinha de saber que podia. Parece ridculo agora me imaginar intimidada por ele. Gerald  to pattico. - Darcy jamais vira o lado frgil 
do ex-noivo. Sentia pena dele. - Porm, se eu no houvesse arriscado tudo, no estaria aqui. No teria conhecido voc. Agradeo a Deus por isso.
         Mac sorriu.
         -  Obrigada por no agredi-lo quando ele o insultou daquela maneira.
         - Eu no o teria agredido por mim. - Novas emoes invadiam o corao de Darcy.
         - Soube, no momento em que voc apareceu, que tudo ficaria bem. No senti mais medo. Gerald pensou que estvamos... Bem, fiquei feliz porque nunca o deixei 
me tocar, e ele imagina que voc o fez.
         Embora soubesse o erro que cometia, Mac se aproximou.
         - Ele vai se atormentar por algum tempo. E quase to prazeroso quanto quebrar-lhe o nariz.
         O amor que ela sentia crescia a cada momento.
         - Ainda bem que voc estava l comigo.
         -  Sim. Voltamos a ser amigos?
         Ao sentir os dedos roarem seu rosto, Darcy quase perdeu o flego.
         -  isso que quer ser?
         Os olhos dourados adquiriram outra tonalidade. Os lbios se entreabriam, convidativos, irresistveis.
         - No exatamente - Mac murmurou e a beijou.
         De sbito, ela soube que pensamentos surgiam segundos antes do beijo. Imagens selvagens e desesperadas despontavam sem qualquer definio. Na ponta dos 
ps, Darcy colou-se ao corpo msculo e agarrou os ombros largos, mergulhando na exploso de cores que espocavam em sua mente.
         Os lbios rubros, quentes e dadivosos, estavam vidos de paixo. Mac queria mais. O corpo feminino parecia to glamouroso e... preparado. Desejava absorv-lo 
por inteiro. A necessidade era urgente, forando-o a buscar controle.
         - Darcy... - Comeou a se afastar, porm ela o impediu.
         -  Por favor. - A voz soava rouca, sensual. - Toque em mim...
         O pedido sussurrado transparecia fervor. Um desejo irracional o invadiu a ponto de enlouquec-lo.
         - Tocar no ser,suficiente.
         - Pode ter o suficiente. - Darcy no conseguia conter a vontade avassaladora de provar aquelas sensaes. - Faa amor comigo. - Beijava-o, desesperada. 
- Leve-me para a cama.
         Alm da exigncia, havia a oferta tentadora. Mac precisava corresponder a ambas.
         - Quero voc. - Beijou o pescoo macio. - Estou ficando louco de tanto desej-la.
         -  No quero ser louca. Tampouco quero v-lo enlouquecido. Apenas uma vez... fique comigo.
         Carregando-a nos braos, Mac viu os olhos dourados se tornarem ainda mais brilhantes. O fato de ela pesar pouco mais que uma criana o apavorava.
         -  No vou machuc-la.
         -  No me importo.
         Mas ele sim. Carregou-a at a escada e comeou a subir os degraus.
         - Na primeira vez em que a trouxe aqui, fiquei intrigado. Quem  ela? De onde veio? - Mac deitou-a sobre a cama. - O que vou fazer com ela? Ainda no descobri.
         -  Quando acordei e o vi, pensei que estava sonhando. - Darcy acariciou o rosto a sua frente. - Parte de mim ainda sonha.
         Virando a face, ele beijou-lhe a mo.
         - Vou parar se me pedir. - Afoito, Mac cobriu-lhe os lbios com os dele. - Por Deus, no me pea.
         Como poderia? Por que Darcy seria capaz de interromper a realizao daquela infinita necessidade? As mos experientes acendiam chamas ao longo das curvas 
do corpo. Os lbios de Mac percorriam a pele alva, revelando regies nunca estimuladas.
         Ningum jamais a fizera sentir-se assim.
         Os dedos aflitos exploravam as partes mais delicadas. E quando ele atingiu o seio, a mente de Darcy se esvaziou.
         Extasiada, respondia a cada toque, convidando-o a fazer o que quisesse. Mac obrigava-se a ser gentil com ela. Precisava conter o desejo feroz para no assust-la. 
Entre beijos e carcias, desabotoou a blusa e deliciou-se.
         Os tremores o incitavam, quase brutalmente. Cada um dos msculos de Darcy era um milagre a ser explorado e saboreado. A textura da pele nas curvas dos seios 
aumentavam-lhe a pulsao.
         Erguendo-a, ele a beijou nos lbios enquanto retirava a blusa.
         Hesitante, Darcy comeou a desabotoar a camisa de Mac. Queria toc-lo, v-lo. Conhec-lo. Um som de puro prazer escapou de sua boca ao divisar o trax moreno.
         To forte, pensou, fascinada com os msculos sob suas mos. Poderoso como um homem poderia ser. Emocionada, ela pressionou os lbios sobre os ombros largos, 
absorvendo-lhe o sabor.
         Mac sentiu uma violenta necessidade de devorar aquela mulher. No entanto, segurou-a pelo rosto, observando-a, sorvendo-a com beijos ousados.
         Encantado com a expresso de surpresa, misturada ao prazer nos olhos dela, tirou o suti e acariciou os seios, sentindo os mamilos intumescerem. Ento, 
com os lbios midos, estimulou a ponta sensvel.  
         Foi o mesmo que sentir o corpo se desfalecer. Darcy fechou os punhos, envolvida em ondas de prazer. O fogo da paixo queimava-lhe a alma. Ouviu-se gemer 
e se agarrou em Mac.
         - Calma. - Ele no tinha certeza se queria acalm-la ou a si prprio. Mas os movimentos sinuosos roubavam-lhe o controle das mos.
         Rolaram sobre a cama, mergulhando na piscina de travesseiros. Mac tirou-lhe a saia, jogando-a no cho, e logo se livrou da ltima barreira de rendas.
         - Oh, Deus. - Os olhos de Darcy ficaram turvos, impedindo-lhe a viso. - No posso...
         - Voc deveria estar bailando na floresta encantada sob a luz do luar - ele sussurrou, maravilhado com o corpo alvo que respondia a cada toque sutil. Traou 
as curvas do ventre e sorriu. - Consegue imaginar?
         Em um rompante de desejo, ele beijou a regio entre as pernas.
         Invadida por uma sensao indescritvel, Darcy agarrou os lenis, tentando respirar. O calor crescia como uma bola de fogo. Ficou cega de prazer e conteve 
um grito mudo na garganta.
         Arriscando movimentos sedutores, ela largou os lenis e apoiou-se nos ombros de Mac.
         To quente, ele pensou, e suas mos ainda no haviam percorrido todos os lugares mais almejados. Mas Darcy estava pronta. Sentiu uma emoo inusitada quando 
os olhos dourados o fitaram, absortos.
         -  Nunca...
         - Eu sei. - Mac era o primeiro e, por essa razo, o desejo de possu-la crescia a patamares inimaginveis. Aproximou-a de si. Darcy arqueou o corpo, convidando-o.
         Quando a penetrou, os msculos pareceram clamar por satisfao.
         -  Apenas sinta, querida. - Mac segurou-lhe as mos.
         Novamente, Darcy sentiu-se flutuar sobre um oceano de prazer incalculvel. A dor e o choque se misturavam s sensaes alucinantes que ela no conseguia 
discernir. Recebeu-o com todo seu amor. A unio foi completa.
         Sussurros e magia se fundiam na doura do momento. O corpo estremeceu, antes de perder-se em uma piscina de cores e xtase.
         Unida a Mac, ela o abraou e suspirou seu nome.
         
         
         
         
         
        CAPTULO IX
         
         
         Darcy podia sentir o aroma extico das  flores tropicais sobre a cmoda. Os raios de sol invadiam o quarto, aquecendo-lhe as faces.
         Se mantivesse os olhos fechados, era possvel visualizar-se no meio do deserto, totalmente nua e envolvida pelos braos de seu amor.
         Seu amante. Que palavra maravilhosa era aquela.
         Feliz, Darcy a repetia inmeras vezes em pensamento enquanto se virava para beijar o pescoo de Mac. Mas quando ele comeou a se mover, estreitou o abrao.
         - Precisa se mexer?
         A mente de Mac parecia no querer refletir. Darcy ocupava-lhe os pensamentos, como se ainda estivessem em pleno ato amoroso.
         - Voc  to pequena.
         -  Estou trabalhando para mudar isso. - Ela desejava apenas sentir o roar dos lbios na pele morena. - J adquiri msculos.
         Mac teve de sorrir. Segurou o brao fino e delicado, apertando o frgil msculo.
         - Nossa!
         -  Certo. Estou quase adquirindo msculos. Em poucas semanas, ningum mais vai me chamar de magricela.
         -  No  magricela - ele murmurou, absorvido pela textura da pele macia. -  esguia. Delgada.
         Fascinada, Darcy observava os olhos azuis concentrados enquanto Mac deslizava os dedos ao longo do brao. Teria ele noo dos efeitos que aquele gesto simples 
causava nela?
         Aquele perfil escultural, que Darcy no cansava de admirar, por alguns momentos pertenceu somente a ela. Teria sido o amor profundo que proporcionara magia 
ao ato sexual? Talvez porque fosse o primeiro, o nico, Darcy jamais pudesse se imaginar to ntima de algum.
         A despeito das razes, iria resguardar o que Mac lhe dera. E esperava ter podido retribuir a mesma emoo.
         - Preciso perguntar. - Sorriu, envergonhada. - Sei que pode parecer idiotice, mas... tenho de saber.
         Temeroso, Mac a fitou. Receava que Darcy lhe perguntasse como se sentia. Por ainda estar admirado com a unio abrasadora, no sabia o que pensar.
         - Eu fui... - Como expressar-se em uma frase? - Foi bom? - ela indagou, por fim.
         A tenso se dissolveu.
         -  Darcy. - Tomado por uma onda de ternura, ele a beijou nos lbios. - O que acha?
         - No sou mais capaz de raciocinar. Tudo me pareceu to repentino. Sempre imaginei que iria me lembrar dos detalhes, passo a passo. Mas no prestei ateno. 
Havia muito para sentir.
         - As vezes... - Mac queria possuir aqueles lbios outra vez. - Pensar atrapalha.
         - Os pensamentos somem de minha cabea quando voc faz isso. - Darcy o abraou e o beijou. - E, ao me tocar, tudo se torna to... quente.
         Ofegante, ela voltou a sentir o desejo crescer. murou e entregou-se aos braos vidos de paixo.
         - Mais - pediu Mac. - Oferea-me muito mais dessa vez. - E deixou-se envolver por aquela emoo to assustadora.
         
         Mais tarde, sozinha na cama, Darcy fitou a prpria imagem refletida no espelho do teto. Os olhos se arregalaram ao ver os cabelos despenteados e o corpo 
nu entre os lenis.
         Era mesmo Darcy Wallace? A filha comportada, a bibliotecria consciente e a tmida donzela de Kansas? Parecia... viva. Ciente da prpria natureza. Oh, e 
muito satisfeita. Mordeu o lbio inferior, imaginando se teria coragem de se mirar no espelho durante o prximo ato de amor com Mac. Sim, haveria outros.
         Alegre, agarrou o travesseiro e rolou na cama. Ele a queria. Darcy no se importava com as razo, j era o bastante desej-la.
         Havia uma suave promessa por trs dos beijo que trocaram antes de ele sair. Mac a havia convidado para jantar em seu escritrio. Ele a queria.
         Tinha de encontrar uma maneira de mant-lo sempre por perto. Talvez pudesse at vir a se apaixonar por ela.
         Seria o mesmo que jogar. Darcy precisaria arriscar o que j tinha e esperar por mais.
         Com todo seu corao, ela desejava se casar e constituir uma famlia. Queria ser me. Necessitava desesperadamente partilhar o profundo amor que sentia 
com aqueles que amava.
         E, pelo menos uma vez, precisava se sentir amada.
         Mas no queria um afeto duvidoso. O que a atraa ?era a perigosa paixo capaz de cegar e faz-la cometer atos insanos.
         O tipo de amor que podia ferir. Darcy fechou os olhos, preocupada. Um sentimento forte o bastante para escalar montanhas e exigir gritos de deleite e terror.
         Almejava tudo isso. E queria viv-lo com Mac Blade.
         De que forma poderia ganhar seu corao? Respirou fundo, acomodando-se entre os travesseiros. Precisava descobrir um meio, prometeu a si mesma, e adormeceu.
         Afinal, s quem jogava poderia ganhar. E Darcy tinha muita sorte no jogo.
         
         Vestiu a jaqueta de linho branco pela qual se apaixonara no primeiro dia que passara no hotel. Sob ela, usava um lindo vestido vermelho. O casaco lhe dava 
confiana e a fazia sentir-se glamourosa.
         O vestido a tornava pecadora.
         Pensou em tentar o blackjack outra vez. Se pretendia morar em Las Vegas e envolver-se com o dono do cassino, precisava praticar estratgias de jogo.
         Os caa-nqueis no exigiam destreza. Provara isso a si prpria. A roleta parecia um pouco repetitiva, embora fosse excitante, mas Darcy no conseguia acompanhar 
a velocidade da bola.
         Entretanto, as cartas surgiam em uma intrigante ordem e demandavam estratgias de raciocnio.
         Vagou pelo cassino, divertindo-se com a multido, os sons estridentes e a energia. As mesas estavam todas ocupadas naquela noite, e as cartas se moviam 
rpidas. Considerava a possibilidade de arriscar cem dlares quando Serena apareceu.
         - Estou feliz em ver que decidiu sair um pouco. - Atenta como sempre, Serena admirou a escolha das roupas. - Alguma comemorao?
         Darcy sentiu-se corar. No podia revelar  me de Mac que estava comemorando o fato de ter feito amor com ele.
         - Resolvi me arrumar hoje. Comprei muitas roupas e visto sempre short e camiseta.
         - Sei como se sente. Nada como um belo vestido para alimentar a alma feminina. E este  maravilhoso, Darcy.
         - Obrigada. No acha muito... vermelho?
         - De forma alguma. Vai tentar a sorte aqui?
         - Estou pensando a respeito. Detesto me juntar a uma mesa onde todos sabem o que esto fazendo. Deve ser irritante ter uma novata cometendo erros durante 
o jogo.
         -  parte da brincadeira, e a sorte sempre acompanha os principiantes. Se optar pela mesa de cinco ou dez dlares, as pessoas estaro dispostas a ajud-la.
         - Voc foi crupi?
         -  Sim, fui. E muito boa, por sinal.
         - Pode me ensinar?
         - A distribuir cartas?
         - A jogar. - Darcy sorriu. - E ganhar.
         - Bem... - Serena adquiriu um brilho diferente no olhar. - Escolha uma mesa no bar para ns. Eu a encontrarei em um minuto.
         
         -  Separe os dois setes.
         Atenta, Darcy seguia instrues, abaixando as duas cartas sobre a mesa do bar.
         - E isso deve ser bom, certo? Porque tenho duas mos com que me preocupar.
         Serena apenas sorriu.
         - Cubra sua aposta da segunda mo. - Ele forneceu mais duas cartas a Darcy. - Trs por dez na primeira mo, e seis por treze na segunda. A mesa tem um oito. 
O que voc vai fazer?
         - Dobro a aposta da primeira mo e arrisco. - Lembrando-se do ritual que lhe fora ensinado, ela contou os amendoins que substituam as fichas. - Trs mais 
treze pontos. Tenho de pegar outra.
         - Vai manter os dezenove?
         - Sim. Agora temos isso. - Darcy bateu os dedos sobre a segunda mo e fitou o rei. - Bem, ao menos fui rpida.
         - Estourou com vinte e trs. - Serena virou as outras cartas que estavam de cabea para baixo. - A mesa tem onze, quatorze e quebrou com vinte e cinco.
         -  Ento ganhei a primeira mo. Mas dobrei a aposta, portanto  o mesmo que vencer duas vezes. Que bom.
         - Est aprendendo. Agora, se quer vencer a casa, deixe a aposta correr na segunda mo.
         Darcy olhou o punhado de amendoins.
         -   muito... vinte amendoins em uma s mo.
         - Dois mil. - Serena a fitou. - No mencionei que cada amendoim valia cem dlares?
         - Meu Deus, j comi mais de uma dzia. Vamos continuar.
         -  O jogo est aberto, senhoras?
         Serena ergueu o rosto para receber o beijo do marido.
         -  Chegou na hora. Puxe uma cadeira.
         Justin pegou um pote de amendoins em outra mesa.
         - Acho que posso arriscar algumas mos.
         - As fichas so de cem dlares. Somos jogadoras de alto nvel. - Deliciando-se com o jogo, Serena embaralhou as cartas. - Faam suas apostas.
         Quando Mac os encontrou meia hora depois, Darcy estava sentada ao lado de Justin e ria da pilha de amendoins que conseguira acumular.
         - No vai ganhar com dezessete se o crupi est mostrando um dois - Darcy explicou, enquanto Justin baforava um charuto. - Por que fez isso?
         - Ele conta as cartas. - Mac puxou uma cadeira e sentou-se entre os pais. - No gostamos de truques aqui. Pedimos educadamente que se retirem.
         - Eu lhe ensinei a contar cartas antes de aprender a andar, Mac.
         -  verdade. - Mac sorriu. - Por isso consigo identificar os trapaceiros.
         -  Seu pai continua to rpido quanto na poca em que apostou um passeio comigo pelo convs do navio durante um jogo de vinte e um. Ele ganhou com dezessete.
         -  Que romntico. - Darcy suspirou.
         -  Serena no achou nada romntico. - Justin sorriu para a esposa. - Mas a fiz mudar de idia.
         - Eu o achei arrogante e perigoso. Ainda tenho a mesma opinio - Serena acrescentou, tomando um gole de vinho. - Apenas aprendi a gostar de voc assim.
         - Vocs dois vo flertar um com o outro ou jogar? - Mac perguntou.
         -  Podem fazer tudo ao mesmo tempo - Darcy informou-o. - Estive observando.
         - Aprendeu algo?
         O tom suave e sensual das palavras a atingiram-na.
         Ela o fitou, encantada.
         -  Se no apostar, no ganha.
         - Tenho algumas horas de folga - Mac explicou para todos, mas mantinha os olhos em Darcy quando se levantou. - Vejo vocs amanh - despediu-se dos pais 
e tomou a mo de Darcy. - Vamos sair.
         -  Sair?
         - H muito mais em Las Vegas do que o Comanche.
         - Boa noite - ela gritou, enquanto Mac a puxava. Justin tirou o charuto dos lbios.
         -  O garoto  um caso perdido.
         No instante em que ps os ps fora do hotel, Darcy se deu conta de que no sara  noite desde que chegara a Las Vegas. Por um momento, permaneceu parada 
entre as fontes luminosas e a grande esttua do chefe ndio.
         O trfego estava intenso. Havia luzes, sirenes, ousadia e seduo.
         -   to... grande.
         -  E sempre h mais. O Strip fica a poucos quarteires daqui, mas pode sentir o dinheiro em cada metro quadrado. Jogar  o objetivo, contudo, a cidade oferece 
outras diverses. Cantores famosos, espetculos circenses, sinos de casamento e parques para crianas.
         Mac voltou o olhar para as imensas colunas do Comanche.
         - Construmos cem quartos no ano passado. Poderamos construir mais cem, e ainda haveria hspedes para ocup-los.
         - Dirigir uma empresa desse porte requer muita responsabilidade.
         -  Gosto do trabalho.
         -  Do desafio? - ela perguntou. - Do poder ou da emoo?
         -  De tudo.
         Virando-se, Mac deu um passo para trs. No havia reparado no rosto de Darcy quando estava no bar. Aqueles olhos sempre o capturavam. Notou a elegncia 
da jaqueta de linho e o convidativo vestido vermelho.
         -  Eu devia ter tirado a noite inteira de folga. Voc precisa conhecer o resto da cidade.
         - Satisfao-me com algumas horas. Para onde vamos?
         - No posso imaginar um passeio entre as colinas sob o luar, mas posso lev-la para conhecer um tnel repleto de fantasias.
         Ele a levou para caminhar na Freemont, uma avenida coberta de luzes. Cores pipocavam a cada canto, ordenadas em notas musicais tal qual uma festa comemorativa. 
Darcy ficou maravilhada com o espetculo e deliciou-se ao som das canes enquanto andava de mos dadas com Mac, como namorados. Tomaram sorvete e riram.
         Subiram no elevador da Estratosfera. Embora estivesse com medo, ela arriscou a aventura de experimentar a montanha-russa, o Strip. Fitou as estruturas que 
compunham aquela imensa pista de ao e viu o silencioso desafio nos olhos de Mac quando acomodaram-se no carro.
         -  Nunca brinquei em uma montanha-russa em minha vida.
         - Pois precisa comear com um campeo - ele brincou.
         - J passeei em roda gigante, mas... -Darcy olhou o cinto de segurana. - Tem certeza de que  seguro?
         -  Quase todos que viajam no Strip conseguem sobreviver. - Ele,riu diante do pavor estampado nos olhos de Darcy.
         Ao receber o sinal de partida do funcionrio, Mac resolveu tirar vantagem quando ela se agarrou a seus braos.
         -  Quero beij-la.
         -  Tudo bem, mas devia ter feito isso enquanto estvamos no cho. - Darcy mergulhou o rosto nos ombros de Mac.
         - Ainda no - ele murmurou. - Em breve. - tranqila, ela sorriu, e o corao comeou a bater normalmente.
         - No  to ruim. Nunca imaginei que pudesse ser to lento.
         De repente, eles mergulharam em um precipcio de ao, fazendo Darcy perder a voz de tanto medo.
         - Agora. - Ele a beijou quando subiram ao topo do mundo.
         Darcy no podia respirar. No havia nem sequer flego para gritar. Voavam pelos ares, como se o carro sasse dos trilhos, em seguida despencavam em uma 
velocidade impressionante. Mac pegava-a de surpresa com beijos e carcias, deixando-a estupefata.
         Velocidade, cores, gritos. E uma tempestade de adrenalina que parecia no ter fim.
         Quase sem poder respirar, Darcy se agarrou a Mac. E ofereceu-lhe o que tanto esperava: loucura e rendio.
         Quando o carro parou, ela ainda estava zonza. Continuou pregada ao brao de Mac, como se jamais conseguisse solt-lo.
         - Deus! - exclamou, apavorada. - Nunca senti nada semelhante. Podemos ir outra vez?
         -  Oh, sim.
         Ao retornarem s ruas, Darcy parecia bbada de tantas emoes.
         -  Foi maravilhoso. Minha cabea ainda est girando. - Riu quando ele a abraou pela cintura. - No serei capaz de andar em linha reta durante horas.
         - Nesse caso, tem de se apoiar em mim... o que faz parte de meu plano.
         Novamente rindo, ela olhou para cima, apreciando a exploso de fogos. Chuvas coloridas invadiam o cu negro e se espalhavam.
         -  um mundo to brilhante. Tudo  muito alto, grande e rpido. - Voltou-se para fit-lo. - Nada  impossvel.
         Passando os braos ao redor do pescoo de Mac, Darcy o beijou com uma paixo que havia sculos esperava por nascer.
         - Quero experimentar tudo. E repetir umas duas vezes, depois escolher o melhor e fazer de novo.
         Mac deslizou as mos sob a jaqueta de linho e descobriu, para seu deleite, que o vestido deixava nuas as costas de Darcy.
         - Temos mais algum tempo antes de voltar. O que gostaria de fazer?
         -  Bem... - Ela fitou os letreiros de non. - Quero ver uma dana extica.
         - E a segunda opo?
         - Fico imaginando como devem ser aquelas boates onde mulheres seminuas danam para o pblico.
         - No vou lev-la a um show de strip-tease, Darcy.
         - J vi mulheres nuas,
         - No.
         - Est certo. - Ela deu de ombros e comeou a caminhar. - Vou sozinha.
         Cerrando os lbios, Mac a fitou desconfiado. Considerou aquela atitude um blefe. Mas resolveu no arriscar.
         - Dez minutos - murmurou. - E voc no diz uma palavra enquanto estivermos l dentro.
         - Dez minutos  perfeito. - Feliz com a vitria, Darcy passou o brao ao redor do dele.
         
         - Tenho certeza de que a patritica foi a melhor de todas. - Satisfeita em viver outra fascinante experincia, Darcy entrou no escritrio de Mac. - Aquela 
com uma pequena bandeira na...
         - Sei a quem se refere.
         Cada vez que imaginava prever as reaes de Darcy, ela o surpreendia. Durante o show de strip-tease no ficara constrangida ou chocada. Pelo contrrio, 
parecia fascinada.
         -  O modo como danavam ao redor daquela pilastra... Elas devem ter praticado horas a fio. O controle muscular era fenomenal.
         -  No acredito que me persuadiu a lev-la em um lugar como aquele.
         - No sabia.
         -  Obvio que no.
         -  No. Refiro-me a voc. - Ela se sentou no brao da cadeira. Mac estava diante das telas, observando o movimento do cassino.
         -  Como assim?
         - Por baixo desse exterior sofisticado, voc tem um corao tradicional.
         Incerto se deveria se sentir ofendido, Mac a olhou.
         - Pois saiba que antes de tudo sou um cavalheiro.
         -  Sei disso.
         - Est com fome?
         - No muito. - Darcy caminhou pela sala. No conseguia ficar parada. - Foi o dia mais incrvel que j vivi. Todas as sensaes ainda borbulham dentro de 
mim. - Ela cruzou os braos, contendo as experincias. - No sei se h espao para comida.
         Mas fitava-lhe o rosto radiante.
         -  Champanhe?
         - Sempre h lugar para champanhe. Jamais imaginei que um dia diria isso. Cada minuto de minha vida em Las Vegas  um pequeno milagre.
         Mac pegou uma garrafa no bar e, enquanto a abria, observava Darcy. A repentina maturidade era evidente nos olhos, lbios e rosto. As novidades pulsavam 
com energia e contentamento.
         V-la, senti-la e toc-la parecia aumentar o desejo que nutria por ela. Fique comigo, Darcy pedira. Estar juntos, caminhar pelas ruas, jantar  luz de velas, 
tudo de repente se tornava vital.
         Mas, mesmo assim, ela continuava encantadora. Como conseguir desviar os olhos daquela mulher to... sensual?
         - Gosto de v-la feliz.
         - Ento deve ter se divertido com o passeio tambm. Nunca me senti to feliz. - Aceitou a taa que ele lhe oferecia e bebeu o champanhe. - Posso ficar aqui 
com voc, observando as pessoas?
         Teria Darcy a noo de quanto o afetava?
         - Fique o tempo que quiser.
         - Vai me dizer o que est vendo enquanto olha para as telas? No vejo nada alm de pessoas.
         - Problemas, trapaas, maneirismos.
         -  O que so maneirismos?
         -  Todos possuem maneirismos. Gestos, hbitos repetitivos que nos revelam o que esto pensando.  - Mac sorriu. - Voc torce as mos quando est nervosa. 
Assim no precisa roer as unhas. Tambm inclina a cabea quando est concentrada.
         - Do jeito que voc pe as mos no bolso quando se sente frustrado... ou quer socar o nariz de algum?
         - Muito bom.
         -   fcil observar algumas pessoas, mas aqui h tantas. - Ela indicou as telas. - Como consegue ficar atento  multido?
         - Precisa saber o que procurar. A primeira linha de defesa contra trapaceiros  o crupi. - Mac colocou-se atrs de Darcy para poderem olhar as telas juntos. 
- O chefe de segurana que circula no cassino  o maior referencial. As cmaras no teto vasculham todos os cantos.
         -  Mas s voc tem acesso s imagens.
         -  No. H uma sala de controle com centenas de monitores como esses. A equipe observa o cassino de cada ngulo e se comunica com os homens espalhados pela 
multido atravs de aparelhos de rdio ultramodernos. Eles avistam um safardana...
         -  Um o qu?
         - Um trapaceiro. O artista que consegue esconder cartas na manga e engana os olhos do crupi. Roubo  um problema. Ainda mais agora que existem dados viciados 
e mos rpidas. Estamos falando de pessoas que utilizam um computador dentro do crebro.
         Computador cerebral, refletiu Darcy, safardanas na arte de roubar. No seria um tema fascinante para escrever um livro?
         - O que faz quando surpreende algum roubando?
         -  Mostro-lhe a porta de sada.
         -  S isso?
         - Ningum sai daqui com nosso dinheiro. O timbre assustador da voz a fez virar-se.
         - Aposto que no.
         - Queremos um jogo limpo. As cmaras s servem para manter a ordem e a honestidade. Mas a casa estabelece o limite. No  to difcil ganhar dinheiro aqui 
no Comanche, mas requer muito trabalho.
         - Porque as pessoas querem continuar jogando. - Ela podia compreender quo difcil era parar quando havia chance para mais.
         - E quanto mais jogam, mais investem.
         - Mas vale a pena, no? Se estiver se divertindo ou se sentindo feliz, o dinheiro compensa.
         -  um risco constante. - Mac segurou-a pelos ombros, sabendo que no mais conversavam acerca de jogos e dinheiro.
         -  O perigo faz parte da diverso. - Darcy ficou ofegante quando ele pegou sua taa e colocou-a de lado.
         - E h tambm o sabor do pecado. Voc leva jeito.
         - Por que provar um pedao ou dois quando se pode ter tudo? - Mac fitou os lbios semi-abertos.
         - Tire a jaqueta.
         -  Estamos em seu escritrio.
         Um sorriso lento e perigoso surgiu nos lbios dele.
         - Quis possu-la no primeiro dia em que entrou aqui. Agora vou t-la. Tire o casaco.
         Obediente, ela tirou a jaqueta e jogou-a sobre a poltrona. Ao se dar conta de que contorcia os dedos, parou. E o fez sorrir novamente.
         - No me importo que esteja nervosa. Gosto disso.  excitante saber que tem medo. - Ele brincou com a ala vermelha do vestido. - O que h por baixo da 
roupa, Darcy?
         -  Quase nada.
         -  No quero ser gentil dessa vez. Vai arriscar? Ela assentiu. Teria falado algo, mas Mac impediu-a com um beijo arrebatador. Seus lbios pareciam trag-la, 
como se estivessem famintos de paixo.
         Em segundos, ele a deitou no cho e regozijou-se no af de beijos e carcias. As mos vidas percorriam as curvas do corpo, possuindo, incitando sensaes 
furiosas.
         De sbito, Darcy sentiu-se mais uma vez na montanha-russa, tudo era rpido e estimulante. Glorificando o momento, tirou o palet de Mac e apressou-se em 
desabotoar-lhe a camisa, enquanto a pulsao de ambos aumentava desmedidamente.
         Aps jogar o vestido sobre o tapete, Mac sentiu o sangue, agora quente, correr nas veias. Sucumbiu  tentao de beijar os seios pequenos e firmes. Darcy 
cravou as unhas em suas costas, pedindo mais. Desesperado para absorver o sabor daquela pele, instigou as zonas ergenas at ouvi-la gemer de prazer.
         Mas no era suficiente.
         Percorreu com os lbios as partes mais quentes do corpo feminino. Os msculos tornavam-se tensos a cada toque, e a pele arrepiava-se conforme as mos a 
percorriam. A respirao de Mac ficou descompassada ao atingir as curvas dos quadris.
         De repente, Darcy soltou um grito. Os afagos se transformaram em chamas de prazer, desorganizando o sistema racional com sensaes de acurado entusiasmo. 
O clmax a invadiu, fragmentando-a em milhes de pedaos. Enfraquecida, ela se permitiu impregnar-se da emoo profunda que vivia.
         Quando imaginou no poder suportar nada mais, Mac conduziu-a ao prximo nvel.
         Enquanto ele acabava de se despir, admirava o corpo plcido a sua frente. A pele alva brilhava sob as luzes. Os lbios rosados pareciam cham-lo. Ao ser 
erguida, Darcy inclinou a cabea para trs, oferecendo a alma.
         - Fique comigo - Mac murmurou, beijando o pescoo sedutor e os ombros. Voltou a deit-la no tapete e a penetrou, sentindo o calor infindvel do ato.
         Os gemidos se tornavam intensos e profundos. Ele fitou a expresso de puro prazer que flua nos olhos dourados.
         -  Faa o que quiser. - Ele acariciava os seios trgidos com extremo delrio.
         Darcy comeou a se mexer. Seu corpo entrava em harmonia com os movimentos de Mac. Havia uma onda de poder que exigia ritmo e constncia. Era tentador. Somente 
a loucura a conduzia naquele momento.
         Em seu ntimo, tudo parecia brilhar e explodir como o mundo que ela havia presenciado nas ruas. Nenhum encontro poderia ser to grande ou to rpido.
         Mac tremia quando a segurou pelos quadris. Uma nova sensao a invadiu. Sabia que ambos chegariam juntos ao ponto culminante.
         Fique comigo, ele havia pedido. E Darcy no faria nada alm de obedecer a ele.
         Quando o clmax aconteceu e ambos se fundiram em um s corpo, Mac abraou-a com o corao em disparada.
         
         
         
         
         
        CAPTULO X
         
         
         A campainha do telefone a despertara por volta das nove. A velha jornada de trabalho de oito horas dirias havia acabado em sua vida, pensou. s quatro 
da madrugada Darcy desmaiara de exausto nos braos de Mac.
         Como estivesse sozinha na imensa cama, imaginou que ele precisava apenas de poucas horas de sono para readquirir a disposio. Se Mac pde se adaptar a 
esse ritmo, ela tambm poderia.
         Bocejando, pegou o telefone ainda de olhos fechados.
         - Alo?
         Cinco minutos depois, estava sentada na cama, olhando para o nada. Talvez fosse um sonho, pensou antes de fitar o telefone. Havia mesmo conversado com um 
editor de Nova York? Ele realmente lhe pedira para ver um dos livros?
         Pousou a mo sobre o peito. O corao batia acelerado. Podia sentir os efeitos do ar-condicionado sobre os ombros nus. Estava acordada sim. No era um sonho, 
afinal.
         Acomodou-se entre os travesseiros e fitou o teto. No se tratava de nenhum devaneio.
         Sua histria fora divulgada pela mdia, como havia dito o editor. Darcy informara aos jornalistas que estava escrevendo um livro e agora o convite acontecia. 
Uma grande editora de Nova York queria conhecer seu trabalho.
         E tudo porque os holofotes haviam se voltado para ela, concluiu, sem poder acreditar. Era uma pessoa famosa, tinha uma histria, e o editor consideraria 
o manuscrito porque o pblico estava interessado na escritora e no no trabalho.
         Porm, isso no a transformaria em uma escritora de verdade.
         Mas que diferena faria? Sentou-se na cama e torceu as mos, agitada. J era um comeo. Uma oportunidade para provar que seu trabalho possua algum mrito.
         Mandaria o primeiro livro e os captulos iniciais do segundo. Dessa maneira, o editor poderia avaliar o trabalho com mais acuidade.
         Jogando os lenis de lado, pulou da cama, vestiu o robe e desceu a escada para imprimir os captulos. No diria nada a Mac ou a ningum, pois temia estragar 
a chance. Superstio tornava-se outro trao de seu carter.
         Trabalhou o dia todo, aperfeioando as frases e adorou o resultado. Nem mesmo ela sabia que era capaz de tanto. Enquanto as pginas eram impressas, avaliou 
a lista de agentes. Se pretendia ser uma profissional, precisaria de um representante qualificado. Estava na hora de arriscar a grande cartada.
         Entretanto, como saber qual daqueles nomes da lista escolher?
         Lembrou-se de que apostara tudo que tinha de uma s vez, na mquina de caa-nqueis. Seguindo o impulso, Darcy fechou os olhos e colocou o dedo no papel 
aleatoriamente.
         - Vamos ver como est minha sorte - murmurou a si mesma. Tinha cinco minutos para telefonar antes que os escritrios da costa leste encerrassem o expediente.
         Vinte minutos mais tarde j tinha um representante, ou ao menos a promessa de ler o manuscrito e negoci-lo com o editor.
         Satisfeita consigo, Darcy reuniu seus escritos e chamou o rapaz da recepo para enviar os livros antes que mudasse de idia.
         Quase desistiu quando o garoto apareceu com o envelope do correio. Pensou em uma dzia de desculpas para no agir de maneira to precipitada.
         No estava pronta. O livro ainda precisava de alguns reparos. Precisava de mais tempo. Estava enviando seu trabalho a estranhos. Talvez devesse pedir a 
opinio de algum antes de mandar o material. Talvez devesse ligar para a agente e dizer que preferia terminar o segundo livro e troc-lo pelo primeiro.
         Covarde, repreendeu-se, erguendo o queixo enquanto entregava o envelope ao rapaz.
         - Vai ser enviado ainda hoje?
         - Sim, senhora. Estar em... - ele olhou o endereo no destinatrio - ...Nova York amanh de manh.
         - Amanh. - Darcy sentiu as faces esquentarem. - timo. Obrigada. - Deu uma gorjeta generosa ao rapaz. Depois de fechar a porta, sentou-se e colocou a cabea 
entre as pernas.
         Estava feito. No havia como voltar atrs. Em questo de dias saberia se era boa o bastante. Finalmente seria uma escritora. Mas e se nada desse certo?
         No poderia suportar tal fracasso. Sempre desejara escrever, relatar suas idias e percepes acerca do mundo. J havia esperado muito tempo.
         Endireitando a coluna, ela respirou fundo. A sorte estava lanada, s lhe restava aguardar os acontecimentos.
         Quando o telefone tocou, ela o fitou, atemorizada. Seria o editor dizendo que tudo fora um tremendo engano?, imaginou desesperada.
         Prendendo a respirao, atendeu o chamado.
         - Al? - disse, com os olhos fechados.
         -  Ol, garota.
         - Daniel. - O nome saiu em um soluo.
         -  Sim. H algo errado, querida?
         - No, no. - Ela ps a mo no rosto e riu, nervosa. - Est tudo maravilhoso. E voc, como vai?
         - Fantstico. - O tom de voz comprovava a disposio. - Achei que voc devia saber logo. Perdi cada centavo que me deu em um investimento mal sucedido.
         -  Eu... - Darcy piscou vrias vezes, atnita.
         - Tudo?
         A gargalhada de Daniel foi to intensa que ela precisou afastar o telefone para no ficar surda.
         -  Estou brincando com voc, garota.
         - Oh. - Darcy levou a mo ao peito. - Preciso me acostumar a seu bom humor.
         - Ainda permanece sentada? S liguei para lhe dizer que fizemos algum dinheiro.
         - Algum dinheiro? J?
         - Sabe, Darcy, est usando o mesmo tom de voz tanto para notcias ruins quanto para as boas.  uma tima demonstrao de controle pessoal.
         - No me sinto controlada - admitiu. - Estou em pnico.
         -  Acalme-se. Conseguimos uma soma razovel em pouco tempo. Acho que deveria comprar outro par de brincos.
         -  De que valor?
         -  Essa  minha garota. - Daniel soltou outra gargalhada. - Ganhamos cinqenta com as aplicaes que fiz.
         -  Posso comprar um lindo par de brincos com cinqenta dlares.
         -  Cinqenta mil.
         - Mil - ela repetiu, surpresa. - Est brincando de novo?
         - Compre brincos de brilhante. Fazer dinheiro  um timo passatempo, mas precisa aproveit-lo bem. Agora diga-me quando vir me visitar. Minha Anna quer 
conhec-la.
         -  Devo estar indo para o leste, a negcios, em poucas semanas.
         - Perfeito. Venha para c e conhea o restante da famlia ou aqueles que eu conseguir agrupar. As crianas vo enlouquec-la.  um crime. Minha mulher sofre 
com elas.
         - Agradeo o convite, Daniel. Sinto saudade de voc.
         - Voc  uma doura, Darcy.
         -  Daniel... - Tratava-se de um assunto muito delicado, mas Darcy tinha de falar. - Mac mencionou... Quero dizer, ele parece pensar que voc aprecia o fato 
de ficarmos juntos. Bem, ele acredita que est tentando nos unir.
         - Tentando uni-los?! Ah! O garoto precisa de um puxo de orelha. Eu disse alguma coisa a respeito disso?
         - No exatamente, mas...
         -  De onde tiraram essa idia? No a joguei no colo dele, certo?
         - Mas, Daniel...
         -  Isso no significa que os jovens no precisem de alguma ajuda para enxergarem o que  melhor para eles. Alguns apenas vagueiam pela vida, sem compromissos. 
Minha mulher merece acalentar bebs durante o sculo que ainda lhe resta, no acha?
         -  Claro que sim. S imaginei...
         -  Eu... Ela merece - Daniel se apressou em corrigir. - Robbie vai fazer trinta anos e no comeou a constituir famlia... - ele prosseguiu, impedindo-a 
de falar. - O que h de errado em dar-lhe uma fora, j que vocs combinam to bem?
         -  Combinamos? Tem certeza, Daniel?
         - Se estou dizendo que combinam, quem ir duvidar? - Aps uma pausa, a voz de Daniel tornou-se suave. - Ele  um belo rapaz, no acha?
         -  Sim, acho.
         - Forte como pedra e tem crebro. Possu tambm um bom corao e  responsvel.  solidrio com os amigos e a famlia. Uma mulher no poderia fazer melhor 
opo que escolher meu Robbie.
         - No, no vejo como ela poderia,
         - No estamos falando de uma mulher hipottica - Daniel disse, impaciente. -  a respeito de voc que conversamos. Gosta dele, no , Darcy?
         Ela se lembrou da cor e do barulho dos fogos de artifcio que sentiu explodirem em seu quarto na noite anterior, para celebrar o momento de amor dos dois.
         -  Daniel, estou desesperadamente apaixonada por ele.
         -  Grande garota!
         - Por favor. - O entusiasmo de Daniel apertou-lhe o corao. - Estou lhe revelando isso porque preciso desabafar com algum.
         - Por que no disse a ele?
         -  Porque no quero assust-lo. - Pronto, ela havia revelado enfim suas suspeitas.
         - Entendo. Voc quer lhe dar tempo para corteja-la e faz-lo pensar que foi idia dele.
         -  No imaginei algo to diablico. Mas...
         -  O que h de errado em ser diablico? Os fins justificam os meios nesse caso.
         -  Suponho que sim. - Darcy sorriu. - Ele se importa comigo, sei disso. Mas acho que parte desse interesse vem do senso de responsabilidade. Estou disposta 
a esperar at que ele no se sinta responsvel.
         - No espere muito tempo.
         - No se preocupe. Tenho algumas idias em mente.
         
         Ela estava no mercado para alugar um veculo. Comprar um automvel teria de esperar at se decidir qual dos modelos mais se adequava a seu novo estilo de 
vida. Em segredo, esperava optar pelo carro esporte.
         Armada com mapas, Darcy iniciou a tarefa de se familiarizar com as ruas da cidade. Atravessou o centro, notando os exuberantes arranha-cus. Sinais de desenvolvimento 
econmico despontavam em toldos os cantos, desde hotis espetaculares a condomnios fechados.
         Estacionou e passeou nos shoppings, galerias e lojas de variados artigos. Observou, enfim, a vida que pulsava fora dos cassinos de Las Vegas.
         Viu crianas brincando em jardins, casas prximas umas s outras em bairros distantes. Havia escolas, igrejas, ruas calmas e movimentadas. Avistou residncias 
de frente para a paz do deserto e cadeias montanhosas mais alm.
         Na verdade, Darcy viu uma vida que ela prpria podia construir.
         No caminho de volta, entrou em uma biblioteca e resolveu obter maiores informaes acerca do local que se transformaria em seu lar.
         J passava das sete horas quando voltou ao hotel. Ao entrar na sute sentiu-se exaurida de cansao. Havia percorrido pelo menos uns quarenta quilmetros. 
Marcara um encontro com uma corretora de imveis para visitar um imvel no dia seguinte.
         Em breve se tornaria proprietria de uma casa.
         - At que enfim voc apareceu. - Mac saiu do elevador no instante em que as portas se abriram. - Estava preocupado.
         -  Desculpe. Sa para explorar a cidade. - Ela jogou a bolsa no sof e comeou a sorrir, mas seus lbios foram logo arrebatados pelos dele.
         Mac sabia que a imensa sensao de alvio era fora de propsito, mas ficara irritado por no t-la encontrado em lugar algum do hotel.
         - No devia ter sado sozinha. Voc ainda no conhece bem a cidade.
         Responsabilidade, Darcy pensou, suspirando resignada.
         - Comprei um mapa. Achei que j era hora de ver um pouco mais de Las Vegas.
         Em um impulso, quase contou a respeito da casa que visitaria no dia seguinte, mas se conteve. A novidade por enquanto tinha de ser s dela, tal qual o telefonema 
que havia recebido de Nova York.
         - Passou muito tempo sob o sol. - Mac deslizou o dedo sobre o nariz avermelhado, fazendo-a gemer de dor.
         - Preciso me lembrar de usar chapu antes que minhas sardas aumentem. O ar quente e seco  uma temeridade para a pele, mas adoro o clima daqui.
         - E fcil desidratar com esse calor.
         -  Tem razo. - Darcy pegou uma garrafa de gua do bar. - Vi pessoas pelas ruas andando com garrafas de gua. Muitos pareciam exploradores, com suas mochilas, 
chapus e mquinas fotogrficas. Vi tambm muitas mquinas de caa-nqueis em lojas de convenincia.
         -  Foi a uma loja de convenincia?
         -  Estava no centro da cidade e quis ver como era - explicou Darcy. - Depois fui visitar um bairro tranqilo, com crianas e cachorros no quintal de lindas 
casas.
         -  Eu a teria levado para conhecer os arredores de Las Vegas, se soubesse que queria ir.
         - Voc estava ocupado.
         - Agora no estou mais. Meus pais me enxotaram do escritrio, obrigando-me a tirar a noite de folga.
         Um sorriso curvou os lbios de Darcy.
         - Eu realmente amo seus pais.
         - Eu tambm. Venha passear comigo. - Ele tomou-lhe a mo. - Encontraremos a lua cheia.
         
          distncia, Las Vegas parecia uma miragem. O cho do deserto se estendia em todas as direes. A imensido do cu estava repleta de incontveis estrelas 
que rodeavam a lua branca.
         Nas colinas distantes, um coiote urrou, e o som melanclico ecoou pelo ar.
         Mac havia abaixado a capota do conversvel para que Darcy pudesse admirar as estrelas. Ouvia-se apenas o sussurrar do vento, resvalando nas areias do deserto.
         - E fcil esquecer de que toda essa beleza existe quando se est trancado dentro de casa. - Ela fitou as luzes da cidade. - O oeste selvagem  perigoso 
e lindo.
         -  Est muito longe de Kansas. - Era to fcil imagin-la em Kansas, afastada do vento rido e das luzes coloridas. -Tem saudade do verde? Dos campos?
         - No. - Darcy nem sequer havia pensado nisso. - H algo de poderoso nos tons dessa terra desrtica. - Virou-se para fit-lo. - Mas voc tambm no cresceu 
aqui. Viveu no leste?
         - A casa era em New Jersey. Meus pais no queriam criar os filhos em quartos de hotis e cassinos de Atlantic City. Mas passvamos a maior parte do tempo 
nesses lugares. Duncan e eu costumvamos ajudar a equipe de segurana subindo em cima das mesas. Antes da instalao de aparelhos eletrnicos era assim que eles 
vigiavam os cassinos. Minha me me mataria se soubesse que o levava comigo.
         -  Claro. Devia ser muito perigoso.
         - Era parte da aventura. - Mac sorria enquanto brincava com as mechas dos cabelos de Darcy. - H a histria do segurana que certa vez caiu de cima da mesa 
e espalhou fichas para todos os lados.
         - Nossa! Ele ficou ferido? O que aconteceu?
         - Os boatos diziam que um jogador apostou dez dlares como ele havia quebrado os quadris. As jogadas no cessam por nada.
         Darcy riu e acomodou-se no ombro de Mac.
         - Deve ter sido emocionante fazer parte de toda essa agitao. Por que resolveu trabalhar aqui e no em Atlantic City?
         - S h uma Las Vegas. No escolho por menos, prefiro o melhor.
         O corao de Darcy acelerou-se com aquela confisso.
         - Todos de sua famlia trabalham com cassinos?
         - Duncan administra um barco. Ele gosta de fazer cruzeiros pelo rio Mississipi e flertar com as mulheres.
         - Vocs so prximos?
         - Somos. Todos ns, alis. A localizao geogrfica no atrapalha. Gwen  mdica, mora em Boston... assim como vrios primos e primas. Ela teve um beb 
meses atrs.
         -  Menino ou menina?
         - Menina. Anna, como minha av. Tenho centenas de fotos - ele acrescentou -, se quiser v-las.  
         -  Eu adoraria. Voc tem outra irm, a caula?
         - Mel. Tem olhos de anjo e punho de um lutador de boxe.
         -  Imagino que ela precise de ambos - Darcy comentou. - Voc deve tortur-la todo o tempo.
         - No mais do que exige meu dever e minha obrigao. Alm disso, foi eu quem a ensinou a lutar. Ningum provoca minha irm caula sem levar o troco.
         - Aposto que so todos lindos. Tm coraes bondosos e sorrisos sedutores. - Ela voltou a fitar a lua. - Entre olhares e cumprimentos mostram-se confiantes 
e seguros.
         - Pensei que a palavra fosse arrogante.
         - E , mas no significa uma crtica. Vocs brigam muito?
         - Tanto quanto  humanamente possvel.
         - Ningum discutia em minha casa. Sempre se procurava agir de maneira ponderada. Em uma briga pelo menos temos a chance de ganhar.
         - Notei que voc  especialista nesta rea.
         - Sorte de principiante. Espere at eu me adaptar. Serei um terror. - Ela riu. - Vou aprender a lutar boxe para o caso de a argumentao no funcionar.
         Darcy ainda sorria quando Mac a beijou. Em segundos, o beijo se tornou profundo. Ambos se moviam e confundiam-se em carcias. A emoo surgiu to poderosa 
e violenta que ele sentiu o controle esvaecer.
         - Eu no devia desej-la tanto. - Mac segurou-a pela nuca, aproximando o rosto delicado. Os olhos dourados refletiam o brilho do luar e faziam crescer o 
desejo que o atormentava. -  demais para um homem suportar.
         Lembrando-se do que ele dissera na noite anterior,
         Darcy respondeu:
         - Faa o que quiser.
         - Nem sei por onde comear.
         As palavras garantiram uma nova disposio em Darcy. Eletrizada, ela se ajoelhou no banco e fitou as mos de Mac enquanto acompanhava o ato de desabotoar 
a blusa.
         - Tente outra vez - ela murmurou.
         
         Ele nunca deveria t-la tocado, Mac censurava-se pois sabia que agora no conseguiria parar de desej-la. Dirigiu durante o longo trajeto de volta a Las 
Vegas com Darcy dormindo feito uma criana a seu lado.
         Mac fizera amor com ela no banco do carro tal qual um adolescente descobrindo os prazeres do sexo. Deixou-se tragar pelo ato em cego desespero, como se 
sua vida dependesse daquilo.
         E queria faz-lo outra vez.
         Quebrara todas as regras. Um homem que vivia de jogos e apostas devia conhecer as regras e saber quando e como ignor-las. No tinha o direito de estourar 
a banca.
         Sozinha e inocente, ela confiara em Mac. Ambos haviam permitido que as necessidade primitivas sobrepujassem o bom senso. Agora Mac estava to mergulhado 
em seus desejos que nada mais parecia claro.
         Tinha de recuar. No havia outro meio de impedir maiores danos. Darcy precisava de espao para testar suas asas de fada. Ningum jamais lhe dera aquela 
oportunidade, nem mesmo ele.
         Podia mant-la a seu lado e sabia disso. Ela pensava que o amava, e Mac seria capaz de prolongar tal iluso. At que, eventualmente, o brilho radiante da 
fada comeasse a desaparecer, e aquela luz maravilhosa de alegria sumisse dos olhos dourados.
         Mas mant-la consigo iria arruin-la, mud-la e destru-la. Era o nico jogo que ele no arriscaria.
         A preocupao que nutria por ela lhe deixava apenas uma escolha. Tinha de se afastar e dar a Darcy a opo de transformar o rumo de sua vida. Procurar o 
caminho certo.
         Contudo, ele precisaria fazer isso logo, para o bem de ambos.
         Era a nica mulher que entrava na mente de Mac sem ser convidada a qualquer hora do dia ou da noite. Queria eliminar tal possibilidade, mas se viu receando 
o momento em que Darcy ficaria apenas na memria.
         Ficava furioso s de pensar que se tornaria somente uma mera lembrana para ela tambm.
         Mas Darcy sempre pensaria nele, imaginou Mac, quando estivesse morando em um linda casa com jardim. Crianas brincariam ao redor dela, um cachorro dormiria 
sobre o gramado e um marido, que no apreciaria a magia da mulher, viria para jantar aps o dia exaustivo de trabalho.
         Era a um mundo assim que Darcy pertencia. Mac precisava cortar a forte ligao que os unia para que ela pudesse seguir seu caminho. Tratava-se de gratido, 
excitamento e sexo, ele deduziu, ignorando o fato de quer-la em todas suas aventuras.
         Havia revelado a verdade quando disse que ela no pertencia ao mundo dos cassinos. Mac acreditava nisso piamente. Darcy chegaria  mesma concluso quando 
a atrao sexual diminusse um pouco.
         Virtude e pecado no eram bons companheiros.
         Enquanto dirigia pela longa e movimentada avenida, ele fitou as luzes coloridas refletidas no rosto de Darcy. Teria de deix-la partir, disse a si prprio.
         Em breve.
         
         
         
         
         
        CAPTULO XI
         
         
         
         A casa surgiu sobre a areia como um indo castelo de contornos mgicos e enfeitado de cores. Aps o impacto inicial, Darcy apaixonou-se pela casa.
         A residncia era rodeada de palmeiras, e plantas do deserto cresciam displicentes em volta do deque. O vermelho suave do telhado contrastava com a pintura 
cor de marfim das paredes. A multiplicidade de nveis dava  casa harmonia, charme e estimulava a criatividade diante da arquitetura.
         Havia um sto, semelhante a uma pequena torre, que a fez imaginar um delicioso ninho de amor para princesas e cavaleiros, embora seu lado prtico insistisse 
em visualizar um local perfeito para trabalhar.
         Ao entrar, sentia que a casa j era dela. Nem sequer prestava muita ateno no discurso habitual da corretora.
         A construo tem apenas trs anos. Arquiteto renomado. A famlia se mudou h poucos meses. Acaba de entrar no mercado. Pronta para se morar.
         - Sei... - Darcy respondia, distrada, enquanto caminhavam em direo  porta de vidro enfeitado de estrelas.
         Estrelas lhe haviam dado sorte, pensou.
         Fitou o teto. Luzes indiretas. Perfeito. O espao era arejado, e as paredes estavam pintadas com um suave tom de amarelo. No mudaria aquela cor, decidiu, 
ouvindo os prprios passos sobre o assoalho de tbua larga.
         Nos fundos, havia uma imensa porta de vidro que dava acesso a outro deque e a um sossegado jardim. No poria nenhum mvel escuro. Tudo tinha de ser claro 
e luminoso. Arregalou os olhos quando divisou, alm do deque, as guas cristalinas da piscina.
         Deixou a corretora expor as vantagens da cozinha, do refrigerador, dos armrios e da pia de granito. Picou encantada com o espao da copa rodeado de janelas. 
Fora feito para refeies em famlia, deduziu. Para manhs de domingo, dias agitados de aula, noites silenciosas e tardes de ch.
         Adoraria cozinhar ali, pensava Darcy, avaliando o fogo e o forno de microondas. Sempre soubera preparar o trivial, mas queria experimentar novas receitas 
com temperos exticos.
         O quarto da criada e a rea da lavanderia juntos eram maiores do que seu antigo apartamento em Kansas. Darcy sorriu diante da ironia.
         No canto da sala de jantar mandaria instalar um bar com alguns bancos ao lado da lareira que serviria para aquecer as noites frias do deserto. A tonalidade 
clara da pintura das paredes requeria leveza e conforto.
         Receberia convidados para jantares sofisticados. E haveria tambm churrascos  beira da piscina. Sim, ela poderia se tornar uma anfitri especializada em 
deixar os hspedes  vontade.
         Percorreu cada um dos quartos, verificando a vista das janelas, aprovando a escolha do assoalhos e o contraste dos ladrilhos dos banheiros.
         Quase perdeu o flego ao ver a sute principal.
         Os dois nveis do cmodo revelavam um deque privativo com lareira e um imenso corredor de armrios que dava acesso  sala de banho, muito semelhante  do 
Comanche. As luzes indiretas, instaladas no teto do banheiro, no atrapalhavam a vista do cu azul do deserto.
         Haveria plantas ao redor da banheira, potes e mais potes, repletos de sais de banho e jogos de toalhas de todas as cores, um para cada semana. Darcy faria 
daquele espao seu pequeno osis de luxria.
         O sto no era muito espaoso, mas bem iluminado pela farta quantidade de janelas. Seu refgio para trabalhar seria na minscula torre em frente ao deserto. 
No poria uma escrivaninha; preferia um balco com dzias de gavetas e compartimentos ao longo das janelas.
         Precisaria comprar seu prprio computador, um fax e impressora. Haveria pilhas imensas de papel, imaginou, deliciando-se de expectativa.
         No extremo oposto ao balco, colocaria uma poltrona confortvel, criando uma rea de leitura, e haveria prateleiras pelas paredes, cheias de livros e pequenos 
tesouros.
         Darcy ficaria no sto, escrevendo durante horas, e saberia que cada detalhe fazia parte de sua alma.
         A corretora permanecera em silncio nos ltimos minutos. Ela estava no ramo tempo suficiente para saber quando se calar e recuar na apresentao. O comprador 
em potencial precisaria negociar, pensou Darcy imaginando a comisso da profissional.
         -  uma bela propriedade - falou, enfim, a corretora. - Uma vizinhana sossegada, bom comrcio, mas longe o bastante da cidade para oferecer repouso e paz. 
- Ela sorriu para Darcy. - O que acha?
         -  Sinto muito, mas esqueci seu nome - Darcy confessou, constrangida.
         -  Marion. Marion Baines.
         -  Sim, sra. Baines...
         - Marion.
         - Marion. Obrigada por dispor de seu tempo para me trazer aqui.
         - Fico feliz em faz-lo. - Marion sentiu um n na garganta, ao perceber a hesitao de Darcy. - Talvez essa casa seja grande demais para suas necessidades. 
Voc disse que  solteira.
         -  Sim, sou solteira.
         - A casa parece um tanto espaosa. Mas enquanto estiver vazia a sensao  inevitvel. Ficar surpresa ao ench-la de mveis.
         Darcy j havia imaginado toda a decorao em sua mente.
         - Vou ficar com ela.
         - Vai? - Marion surpreendeu-se. - Fantstico. Agora precisa fazer sua proposta. Se quiser usar a cozinha para preencher os papis, posso apresentar a oferta 
aos proprietrios ainda hoje  tarde.
         - Disse que fico com a casa. Pagarei o preo que pedirem.
         - Como?... - Algo a fez hesitar. Apesar de a experincia incit-la a calar-se e fechar negcio, Marion se ateve a outra questo. - Srta. Wallace, Darcy... 
Os proprietrios me contrataram para represent-los, e posso perceber que  a primeira vez que compra uma residncia. Sinto-me obrigada a mencionar que  comum oferecer 
um preo... um pouco inferior ao pedido. Os donos podem aceitar ou recusar.
         - Sei disso. Mas por que no lhes oferecer o que desejam? - Darcy se virou e fitou as janelas. - Quero essa casa de qualquer jeito.
         Foi tudo muito simples. Alguns papis para assinar e um cheque a preencher. Dinheiro vivo, dissera a corretora. Darcy gostava do som daquela expresso.
         Quando as formas de pagamento lhe foram explicadas, impostos e seguro foram calculados, ela decidira simplificar a situao e pagara em dinheiro.
         Aps acertarem a data da assinatura da escritura, Darcy entrou no carro alugado, excitada com a possibilidade de em poucos dias ter um lar.
         No minuto em que entrou na sute, pegou o telefone. Precisava ligar para Caine, pedir-lhe que representasse seus interesses durante a compra ou recomendasse 
algum colega da regio. Tinha tambm de escolher uma companhia de seguros e instalar um sistema de segurana na casa. Queria comprar os mveis, as louas e todos 
os acessrios necessrios. Oh, precisava medir as janelas para encomendar as cortinas.
         Mas, antes de tudo, queria partilhar as novidades.
         -  Mac... O sr. Blade est ocupado? - ela perguntou quando a secretria de Mac atendeu o telefone. -  Darcy Wallace.
         - Ol, srta. Wallace. Desculpe, mas o sr. Blade est em uma reunio. Quer deixar algum recado?
         - Oh... no, obrigada. Diga-lhe apenas que liguei. Desligando, imaginou lev-lo  casa e contar-lhe que ela a comprara. Mas tal alegria teria de esperar.
         Mergulhou no trabalho, obrigando-se a terminar o livro. Se tivesse sorte e a agente que contratara quisesse ler mais alguns captulos, Darcy precisaria 
estar preparada.
         Duas horas se passaram, e Mac ainda no havia retornado a ligao. Ela resistiu  ansiedade de pegar o telefone novamente. Preparou um caf e continuou 
seu trabalho.
         Quando o telefone tocou, ela o agarrou depressa.
         - Alo?
         - Darcy. Deb me disse que voc ligou.
         - Liguei. Imaginei se poderia dispor de uma hora. H algo que quero lhe mostrar.
         Houve uma pausa, um silncio hesitante que a deixou incomodada.
         - Desculpe. Tenho muitos compromissos. - Sentado  mesa de seu escritrio, Mac soube que o primeiro passo era o mais difcil. - No vou ter tempo para voc.
         - Ento deve estar muito ocupado.
         - Estou, sim. Se houver algo errado, posso enviar o gerente do hotel.
         - No h nada errado. - A fria formalidade na voz de Mac a fez estremecer. - Posso esperar. Se tiver tempo amanh...
         - Eu a avisarei se tiver algum tempo livre.
         - Certo.
         - Tenho de desligar. At mais tarde.
         Por alguns segundo, Darcy encarou o fone em sua mo, antes de coloc-lo no gancho. Ele parecia to distante, to diferente. Teria ouvido irritao na voz 
de Mac ou apenas impacincia?
         No, estava imaginando coisas. Vendo-se torcer os dedos, repreendeu-se e esfregou as mos no tecido da saia.
         Mac estava ocupado, e ela o interrompera. As pessoas detestavam ser interrompidas. Era a prpria frustrao, ou tolice, que a fazia exagerar um incidente 
muito natural.
         Haviam passado a noite anterior juntos, Darcy lembrou-se. Mac entregara-se a ela de forma selvagem e desesperada. Ningum poderia desejar tanto uma mulher 
em um dia e, no outro, espant-la tal qual um mosquito irritante.
         Claro que podia, admitiu e roou os olhos. Era ingnuo, at mesmo estpido, fingir que algo semelhante no aconteceria.
         Mas no com Mac. Ele era gentil demais e muito honesto.
         E Darcy estava apaixonada por ele.
         Excesso de trabalho, insistiu consigo mesma. Nas duas ltimas semanas, abusara do tempo e da generosidade dele. Claro, Mac precisava se concentrar nos negcios, 
necessitava de espao para respirar.
         No iria criar um tempestade em um copo de gua. Darcy endireitou os ombros e ajeitou-se na cadeira. Tinha de se concentrar no trabalho e aproveitar a noite 
solitria que se anunciava.
         Durante seis horas seguidas, escreveu sem parar, lembrando-se de acender as luzes s quando percebeu que estava no escuro. Tomou uma garrafa inteira de 
caf e surpreendeu-se ao redigir o final do livro.
         Terminado. Comeo, meio e fim. O livro estava todo gravado na memria daquela pequena mquina e copiado em um disquete.
         Para comemorar abriu uma garrafa de champanhe, embora com grande esforo, e tomou uma taa cheia. Em completo abandono, serviu-se uma segunda vez, fartamente.
         Somando as doze horas de trabalho  meia garrafa de champanhe e a uma quantidade grande de caf, ela se jogou na cama, atordoada. Adormeceu e o mal-estar 
deu origem a um sonho estranho.
         Ela se via sozinha na torre de sua nova casa. Solitria e rodeada por montanhas de papis e um enorme computador. Atravs da janela podia ver cenas desconexas, 
como em uma tela de cinema. Festas e pessoas, crianas brincando, casais abraados. O barulho de risadas e msica era abafado pelo vidro que a circundava.
         Ao bater na janela, ningum a escutou. Ningum a via. Ningum se importava com ela.
         De repente, estava no cassino, sentada  mesa de blackjack. Mas no conseguia compreender as cartas, no podia fazer clculos. No sabia o que fazer.
         Arriscar ou estagnar. Serena, como sempre elegante, a observava, impassvel. Arrisque ou pare, ela dizia. Tem de fazer uma escolha e ir em frente.
         Ela no sabe jogar. Mac apareceu e deu-lhe um amigvel toque no ombro. No conhece as regras, certo?
         Mas Darcy conhecia sim. S no podia somar as cartas. Havia muito em jogo. Eles no compreendiam quanto havia naquela jogada?
         Nunca faa uma aposta que no possa cobrir, Mac lhe disse, sorrindo. A casa sempre estabelece o limite.
         Ento encontrou-se outra vez sozinha, vagando por uma das rodovias do deserto enquanto as cores e as luzes de Las Vegas ficavam para atrs. Quanto mais 
caminhava, menos Darcy conseguia se aproximar das casas e das pessoas.
         Entre nuvens de poeira, Mac surgiu com os cabelos ao vento. Est indo na direo errada.
         Porm ela no estava. Pretendia ir para casa.
         Mac esticou o brao e tocou-lhe o rosto, em um gesto simples. Voc no pertence a este lugar.
         - Sim, perteno. - O grito desesperado a despertou. Sentando-se na cama, ficou espantada com a extenso da raiva que sentia. Respirou fundo, na tentativa 
de se acalmar.
         O sol batia em seu rosto porque se esquecera de fechar as cortinas na noite anterior.
         -  Chega de exageros com champanhe, Darcy - murmurou, esfregando os olhos, ainda tomada pelo sonho.
         Aps anotar cada ntido detalhe do sonho, olhou o relgio e pegou o telefone. Serena atendeu no segundo toque.
         -  Serena, bom dia,  Darcy. Espero no estar ligando muito cedo.
         -  No. Justin e eu estamos tomando o caf da manh.
         -  Est ocupada hoje?
         - A princpio, no. O que tem em mente?
         
         Darcy torcia os dedos, nervosa, enquanto Serena caminhava pelo primeiro pavimento da casa.
         -  Sei que foi uma deciso precipitada - Darcy comentou. - Foi a nica propriedade que visitei. Mas j tinha uma imagem em minha cabea do que queria, e 
esta casa...  ainda melhor.
         Serena deu mais alguns passos ao longo da porta de vidro e sorriu.
         -   linda. Combina muito bem com voc. Acho que fez a escolha perfeita.
         - Verdade? - Explodindo de alegria, Darcy levou as mos ao rosto. - Tive receio de que me achasse louca.
         -  No h loucura alguma em querer uma casa e investir em uma excelente propriedade.
         -  Oh, quase morri de vontade de mostr-la para algum. Ontem, depois que assinei o contrato, corri para encontrar Mac. Mas ele estava ocupado, ento...
         Darcy deu de ombros e se afastou, antes que pudesse ver a expresso de Serena. Pelo que ela sabia, seu filho no andava mais ocupado que o normal.
         -  Voc lhe disse que comprou uma casa, e ele no teve tempo de vir conhec-la?
         -  Eu disse que desejava lhe mostrar algo...  tolice, mas queria que ele fosse o primeiro a ver a casa. Por favor, no conte nada a Mac.
         - No vou contar. Darcy, por que decidiu comprar uma casa aqui em Las Vegas?
         Ela caminhou at a porta de vidro e fitou a imensido do deserto.
         - Isso me atrai. Determinadas pessoas se sentem magnetizadas pela gua ou pelas montanhas ou at mesmo por grandes cidades. O que me atrai  o deserto. 
No tinha a menor idia disso at chegar aqui e conhec-lo.
         Sorrindo de prazer, Darcy se virou.
         -  E adoro a fantasia, a mgica no ar, as luzes anunciando que tudo pode acontecer. Todos precisam de um lugar que os faa acreditar na beleza da vida. 
No fundo, as pessoas buscam apenas a felicidade.
         -  Sim, acredito nisso e estou feliz por voc ter encontrado seu lugar. - Serena atravessou a sala e tocou os cabelos de Darcy. - Mas tudo isso tem a ver 
com Mac tambm, no ?
         Como ela no respondesse, Serena sorriu.
         - Querida, posso ver como se sente a respeito dele.
         - No consigo deixar de am-lo.
         - Claro que no. Por que deveria? Comprou a casa pensando nele, Darcy?
         - Sim. Mas tambm preciso de um lar. Por isso estou aqui. No espero que Mac sinta o mesmo que eu. Mas pretendo apostar nisso. Se perder, ao menos saberei 
que joguei. No vou mais ficar olhando pela janela - murmurou, referindo-se ao sonho.
         - Aposto todo meu dinheiro em voc.
         - Devo confessar que me apaixonei pela famlia de Mac tambm.
         - Oh, querida! - Serena abraou-a, lembrando-se de que no havia criado filhos idiotas. Mac acabaria caindo em si. - Mostre-me o resto da casa.
         - Sim. Gostaria que me ajudasse a escolher os mveis. O que acha?
         - ensei que nunca fosse pedir.
         Manter-se ocupada foi a melhor terapia para Darcy. Havia centenas de assuntos borbulhando em sua mente. Cores, tecidos, lustres. O quarto menor deveria 
se tornar uma biblioteca ou a saleta no andar inferior serviria melhor para o propsito?
         Que tipo de rvore queria na entrada da casa, palmeiras ou fcus?
         Cada deciso era absurdamente importante para ela, e cada escolha lhe causava extrema alegria.
         Apesar de preferir partilhar as escolhas com Mac, resignou-se, pois no haviam passado um s momento juntos durante os ltimos dois dias.
         
         Mac procurava manter a mente ocupada para no pensar em Darcy, Mas sentia uma enorme falta dela. Ambos necessitavam de tempo e espao a fim de analisar 
o relacionamento.
         
         Mac tentou convencer-se de que Darcy precisava de liberdade, enquanto caminhava pelo escritrio, sem conseguir trabalhar. Ela no telefonara outra vez e, 
pelas informaes que Mac obtivera de alguns funcionrios, Darcy passava mais tempo fora que dentro do hotel.
         Exercitando as asas de fada, ele imaginou, saudoso.
         Na verdade, ele a impedira de fazer isso. Colara-se a Darcy, iludindo-se com o fato de que a estava ajudando com aquela atitude possessiva.
         Ele a queria.
         Dias antes, Darcy entrara na vida de Mac, perdida e desesperada por afeto. Ele, por sua vez, tirara vantagem disso. Os motivos no importavam pois o resultado 
era o mesmo.
         Ela acreditava estar apaixonada. A idia passara na mente de Mac mais de uma vez, e ele se aproveitara disso para mant-la prxima, a fim de ver at que 
ponto ela sustentaria a iluso.
         Darcy era inexperiente. Nenhum homem jamais a tocara como Mac o fizera. Ela baseava a prpria existncia em um inundo de fantasias, e Mac queria compartilhar 
esse mundo. Seria fcil. E imperdovel.
         Contudo, tinha dignidade e no ousaria amarr-la, prender suas asas de fada e observar a inocncia cair em desgraa. A vida de Darcy estava apenas comeando, 
lembrou-se. E a dele j havia sido estabelecida.
         De sbito, ela entrou no escritrio, plida e com os olhos arregalados.
         - Desculpe. Desculpe, sei que est ocupado. Eu no deveria perturb-lo, mas...
         - O que aconteceu? Est machucada? - Mac a agarrou pelos ombros, aflito.
         - No, no. - Enquanto Darcy meneava a cabea, segurava-o pela camisa. - Estou bem. No, no estou nada bem. Na verdade, no tenho a menor idia de como 
estou. Vendi meu livro. Vendi, Mac! Oh, Deus, fiquei tonta.
         - Vendeu o livro? Respire devagar, vamos. Isso. Pensei que no havia terminado o livro.
         - O outro. O que escrevi no ano passado. O editor disse que quer o novo tambm. Os dois. - Desistindo, Darcy apoiou a cabea no ombro de Mac. - Preciso 
de um minuto. No consigo pensar. - Ento ergueu a cabea e comeou a rir. -  delicioso como sexo.
         - Sente-se.
         - No posso me sentar. Ser impossvel ficar quieta. Eles compraram o livro, no, os livros. So dois contratos. Pode imaginar? Estourei a banca outra vez.
         -  Quem comprou o livro, Darcy? E como?
         - Sim, claro. - Ela respirou fundo. - H alguns dias, recebi um telefonema de um editor de Nova York. Editora Eminence. Ele me viu no noticirio e perguntou 
se eu poderia enviar uma cpia de meu trabalho.
         - Alguns dias? - O desapontamento foi instantneo. - Nunca mencionou o fato.
         -  Quis esperar at saber a resposta. Mas agora a tenho. - Ela levou as mos ao rosto, e as lgrimas comearam a cair. - No vou chorar. Ainda no. Escolhi 
um agente na lista. Sabia que o editor queria apenas ver meu trabalho por causa do estardalhao da mdia, mas havia uma chance de ele gostar. Ento contratei um 
agente.
         -  Pelo telefone.
         -  Sim. - A evidente desaprovao no tom de voz a fez suspirar. - Sei que foi um risco, mas no quis esperar. Minha agente ligou hoje de manh e disse que 
a editora fez uma oferta, muito decente, alis. Ento ela me aconselhou a recus-la.
         Como sentisse um mal-estar repentino, Darcy colocou as mos na barriga.
         - No pude acreditar. A chance que sempre almejei estava a minha frente, e ela me aconselhou a dizer no.
         -  Por qu?
         - Foi o que perguntei. Ela disse... - Darcy fechou os olhos, relembrando o momento - ...que tenho um talento incrvel e a histria  sensacional, portanto 
eles tero de me pagar mais. Se no aceitarem, ela ir oferecer o livro a outra editora de renome. Minha agente acredita em mim. Resolvi arriscar. Dez minutos depois, 
o editor ligou e comprou os dois livros. Agora posso me sentar.
         Exausta, ela se jogou na poltrona.
         - Estou to feliz por voc, Darcy. - Mac se abaixou diante dela. - E orgulhoso tambm.
         - Durante toda minha vida quis ser escritora. Ningum jamais acreditou em mim. - As lgrimas comearam a fluir. - "Seja educada, Darcy". "Mantenha a cabea 
no lugar". Sempre fiz o que mandavam, porque nunca pensei que fosse boa o bastante.
         - Voc  boa para fazer qualquer coisa - ele murmurou. - Mais que boa, alis.
         - Na escola, eu estudava muito. Meus pais eram professores, portanto sabia quanto isso significava para eles. Mas, apesar do esforo, minhas notas eram 
boas em vez de timas. Viam meu boletim e franziam a testa. Diziam que havia trabalhado bem, mas podia ser melhor se aumentasse a dedicao. No entanto, no conseguia. 
Era o melhor que eu podia fazer, embora nunca fosse o suficiente.
         - Estavam errados.
         - No queriam ser to crticos. Apenas no compreendiam. - Darcy segurou as mos de Mac. - Costumava mostrar-lhes as histrias que escrevia na esperana 
de v-los entusiasmados.  Durante anos, esperei pela aprovao deles.
         Suspirando, ela enxugou as lgrimas com as mos.
         - Nunca mostrei a ningum meu primeiro livro. Jamais tive coragem. Creio que, no ntimo, sempre desejei que algum me dissesse quo boa eu era. Agora consegui.
         - Tome. - Mac entregou-lhe o leno que havia tirado do bolso.
         - No estou triste. Mas h tantas emoes dentro de mim, tantos motivos para ficar feliz. Precisava lhe contar...
         - Fico contente que o tenha feito. Notcias como essa no podem esperar. - Ele roou a face delicada e, depois de um suspiro profundo, beijou-a na testa. 
- Temos de comemorar. - Mac fitou-a por alguns segundos e se levantou. - Vamos nos reunir para um drinque, assim poder me contar seus planos.
         - Planos?
         - Voc vai para Nova York por alguns dias, suponho. Precisa conhecer seu editor e sua agente.
         -  Sim, talvez na semana que vem.
         To cedo, ele pensou e olhou o lindo rosto ainda mido pelas lgrimas.
         - Vamos sentir sua falta por aqui - Mac comentou, casual. - Espero que mantenha contato e nos informe de seu novo endereo.
         -  Endereo? Mas... vou voltar para Las Vegas.
         - Voltar? - Mac se espantou. - Darcy, adoramos t-la como hspede, mas no pode morar em uma sute. - Ele riu e sentou-se na beirada da mesa. - Voc no 
 uma jogadora profissional.  bem-vinda para ficar at finalizar seus planos de viagem.
         Mac estava administrando um negcio, ela pensou, nervosa. Havia tirado vantagem da generosidade dele, ocupando uma sute cara por duas semanas.
         -  No imaginei. Desculpe. Vou me instalar em outro quarto quando eu voltar at...
         - Darcy, no h razes para voltar a Las Vegas.
         - Claro que h. - Seu corao comeou a bater mais depressa. - Moro aqui.
         - O Comanche no  sua casa.  minha. - Mac no mais sorria, e os olhos se tornaram frios e duros. Era o nico jeito de encarar a expresso sofrida naquele 
maravilhoso rosto. -  hora de iniciar uma nova vida. Acaba de acontecer algo extraordinrio a voc. Aproveite.
         -  Voc no me quer mais. Est me mandando embora de seu hotel. Expulsando-me de sua vida.
         - Ningum a est expulsando.
         - No? - Ela ensaiou uma gargalhada e apertou o leno entre os dedos. - Quo estpida acha que sou? Est me evitando h dias, Mac. Mal me tocou desde que 
entrei neste escritrio. Agora diz adeus e me deseja boa sorte, longe de voc, claro.
         - Quero mesmo que tenha boa sorte - ele arriscou.
         - Contanto que seja nos braos de outro homem - Darcy rebateu. - Bem,  uma pena porque vou viver minha vida aqui. Comprei uma casa.
         Mac havia se preparado para presenciar uma exploso de lgrimas e recriminaes. Mas ficou aparvalhado.
         -  O qu? Comprou o qu?
         - Comprei uma casa.
         -  Perdeu a cabea? Uma casa? Aqui? Em que estava pensando?
         - Em mim.  um novo hbito que adquiri e que estou adorando.
         - No se compra uma casa da mesma forma que se adquire um vestido.
         - Sei comprar uma propriedade e j o fiz, Mac Blade.
         - Voc no tem nada a ver com Las Vegas.
         - Oh, verdade? - A tristeza a invadia de tal forma que ela no imaginava como ainda conseguia falar. - Voc possui a cidade inteira ou apenas esse prdio? 
Saiba que encontrei um lugar que no pertence a seu monoplio. Gosto daqui e vou ficar,
         - A vida no  um cruzeiro sem fim no Strip.
         - E Las Vegas no se restringe somente ao Strip. E uma cidade em pleno desenvolvimento e uma das mais habitveis do pas. Tem um sistema escolar excelente, 
oportunidades de trabalho e o custo de vida  bem acessvel. A distribuio de gua  um problema real, e as fontes tero srios comprometimentos em um futuro prximo. 
De qualquer maneira, a criminalidade  menor em comparao a outras cidades, e a regio continuar a evoluir no prximo milnio.
         Fazendo uma pausa, Darcy tomou flego.
         - Sou uma escritora. J trabalhei como bibliotecria. Sei muito bem como fazer pesquisas.
         - Sua pesquisa revelou a quantidade de agiotas por metro quadrado? Relatou a prostituio, corrupo e lavagem de dinheiro que h nesta cidade?
         -  Na realidade, sim - ela retrucou. - Talvez fique chocado, mas eu sabia de tudo isso antes de vir para c.
         - Voc apenas no pesou as dificuldades.
         -  Est enganado. Completamente errado. No comprei essa casa s cegas. Comprei-a porque encontrei o lugar com que sempre sonhei e jamais imaginei que poderia 
obt-lo. Mas no se preocupe. Las Vegas  grande, portanto no ser obrigado a esbarrar em mim toda hora.
         -  Espere um minuto. Droga - ele murmurou, e segurou-a pelos ombros para vir-la, Darcy recuou e o encarou, furiosa, mantendo-se distante.
         - No ouse me tocar. No preciso de piedade, tampouco vou fazer um escndalo. Sou grata por tudo e jamais esquecerei o que fez por mim. No entanto, quero 
manter relaes com seus pais, sua famlia e no pretendo coloc-los, ou a voc, em uma posio desagradvel. Mas me magoou muito, Mac - confessou, em voz baixa. 
- E no deveria t-lo feito.
         Ao passar pela porta, Darcy bateu a com toda a fora atrs de si.
         
         
         
         
         
         
         
        CAPTULO XII
         
         
         
         - Bem, concordamos em perdoar os dois milhes que Harisuki e Tanaka perderam no bacar. - Justin ajeitou-se na cadeira, fingindo no notar a total falta 
de ateno do filho. - Ainda assim, eles devem ao cassino dez e doze milhes respectivamente. Computamos os quartos, as refeies, as contas do bar e as compras 
que suas esposas fizeram nas butiques. Vo voltar... - acrescentou, baforando o charuto - ...e deixaro mais alguns milhes aqui e no do outro lado da rua. Voc 
j solicitou a limusine deles para amanh? - Ele esperou um pouco. - Mac?
         -  O qu? Sim. J foi providenciada.
         -  timo. Agora que terminamos esse assunto, pode me contar o que est acontecendo com voc?
         -  Nada em particular. Quer uma cerveja? Justin assentiu.
         - Temos sempre de implorar para que nos conte seus problemas. Sua determinao em resolver os entraves sozinho  admirvel, mas tambm entediante. - Ele 
sorriu e aceitou a cerveja que o filho lhe entregava. - Nesse caso, no ser necessrio implorar. J sei que o problema envolve Darcy.
         - No. Sim. No. - Mac soltou um suspiro. - Ela vendeu o livro. Na verdade, os dois livros.
         - Que maravilha! Ela deve estar muito feliz. Por que voc no est?
         -  claro que estou feliz por ela! Foi o que Darcy sempre quis. Sua vida agora vai tomar outro rumo.
         -  isso que o preocupa? O fato de ela no precisar mais de voc?
         - No. O plano era deix-la fazer as prprias escolhas, dar-lhe espao para se descobrir.
         - Era? Mac, est apaixonado por ela?
         - A questo no  essa.
         -  a nica questo que conta, filho.
         - Esse lugar no  o que ela procura. Eu no sou o homem ideal para ela. - Mac caminhou at a janela e observou as fontes coloridas e as luzes de non. 
- Quando estiver mais calma, vai concluir isso.
         -  Em minha opinio, formam um belo casal.
         - Administro um cassino. Meus horrios de maior atividade so quando as pessoas esto em casa dormindo. - Ele colocou as mos no bolsos, apreensivo. - Darcy 
passou a vida se reprimindo. E mais, sempre se manteve  margem da sociedade, criando suas fantasias. Ela est comeando a realizar seus sonhos. No tenho o direito 
de interferir.
         - No creio que esteja vendo a situao com clareza, Mac.  um empresrio, e dos bons. Ela  uma jovem interessante e cheia de vida.
         - Desde que chegou aqui, semanas atrs - ele lembrou o pai -, Darcy teve sua vida virada de cabea para baixo. Ela ainda no conseguiu organizar os sentimentos.
         - Voc a est subestimando. E seus sentimentos, filho, no importam?
         -  Deixei meus sentimentos sobrepujarem a razo. Ela apareceu em Las Vegas intocvel. - Mac se virou com os olhos agoniados. - Eu devia ter mantido minhas 
mos longe dela, mas no o fiz. No pude resistir.
         - Agora vai se punir por ser humano? - Justin perguntou. - Pretende negar um relacionamento que lhe faz bem porque acredita que  o melhor para ela.
         - Ela est encantada com o sucesso - Mac insistiu, imaginando por que aquelas palavras agora soavam to tolas. - V apenas o que quer ver. Comprou uma casa, 
por Deus!
         -  Sim, eu sei.
         -  E... voc sabia. - Mac encarou o pai.
         -  Ela levou sua me para v-la um dia depois de assinar o contrato. Tambm fui conhecer a casa.  uma bela propriedade.
         -  ridculo comprar uma casa em um lugar que conhece h poucas semanas. Ela vive no mundo da fantasia.
         - No, no vive. Darcy sabe exatamente o que quer, e estou surpreso que no tenha percebido isso, Mac. S consigo aceitar o fato de voc se afastar dela 
se no a deseja.
         - Eu a desejo todos os minutos de meu dia - ele confessou, desesperado. - Pensei que pudesse apag-la de minha mente...
         - Quando vi sua me pela primeira vez, eu a desejei muito. Mas am-la me apavorava. E ainda apavora s vezes.
         Surpreso, Mac sentou-se na cadeira.
         - No aparentam nada disso. Fazem o casamento parecer leve e descontrado. Vocs... combinam um com o outro.
         -  esse o problema? - Justin se aproximou, tocando a mo do filho.
         - No. Os casamentos tm sucesso em nossa famlia. Embora as vantagens estejam contra, eles acontecem. - Mac fitou a aliana de ouro no dedo de seu pai. 
Trinta anos, pensou, e ainda servia. Era um milagre. - Imagino que funcionem porque todos agem com cautela na hora de encontrar uma parceira, no sentido literal 
da palavra. Uma scia.
         - Est vendo sua me e eu como scios em um acordo de negcios, uma parceria perfeita. No  verdade. Tivemos dificuldades no incio do relacionamento e 
ainda temos algumas, mas conseguimos super-las porque nos amamos. Somos casados h trinta anos, Mac.
         -  Mas vocs sempre caminharam juntos e na mesma direo.
         - Sim. - Justin encostou na cadeira. - Tivemos muitas brigas ao longo do percurso, mas juntos construmos esse caminho.
         - Est querendo me dizer que cometi um erro - Mac murmurou. - E talvez esteja certo. - Passou a mo sobre as faces. - No tenho certeza de mais nada.
         - Quer garantias? No h nenhuma. Amar uma mulher  o maior risco que poder haver em um jogo. Voc aposta e ganha, depois perde, em seguida, volta a ganhar 
o dobro. Mas se no arriscar, nunca vai vencer. Ela  a mulher que deseja?
         - .
         - Vou perguntar de novo. Est apaixonado por Darcy?
         - Estou. - Admitir intensificava o sentimento. - E, sim,  apavorante.
         Solidrio, Justin sorriu.
         - O que vai fazer?
         - Conquist-la. - Mac respirou fundo, - Preciso t-la de volta.
         - Por que conquist-la? O que fez, filho?
         - Ah, pai... - Ele tomou conscincia ento de quo errada havia sido sua cartada. - Eu praticamente a mandei embora daqui.
         - Nesse caso,  melhor correr e remediar o estrago que fez.
         - Vou correr. - Mac sentiu a energia renascer das cinzas. Sua sorte no o abandonaria. Precisava calcular todas as possibilidades. - Tenho de conversar 
com ela. Darcy deve estar no quarto, sofrendo, quando deveria comemorar.
         - Acho que perdeu essa rodada, filho - Justin murmurou, atento s telas.
         -  H um par de brincos de diamantes na joalheria do hotel. - Mac verificou o bolso para ter certeza de que seu carto de acesso ao elevador estava l. 
- Ela precisa de algo muito especial para celebrar a venda dos livros.
         De repente, ficou nervoso, desconhecendo as sensaes que o invadiam.
         - Voc acredita que brincos e flores so adequados, pai?
         - No acredito que possa resolver a situao desse modo. Mas... no vai encontrar Darcy em seu quarto.
         -  Como?
         - Olhe para a tela trs, segunda mesa  direita. Ansioso, Mac olhou a tela. Ento, fitou-a com mais ateno. Sua linda fada, usando um sensual vestido vermelho, 
preparava-se para jogar os dados.
         -  O que ela est fazendo?
         -  Buscando um oito. Eis uma tima pontuao. Cinco e trs - Justin disse e sorriu, ao escutar o filho sair porta afora. - A dama vence a rodada.
         
         - Vamos, boneca. Venha para o papai.
         Como o homem ao lado de Darcy fosse velho o bastante para ser seu pai, ela no se importou quando ele lhe deu um tapinha no traseiro. Considerou que o gesto 
era para dar sorte.
         Esfregou os dados entre as mos, inclinou-se sobre a mesa e jogou-os sobre o feltro. Eles saltitavam, enquanto dinheiro e fichas passavam de um lado para 
o outro.
         - Sete! - Ela ergueu os braos, vitoriosa. Depois de recolher as fichas, voltou a distribu-las sobre a mesa. - Vamos ver... Cinco  meu ponto.
         - Faa rolar os dados, loirinha. - O homem do lado oposto da mesa jogou uma nota de cem dlares.
         - Voc  boa nisso.
         -  Sou mesmo.
         Darcy esfregou os dados novamente e lanou-os atravs da fumaa de cigarro. Os cubos pararam com um trs e um dois.
         - No sei por que achava esse jogo to difcil...- Ela sorriu e entregou sua taa de champanhe a algum. - Segure para mim, por favor. - Em seguida, pegou 
os dados. -  minha vez - disse ao crupi.
         - Deus, adoro dizer isso! - Jogou os dados com f. Mac afastava e empurrava as pessoas para se aproximar da mesa. Avistou a seda vermelha do vestido de 
Darcy, e segurou-a pelo brao logo depois que ela jogou os dados. Suas palavras pareciam abafadas pelos comentrios da multido.
         -  O que est fazendo?
         Darcy virou o rosto, comemorando outra vitria.
         - No preciso mais de seus servios nem de sua ajuda, sr. Blade. Afaste-se para eu possa ter espao.
         Mac agarrou-lhe o pulso quando ela se preparava para pegar os dados.
         -  Recolha as fichas.
         -  De jeito nenhum. Estou com sorte.
         -  Vamos, amigo, deixe a dama jogar.
         Em um gesto frio, Mac mal olhou para o homem do outro lado da mesa.
         -  Recolha as fichas dela - ordenou ao crupi, afastando Darcy da multido.
         - No pode me fazer parar quando estou com sorte.
         - Est enganada. O cassino  meu, e posso fazer qualquer jogador parar quando quiser. A casa estabelece o limite.
         - timo. - Ela puxou o brao. - Vou jogar em outro cassino. E direi a todos que o gerente do Comanche no consegue bancar um jogo honesto.
         - Darcy, suba. Precisamos conversar.
         -  No me diga o que tenho de fazer! - ela exclamou, satisfeita por chamar a ateno de outros hspedes. - Eu lhe disse que no pretendia envergonh-lo. 
No entanto farei um escndalo se no me deixar em paz. Pode me expulsar do cassino e do hotel, mas no tem o direito de me dar ordens!
         - Estou pedindo - Mac dizia, com considervel pacincia - para vir comigo a fim de que possamos conversar.
         -  E estou lhe dizendo que no atenderei a seu pedido.
         - Certo. Ser  fora ento. - Ele a agarrou pela cintura, colocando-a sobre o ombro. Apenas aps alguns segundos, ela se recuperou do choque e comeou 
a gritar. - Solte-me! No pode me tratar desse jeito.
         - Fez sua escolha. - Mac ignorou a expresso dos hspedes e dos funcionrios e carregou-a at o elevador.
         - No quero conversar com voc. J fiz as malas e vou partir amanh de manh. Agora me solte.
         - De maneira nenhuma. - Ele colocou-a em p no elevador. - Voc  muito teimosa e...
         Assim que se viu segura, Darcy deu um soco no estmago de Mac. No doeu muito, mas o impacto foi forte o bastante para faz-lo calar-se.
         - Precisamos exercitar sua mo direita - ele brincou. Desistindo, Darcy cruzou os braos. Quando as portas do elevador se abriram, saiu apressada;
         -  O hotel pode pertencer a voc, mas o quarto  meu at amanh, portanto no quero que entre.
         - Temos de resolver nossas diferenas.
         - As diferenas j esto bem resolvidas, graas a voc.
         -  Darcy, voc no entendeu...
         Com um gesto brusco, ela afastou as mos de Mac.
         -  A questo  essa. Voc acha que no entendo nada. Pensa que sou uma tonta que no sabe se cuidar.
         - No acho que seja tonta.
         - Mas idiota sim - Darcy rebateu, irada. - Sou esperta o bastante para perceber que se cansou de mim e que pretende me dispensar como se eu fosse uma criana 
irritante.
         - Eu me cansei de voc? - J no limite de sua pacincia, Mac passou a mo  entre os cabelos. - Sei que armei uma grande confuso entre ns. Deixe-me explicar.
         - No h nada para explicar. Voc no me quer. Tudo bem. No vou me atirar da cobertura por causa disso. - Darcy ergueu os ombros e se virou. - Sou jovem, 
rica e tenho uma carreira promissora. Voc no  o nico homem no mundo.
         - Deixe-me falar...
         - Foi o primeiro. - Ela o interrompeu e o fitou com desdm. - Mas isso no significa que tenha de ser o ltimo.
         Esse era o principal motivo que levara Mac a se afastar. Entretanto, ao ouvi-la pronunciar o fato e ver no olhar dela o calor e o desejo contido, seu corpo 
reagiu de maneira to violenta que ele precisou se conter.
         -  Cuidado com o que diz, Darcy.
         - Tomei cuidado a vida inteira. Estou cansada. Agora me arrisco e depois penso nas conseqncias. Sou dona de minhas atitudes. Se eu cair, o problema ser 
meu e de ningum mais.
         Mac sentiu um onda de pnico percorrer-lhe o corpo porque sabia que ela falava srio. Darcy poderia se envolver com o primeiro que aparecesse.
         - Voc est apaixonada por mim - ele apelou. O corao de Darcy se partiu em pedaos.
         - Porque dormi com voc? Ora, no me subestime tanto.
         Apesar de as palavras soarem jocosas, ela comeou a torcer as mos. Era o sinal que Mac precisava para reconhecer o blefe.
         - No teria dormido comigo se no estivesse apaixonada. Se eu a abraar ou a beijar, voc me dar a prova sem dizer uma s palavra.
         - Sabia disso o tempo todo e me usou. - Darcy sentiu suas ltimas defesas se dissiparem.
         - Pode ser. Passei mal bocados por causa disso e cometi muitos erros porque no pude superar meu desejo.
         -  Sente culpa ou raiva, Mac? - Darcy voltou a ficar de costas para ele. - Voc me magoou demais. Eu lhe dei meu corao sem reservas. E, como se no bastasse 
a rejeio, resolveu ignorar meus sentimentos.
         - Eu tinha certeza de que estava fazendo o melhor para voc.
         - Para mim? - Ela soltou uma gargalhada. - Foi muita considerao de sua parte.
         - Darcy. - Mac tentou toc-la, mas ela recuou. Recolhendo-se, sentiu o peito se apertar. - No vou toc-la, mas ao menos olhe para mim.
         - O que est querendo? Quer me ouvir dizer que compreendo? Sinto muito. No pretendo lhe dar esse prazer. - Darcy tentava, em vo, conter as lgrimas. - 
No o entendo, Mac. No  obrigado a sentir o mesmo que eu... a jogada foi minha, na verdade. Mas poderia ter sido mais gentil.
         - Se tivesse revelado meus sentimentos, no estaramos tendo essa conversa. Alis, no deveramos estar aqui. - Seguindo a prpria intuio, Mac pediu: 
- Quero ver sua casa.
         -  O qu?
         -  Gostaria muito de conhecer sua casa. Agora.
         - Agora? - Darcy esfregou os olhos. -  tarde. Estou cansada. E no tenho as chaves.
         -  Quem  a corretora? Tem um carto com o telefone dela?
         -  Sim, est sobre a mesa. Mas...
         -  timo.
         Para a confuso de Darcy, Mac caminhou at o telefone, ligou para a corretora de imveis e, em menos de dois minutos, combinou tudo com Marion Baines.
         - Ela vai nos dar as chaves - informou, depois de desligar o telefone. - Dentro de vinte minutos, passaremos na casa dela.
         -  um homem poderoso - Darcy comentou, sem entusiasmo. - Que pretende conseguir com isso?
         -  Quero uma chance. - Ele sorriu, desafiador. - Vamos ver sua nova casa. Precisa de um casaco?
         Darcy meneou a cabea em negativa. Disse a si mesma que deveria se recusar a acompanh-lo se ainda lhe restasse algum resqucio de orgulho prprio.
         Durante o trajeto no conversaram. Tanto melhor, ela pensou. Talvez o silncio amenizasse a raiva, e acabassem, no final das contas, amigos, restando o 
mnimo de respeito um pelo outro.
         Mac parecia conhecer o caminho. Pegou as chaves e dirigiu at as cercanias da cidade, onde despontava a silhueta da casa sob a luz do luar.
         - Incrvel - ele murmurou, observando o local. - Finalmente encontrou seu castelo.
         O comentrio quase a fez sorrir.
         - Foi o que pensei na primeira vez em que a vi. Por isso j sabia que seria minha.
         -  Convide-me para entrar.
         - Voc tem as chaves. - Ela abriu a porta do carro. Mac esperou que ela se aproximasse da entrada para entregar-lhe as chaves.
         -  Convide-me para entrar, Darcy.
         Infeliz, Darcy pegou as chaves, dizendo a si mesma que ele estava tentando fazer de tudo para tornar a situao menos miservel.
         - Nunca estive aqui durante a noite. - Ela caminhou at a porta de vidro. - H iluminao ao redor da casa e no jardim dos fundos.
         Preocupado, Mac imaginou-a sozinha  noite naquela manso.
         - H algum sistema de segurana?
         - Sim. J sei o cdigo. - Ela destrancou a porta e se virou para os botes na parede. Depois de desativar o alarme, acendeu as luzes.
         Tal qual a me, ele entrou sem dizer nada. Mas, naquele caso, o silncio a irritou.
         -  Sa para ver mveis e encontrei peas lindas.
         -  H bastante espao.
         - Descobri que gosto de espao.
         Haveria plantas no deque, Mac imaginou. Vasos repletos de flores delicadas das quais ela prpria cuidaria. Darcy compraria mveis de cores suaves, e enfeitaria 
a casa com alguns detalhes extravagantes.
         Era surpreendente como ele podia imaginar a decorao com tanta clareza se a conhecia havia to pouco tempo.
         Seguiu as luzes do lado de fora e viu as guas azuis da piscina, com o extenso deserto como pano de fundo.
         Impressionante e poderoso, o deserto parecia acalmar qualquer alma atormentada. Mac havia se esquecido daquela riqueza natural do outro lado do mundo em 
que vivia, e, por causa disso, recusara-se a aceitar que o lugar de Darcy era ali.
         -   isso que voc quer.
         -  Sim.  tudo que quero.
         - A torre. Vai escrever no sto. Espantada, Darcy tentou se conter. De que maneira ele poderia saber?
         - Sim.
         - Ainda no comemoramos. - Mac se voltou. Ela estava em p no centro da sala, com as mos cruzadas e olhos brilhantes. - Foi minha culpa. Quero que saiba, 
Darcy, quo feliz estou por voc, e quo arrependido fiquei porque estraguei o momento mais importante de sua vida.
         "Sente-se culpado", ela pensou. Mac era um homem honesto demais para ignorar as prprias falhas.
         - No tem importncia.
         - Tem, sim - ele a corrigiu. - Fiz uma grande besteira. Quero tentar me explicar. Gostaria que visse a situao de meu ponto de vista. Voc caiu em meus 
braos, literalmente, na primeira vez em que a vi. Estava sozinha, assustada e completamente vulnervel. Eu a queria tanto e depressa. Sou bom quando se trata de 
resistir a tentaes por isso tenho sucesso no que fao. Mas no consegui resistir a voc.
         - No me seduziu ou me forou a nada. Foi uma atrao mtua.
         - Mas no foi por acaso. - Mac deu um passo  frente, aliviado por ela no ter recuado. - Eu a escolhi porque a queria mesmo sabendo que voc necessitava 
de muito mais do que eu poderia oferecer. No pretendia lhe oferecer meu corao e nem poderia dar-lhe tudo isso. - Ele fez um amplo gesto com os braos.
         - Eu quis correr o risco. Desde o incio, sabia que no queria compromissos ou casamento. Mesmo assim quis me entregar a voc, estava consciente da situao.
         Surpreso, ele parou um instante.
         - Jogou comigo para me fazer mudar de idia?
         - Havia a chance de no se apaixonar por mim, mas era nfima. - Darcy sentiu a energia revigorar. -  Seu av acha que sou perfeita para voc. E sua me 
tambm.
         - Conversou com minha me? - Mac ficou chocado.
         -  Adoro sua me - ela disse, passional. - E tenho o direito de conversar com quem quiser.
         - No quis dizer isso. Estamos mudando de assunto. -  Ele suspirou. - Pensei que precisasse de tempo para se organizar, explorar as possibilidades, enfim, 
divertir-se ao mximo. Voc jogaria um pouco no cassino, gastaria algum dinheiro... Descobriria o sexo...
         -  Ento voc bancava meu tutor? Quantos insultos ainda lhe restam, Mac?
         - No estou tentando insult-la. S quero faz-la entender que agora sei que agi errado.
         - Ainda no comeou a dizer que est arrependido. Talvez devesse comear.
         -  Voc sempre tem as respostas na ponta da lngua. - Ele colocou as mos nos bolsos, frustrado. - No havia percebido isso antes.
         -  Guardei o melhor para o fim. Ento a caipira do interior chega  cidade grande e o esperto rapaz lhe mostra o verdadeiro sabor do pecado. Depois a dispensa 
antes que ela entregue sua alma  perdio.  o suficiente?
         - Voc est sendo cruel consigo mesma. Estava sozinha e apavorada quando chegou a Las Vegas, Darcy.
         - E resolveu me consolar.
         -  Fique quieta. - Impaciente, ele agarrou os braos de Darcy. - Ningum jamais lhe deu escolha. Voc mesma me disse. Ningum nunca permitiu que desabrochasse. 
Deus, Darcy, desde que chegou aqui, sua alma adquiriu cor, brilho e alegria. Como eu podia lhe tirar isso tudo? Nunca foi outra pessoa. Jamais esteve com um homem. 
No queria v-la morando no hotel, passeando pelo cassino, fechando-se para o mundo porque no conhecia nada melhor.
         -  Esse  seu jeito de possibilitar que eu faa minhas prprias escolhas? Engraado, mas  justamente o tipo de opo que as pessoas me deram a vida toda.
         - Eu sei. Sinto muito.
         - Tambm sinto. - Darcy segurou-o pelas mos e puxou-as at se soltar. - J terminamos?
         - Ainda no.
         - Oh, o que h mais para ser dito? - Ela comeou a caminhar pela sala. - Por que no vem conhecer o resto da casa? Devemos fingir que somos amigos? O que 
viemos fazer aqui?
         -  Queria terminar a conversa aqui porque no  meu lugar.  seu. - Mac esperou at ela se virar. - A casa sempre oferece vantagem a seu dono.
         - No sei do que est falando.
         - Meu pai me disse algo hoje que nunca considerei. Falou que esperar os problemas se resolverem  fcil, mas amar  apavorante. - Mac a fitou nos olhos. 
- Voc me apavora, Darcy. Fico em pnico quando estamos juntos.
         Aflita, ela cruzou os braos.
         - Quando a vejo, perco os sentidos.
         - No faa isso. No  justo.
         - Tentei ser justo, e tudo que consegui foi mago-la e me fazer infeliz. Estou mostrando minhas cartas agora. No h meios de recuar. Vou continuar a ir 
atrs de voc. Comprou este castelo sozinha. Eu tinha de deix-la ir em frente.
         Aproximando-se, Mac acariciou os braos finos.
         - Est tremendo. Ser medo? - Beijou-a no canto dos lbios. - Talvez ainda me ame...
         A respirao de Darcy tornou-se sfrega.
         -  No sinta pena de mim. Eu no...
         O beijo foi repentino e violento. Ela sentiu as batidas descompassadas do corao e o calor que percorria-lhe o corpo.
         - Acha mesmo que sinto pena de voc? - Mac cobriu-lhe os lbios outra vez, aprofundando o beijo. - Esse vestido me deixa louco. Eu poderia ter matado cada 
homem daquela mesa hoje s por olhar para voc. Preciso comprar mais uma dzia desses vestidos.
         - No est falando com coerncia. No compreendo o que diz.
         - Amo voc.
         Dessa vez, o corao de Darcy pareceu parar.
         - Ama?
         - Amo tudo que diz respeito a voc. - Mac tomou-lhe as mos delicadas e beijou a ponta dos dedos. - Estou lhe pedindo para reconsiderar minhas atitudes 
e me dar outra chance.
         - Posso ser muito generosa quando se trata de outra chance. - Darcy sorriu.
         - Eu estava contando com isso. - Ele a beijou de novo, mas com ternura. - Creio que vai ter de me deixar morar aqui.
         - Aqui? - Ela devia estar sonhando. - Quer se mudar para c?
         - Bem, imagino que queira criar nossos filhos aqui.
         - Filhos? - Darcy arregalou os olhos, incrdula.
         - Deseja ter filhos, no? - Mac sorriu, vendo-a assentir com a cabea. - Gosto de famlias grandes e sou tradicional. J que vamos ter filhos juntos, voc 
precisar se casar comigo.
         - Mac... - Foi tudo que ela pde dizer. O nome do nico homem que amava.
         - Est disposta a arriscar, Darcy? - Ele pousou as mos delicadas sobre o prprio peito. - Quer apostar em ns dois?
         Sob as mos, ela sentia as batidas do corao de Mac.
         - Como sempre acontece - Darcy sorriu, maravilhada -, estou com sorte.
         Rindo, ele a tomou nos braos e rodopiou-a pela sala.
         - Eu no tenho dvida disso.


***F I M***
Beijos que Conquistam                                                          Nora Roberts

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